segunda-feira, 12 de julho de 2021

Se passam os dias

Photo by @beholdvoid

As músicas vão passando, o calor se instala, mas o sono não vem. Hoje é mais uma daquelas noites que, mesmo cansado, demorarei a dormir. Pauso o player, me espreguiço, jogo meu corpo para o lado, pego a garrafa do chão, desrosqueio a tampa metálica, um, dois, três, quatro, cinco goles de água. Isso me fará ter um pouco de coragem. Levanto, vou ao computador, posto a garrafa de vinho de uma lado, mouse do outro e cá estamos.
Essa semana foi um pouco diferente, aconteceram algumas coisas que achei que esse ano talvez não o tivesse. Além de uma bicicleta para poder ir e vir em noites quentes, alguns filmes me voltaram ao mérito de querer apenas relaxar. Vi um, ou dois filmes, desses famosos durante os anos 90/00, os que chamo carinhosamente de Sessão da Tarde. E, quem sabe, trago aqui depois algumas breves indicações? 
O que eu queria mesmo, era contar que já se passou um ano desde que comecei a fazer as lives para não me sentir tão sozinho. Graças a pandemia, tudo se tornou extremamente desgastante, seja fazer uma amizade, seja manter uma amizade. Fácil foi acabar com elas, ou deixá-las no limbo do esquecimento. 
Olho para janela e vejo os vizinhos em festa. Eles fazem churrasco todos os domingos, religiosamente. Eles riem muito, conversam muito, às vezes até dançam. Sinto falta desse tipo de possibilidade. Perdi meus amigos por ser aquele que ainda crê que a pandemia pode matar. Os poucos contatos que tinha acabaram por se afastar para não me ouvir falar que o que eles fazem é errado: É errado sair pra transar com várias pessoas diferentes no mesmo dia; é errado passar o final de semana viajando com o namorado para visitar outros amigos; é errado beber no barzinho pop cheio de gente só para aliviar a saúde mental... me tornei o fiscal dos amigos. Aquela pessoa que todo mundo odeia.
No começo da pandemia era apenas pelos stories, e as poucas pessoas que se aventuravam fazer essas coisas eram rechaçadas e "canceladas", agora é tão vulgar que o errado é não fazer o que todo mundo faz. Respiro fundo e balanço a cabeça com um sorriso amarelo, finjo interesse e logo depois volto para minhas paredes. Converso com meus botões, diálogos profundos sobre a grande vastidão da solidão.
O mundo, através da janela, é tão bonito. Os céus desses últimos dias riscam vermelho neon tão gostosamente lindo que dá vontade de sair pedalando até o horizonte, desafiando as planícies mais questionáveis. O frio vem e passa, a moda vem e passa, e as pessoas... essas aí são complicadas.
Existem dois tipos de pessoas nas nossas vidas: as pessoas onda do mar e as pessoas planetas. 
As pessoas onda do mar são aquelas que acontecem na nossa vida por um período, elas podem vir e ir tão rapidamente que talvez você jamais lembre dela pelo resto da sua vida. São colegas de infância, amigos do trabalho, parentes distantes, alguns amores rasos... Já as pessoas planetas, elas somem e aparecem em uma constância significante. Como se orbitassem ao teu redor. O magnetismo delas vão te fazer crescer ou diminuir, vão te marcar de algum modo, elas te puxam para experiências únicas e, até mesmo aquela que você nem se lembre, assim que algo acontecer você estalará direto para ela, como um insight profundo e intenso, igual Plutão, que já foi um planeta.  
Do ano passado pra cá me aconteceram muitas coisas, a maioria repetidamente enfadonha que nem vale a pena citar. Aconteceram algumas pessoas no caminho, conheci histórias novas, desejos novos, sonhos intrigantes. Não sinto falta do antigo normal, as coisas de 2019 pra trás. Sinto falta das possibilidades, de acreditar no universo infinito. Sinto falta dessa essência de crer que tudo ainda vai acontecer.
A maturidade vem dragando cada vez mais, puxando para um buraco perverso onde todas as coisas são imagináveis, mas não possíveis. Daqui da janela os pássaros seguem cuidando do ninho, a família ali festeja como se hoje o mundo fosse acabar. Talvez crescer seja isso, passar a ver o mundo mais sólido, menos etéreo. Sonhar menos e aceitar mais, ter convicções certeiras sobre pouco e parar de querer ser tudo.
Ser infinitamente, possivelmente, apenas tudo. 

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