quarta-feira, 29 de julho de 2020

Metrô


Arte de @Bysau_

"Pegou a máscara?" é o novo "pegou a carteira?". É interessante visualizar o mundo estranho que vivo. Uma metade está lutando contra uma pandemia e a outra finge que nada acontece. Uma metade é tomada pelo espírito negacionista e a outra pela solidariedade. Uma metade é sensata, a outra nem pensa. E assim foram os dias, estão sendo os dias durante esta quarentena. 
Sei que parece errado te falar, mas essas metades que te falei agora são difusas e coletivas. É muito pontual encontrar alguém que seja mesmo 50% um ou outro, pois no senso comum elas se confundem muito. A educação brasileira não é capaz de formar um indivíduo com capacidade suficiente em valores éticos, morais e sociais.
Tenho conhecimento de pessoas que estavam em quarentena e distanciamento social desde fevereiro. E a cada semana passava uma experiência em casas diferentes. Começou indo na casa da amiga, passar 10 dias lá, porque ela também estava em quarentena e isolamento social, depois foi na casa da tia, passar mais tantos dias, e na outra vez outra pessoa e assim foi. Foi até apresentar o famoso sintoma de coronavírus. E a grande surpresa era como ela tinha pego se ela estava em quarentena e isolamento social.
Sair de casa, pegar ônibus, uber, taxi, carona, ir à feira, mercado, shopping, praia, falar com familiares, vizinhos, amigos e no final: como eu peguei o coronavírus?
Outro caso curioso foi o acolhimento do corona. Um familiar estava com claros sintomas de contaminação e durante toda sua fase sintomática (tosse, febre, falta de ar) ele foi visitar os familiares todos os dias e ficava lá tendo atenção por estar doente, e nos finais de semana ia para as festas de pagode na chácara que começa sexta e termina domingo. Daí, não acreditando em coronavírus, não foi fazer o exame, não se preocupou em passar o vírus para os outros e, no fim, os familiares ficaram gravemente doentes. E, em vez de ter atenção do mais novo que contaminou, este não deu qualquer apoio porque tinha medo de ficar doente. A família passou bocados severos e dramáticos por toda a fase sintomática. Muita febre, diarreia, oxigênio e entubação. E no dia de vida-ou-morte, o infectador estava em pagode, sambando para o egoísmo estrutural.
O enterro do meu tio foi rápido, quando eu soube da notícia, lá em meados de abril, já era tarde demais. Tudo aconteceu muito rápido, mas vai ser digerido na memória até o fim dos tempos. Hoje, vendo as pessoas indo e vindo sem qualquer preocupação me pergunto: vale a pena continuar vivendo num mundo desse?
As pessoas que se importam, não se importam. Suas palavras de preocupação só servem para massagear o ego e minimizar a culpa. Elas pegam a máscara e vão visitar os parentes e amigos, vão ao shopping, à praia, aos bares aos montes. Boa parte sem máscara, Deus está protegendo, a saúde foi ungida. Deus no comando, anticristo no poder, ninguém se importando verdadeiramente. Governo desdenha do pobre, o pobre se sujeito ao desespero. Brasil.
E quanto mais os dados são somados, mais cremos que não adianta. Não adianta conversar, não adianta estudar, não adianta se importar. Essa geração de civilização está novamente perdida. A passada pela ditadura, essa pela distorção. Sorte da próxima que ainda pode sonhar com a ilusão de ser o que quiser.

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