domingo, 12 de abril de 2020

Midnight dinner


art by @pigeoncindy_

A imagem da cidade toma conta do cenário. O caminho é nítido pela cidade noturna. A trilha que acompanha não te energiza. Ela te diminui e te comprime ao máximo que dá. Assim, você cabe no teu próprio vazio, um bolso te molda e você segue pela avenida movimentada. Há tanta gente na rua, as luzes fortes dos letreiros nos cegam por reflexo. 
A faixa de pedestres é inundada pelo cardume de gente. Indo e vindo eles vão, eles vêm. A trilha não aprimora a leveza, ela sutilmente te deixa entorpecido e se deseja triste. A tristeza consiste numa tendência quase que automática. A noite é solitária, as pessoas não se completam mais, elas apenas se conectam. A tristeza que vos falo não é deprimente, enfadonha ou lacrimeja uma nota sequer. A tristeza que acalenta é aquela soturna, esta que nos acolhe antes de cair no sono. 
Chamo de tristeza porque é o mais próximo do conceito, poderia ser uma melancolia serena, uma solicitude sagaz, ou alguma dessas combinações não tradicionais.
Como algo que me afetou tão profundamente poderia ser tão fungível naquela hora. E foi isso que pensei ao sobrevoar as ruas de Tokyo. Respiro fundo e a cicatriz não tem marca, sobrou dela um nome que desejei guardar por mágoa. Mágoa esta que cultivo em troca de um livro insistente.
A minha coleção foi tomada para si com bravura e boca cheia. As palavras fartas e incisivas me cortaram o ultimo fio de relação que outrora havia. Era derradeiro o fim já sabido, e prontamente protelei para que não fosse real, mas é. 
A realidade, assim como a verdade, pode tardar a te jorrar os olhos, mas uma hora ou outra te trará lágrimas e ranger de dentes. E pedindo meu jantar da meia-noite me peguei contando meus botões, buscando prazer em memórias que justifiquem um mero sorriso. Não encontro prazer nessas memórias que queimam ardentemente ao som de uma verdade irreal. Uma certeza tão podre e fulgural que rompe qualquer sensação boa que tento fisgar do passado. 
Tokyo me traz essa tristeza pelas ruas, ao ver vitrines com coleções de coisas, tantas coisas. Coisas tantas que nem saberia por onde te falar. Acontece tanta coisa por aqui, queria te contar tudo a toda hora. Vejo as luzes da cidade, os semáforos, ouço as conversas vazadas e os sons das emoções. Nada disso vai ser levado adiante e, como um tesouro só meu, enterro nos travesseiros todas as noites. Deixei em caixas todo meu acervo passado, a que chamei tolamente de tesouro e, como piratas, elas  me conquistaram, me amarraram em promessas, cavaram no tempo e enterraram o meu sonho. No mapa existem vários xis marcando a localização não-precisa: as águas são bem-vindas, o tempo é tentador... bem, umas coisa que aprendi aqui em Shinjuku é que uma hora as coisas vão deixar de te fazer mal e fluirá em calor confortante. Meu jantar está pronto, itadakimasu, comerei vendo mestre satisfeito com minha presença, talvez ele queira saber que meu dia foi bom, inda que meu aspecto seja cabisbaixo. 
Só mais uma refeição delicada que me faz pensar nas coisas. Pensar no que realmente vale a pena. Provavelmente, tudo o que deixei para trás não signifique tanto assim. Afinal de contas, eu só sou uma conexão, um ícone que em alguns cenário vai te lembrar de épocas passadas. Ao sumir do virtual nada me sobrará e você terá apenas a promessa moribunda que nunca passou de palavras ao vento. E carregado por eles irei mais uma vez, sair pela cidade ao som de uma morna sensação de dever cumprido.  Jaa, mata ne!


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