quarta-feira, 22 de abril de 2020

Convite


Art by @chantal_horei

O sol aquece as calçadas, as copas das árvores e avoaça sobre os carros. É um novo dia, um breve até. São poucas horas da manhã e o mundo já acontece lá fora. Vejo as pessoas indo e vindo daqui da sacada, meu café ainda está acordando para esta nova realidade. O vapor soturno abriga meus nervos. O sol aquece minha pele, o vento frio me treme, e assim é mais um dia de outono. Avisto os carros saindo, crianças sorrindo e muita agitação para uma segunda-feira. Se não fosse por um detalhe até que eu pensaria que é mais uma segunda-feira.
Estamos em quarentena, já é meu trigésimo terceiro dia de abrigo. Sem sair para nada. A alimentação é pedida todas as quintas-feiras, por telefone, passo a lista de compras e alguém do supermercado garante a qualidade e a entrega. Os produtos é meio que por sorte, ora uma promoção ou um preço comum, ora um produto muito caro que não tiver oportunidade de troca. Com a dispensa abastecida gradualmente me mantenho. Escolhi as quintas-feiras por ser um dia bom para música. Assim que as compras chegam, começa todo o processo de higienização do processo. Primeiro a forma de receber, depois tirar as compras dos sacos e caixas, passar água e sabão em tudo, embalagens plásticas esfregadas, embalagens de papelão trocadas, frutas e verduras no hipoclorito. O processo é lento e bem cuidado. Em tempos de quarentena, qualquer movimento brusco é um deslize para contaminação. 
O estoque de alimentos e produtos de limpeza deixa tudo com cheiro de limpo. O que tem lugar em potes e vidros vão para os potes e vidros, o que é da geladeira, na geladeira e o que é para fim apenas um banho bem tomado. Esterilizado. É assim que vejo as todas as coisas que passam pelo portal doméstico. As plantas tomam sol na varanda como se não soubessem o que se passa, mas já contei tudo o que sabia. São todas minhas amigas. Me ouvem, me cantam e ficam no meu silêncio matinal, assistindo o dia dos outros ignorarem uma tragédia natural. 
Aquecer o corpo com goles de café preto ou com o sol que tenta ganhar do frio da estação é tão gostosinho que você deveria tentar qualquer dia desses. Parece que a solidão que derroca da quarentena não é tão fustigante como muita gente diz. Aprender a se gostar e pensar na vida te torna sagaz. Não há necessidade de contato, de demonstração de poder, tampouco menção à ostentação. Estar em quarentena sozinho e ver o mundo abrir mão da visão da ciência é, como diria Maquiavel, tentador.
Existe vida na quarenta, assim como sensações e sentimentos. Tudo é multiplicado por mil quando se fala de si. É muita falta, é muita sobra, é muito tempo para poder se equilibrar. Saber que sou suficiente é satisfatório. Acreditar que serei o mesmo daqui ao pós quarentena é, deliberadamente, ilusório. Não quero que essa fase seja apagada da memória das coisas, não acho justo com todo mundo que já se foi, não acho justo com todo mundo que ainda vai, nem com quem fica assistindo isso sem poder fazer nada. E neste nada maroto que imploramos por acontecer é permanecer em casa, o lar seguro de tudo e todos. Sem festas particulares, sem jantares, sem visita no final de semana, sem amores casuais nem humilhações sazonais. Se estar no quadrado continuar evitando o alastre da morte, continuarei aqui na sacada, café na mão, frio na pele, Low Hum aos céus e a reza ao infinito. Vem comigo, mas fique em casa.



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