segunda-feira, 4 de maio de 2020

Sexta-feira ou o amanhã de ontem?


Arte de @brunopixels

Aquecedor para os dias próximos do zero grau, ventilador para os dias com mais de trinta. Condicionador de ar não é uma opção, tem vento direcionado e sem competição, banho livre e à vontade. Água potável abastecida na geladeira, comida pronta e mantimentos para produção de bolos, pudins, joelhos e sanduíches. O controle remoto só perde para o controle do vídeo-game. Na tevê são série e filme disputando jogos de fazenda ou de zumbis. A internete é tão vital quanto respirar. As janelas se abrem durante o dia inteiro e se fecham para as noites.
O café é religioso, a risada é a oração.
Quarentena. 
Acordo preguiçosamente.
Ainda é cedo, o sol desperta ao som de Sweater Weather, a cama é arrumada, os lençóis dobrados, janelas abertas. Bom dia. O primeiro vento é sempre gelado, percorre o quarto como um cão raivoso, avançando, farejando e sem controle nenhum. Os pássaros já piam para lá e para cá. Árvores balançam saudando. Os vizinhos dormem, geralmente só abrem as janelas depois das dez. 
Que dia é hoje? Bem, ou respondo sexta-feira ou respondo o amanhã de ontem. Sem prazos, sem datas, sem cobranças. Estar em quarentena é só não ter a obrigação de sair de casa. Não mudou a minha rotina, mas mudou meus hábitos. Conversas são feitas com mais frequência, perguntas são disparadas como setas infinitas ao contento de quem quiser responder. Os dias são os mesmos, só que diferentes e se você focar, exclusivamente, no que não se pode fazer, isso não será saudável. 
Temos um prazo para sair dessa estratégia de combate à pandemia. E isso ajuda a apaziguar os ânimos. Se você lembrar, em The Sims, lá trás, os sims quando ficavam muito tempo em casa pediam para sair. Como se não conseguissem se manter saudáveis ficando em casa, como se algo maior que eles roubasse sanidade pelas paredes. Na vida adulta sabemos que isso não existe. 
Nosso cérebro acostumado a comandar nossas saídas, escola, trabalho, amigos, parentes, festas, compras, passeios, com rumo, sem rumo, andando, correndo, cambaleando, parado ou a todo vapor. Nosso cotidiano é bombardeado de coisas indo e vindo e, no frear brusco da quarentena, tudo parece fora de controle. Uma pane no sistema. Respira fundo. Não é bem assim. Vê novamente como você começa o dia. Os meus você já conhece, só que sempre muda um pouco. 
Ontem mesmo, fiquei uns muitos minutos sentado no chão do quarto, recebendo o sol da manhã. Dando sentido à sensação, ao calor que emanava de fora, do morno abrigando a pele, o vento surrupiando os pelos. E assim passou o tempo. Perceber o que se passa nestes atos pequenos é como almoçar sem qualquer interação tecnológica: sem tevê, sem música nos ouvidos, sem celular ou tablet por perto. Quando se come, sem as distrações tão eficientes, o cérebro reconhece novos sabores, acontece uma textura, o mastigar é sentido, a língua é manipulada com veemência. Dar atenção aos atos diários que são dispensados por qualquer desculpa é o modo de você acontecer durante um surto de solitude. 

Aos que conversam sobre enlouquecer se não sair de casa em breve, pergunto o que falta, e em todas as respostas elas não sabem explicar bem o quê. Eu sei bem o que é: vivemos desde sempre indo e vindo, atrás de alguém, de um lugar ou algo. Vivemos correndo para escola às sete, o trabalho às nove, o almoço às doze e quinze, o ônibus em quinze minutos, o espetáculo daqui a duas horas, a viagem dentro de cinco dias. O relógio marca nossa existência ao nascer e firma nossa diáspora ao mundo dos céus.
O tempo, o tempo todo, é o que nos consome, o que nos guia e estabelece propósitos, angustias e alegrias. E agora que parece que temos todo o tempo do mundo dentro de nossas casas, ficamos descontrolados, com uma ansiedade sobre o futuro, sobre nosso meio, sobre o ontem e o que será de hoje. Não existe terapia que te prepare para conviver consigo mesmo, porém existe as práticas da aceitação do momento agora, a esperança do amanhã e a ressignificação do ontem. 
Yoga, relaxamento, pensamentos, leituras, sonecas, vídeos, músicas, conversas... tanto a se fazer durante poucos ou muitos minutos. Não se prenda ao que não pode, se solidarize com os que estão lá fora e os que também não podem sair. E se pensar em surtar, subir pelas paredes, ou não aguentar mais olhar para as mesmas coisas, só me avisa, te mostrarei um mundo de possibilidades. 

  

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