terça-feira, 28 de abril de 2020

Tudo bem?


Arte de Strovery ou @stro_very_

Ainda é cedo quando me pego pensando sobre a morte e a vida. As linhas do ensaio, em minhas mãos, se confundem e me transportam para o nada, onde tudo acontece. Momentos como este me dragam para reflexões infinitas, são mais sensoriais que paradigmas. 
Me pergunto se é saudável ficar imaginando sobre essas coisas. Imagino como foi que tudo aconteceu, mas em detalhes. Me preocupo em imaginar se ele sentiu dor quando o copo caiu no chão, se ele ainda estava vivo quando a cabeça encontrou o chão, se ele lembrou do filho, se ele pediu desculpas ou só chamada por socorro, ainda que sua voz não pudesse mais sair porque só a vida brotava dali. Imagino seus olhos claros perdendo a vida enquanto olha o asfalto, consigo ver suas expressões de dor latejante dos projéteis em sua carne. Me pergunto se ouviu gritos e entrou em pânico, se ainda pôde escutar a moto dos assassinos se distanciando; se o vento tocava na pele e deu-lhe frio, o sangue quente jorrando pelos buracos de fogo e o frio tomando sua alma; se conseguiu ver o céu em seu ultimo momento de vida. O céu ao entardecer, alaranjado e sem nuvem alguma. 
Exposto ao chão sujo como panfleto amassado, é assim que tudo acaba. 
O ensaio que leio é sobre defesa, como os Estados se comportam de maneira militar, autodefesa, expansionismo, agenda estratégica... Quem se importa? hoje é só um dia daqueles que sonhei com alguém e isso me assombra pelo dia inteiro. Trás uma aflição corriqueira, uma tristeza já antiga. Pensar sobre essas coisas me deixa reflexivo sobre a vida, sobre a morte, sobre como somos nada no universo, como somos tão pouco. 
Ao assistir Claire falando sobre isso, declarando à Altman que isso lhe acontece, e mesmo assim ela seguiu em frente, tomo isso como normal para quem teve alguém próximo tomado à força, por um acidente, pela violência cotidiana, pela vida (in)justa. É um momento peculiar quando a mente te indaga sobre coisas tão irrelevantes, tentando te trazer um conforto talvez? Tentando te avivar, quem sabe? Qual o sentindo desses pensamentos além da saudade. 
Saudade esta que se prontifica em lembranças fracas e borradas de um passado confuso e nada amoroso. Afirmo que isso só se dá pelo drama que queremos para nós, um drama pesado e esmagador que assola todas as pessoas do mundo. Se está vivo, uma dessas questões irá te perturbar uma hora. É só esperar que vai acontecer. E, sinceramente, não adianta se preparar tanto, porque a lógica da coisa vai te fazer corroer algumas lembranças, querer voltar atrás, fazer diferente, e tudo será do jeito que já é. 
Pensamento tão inúteis que você quererá uma máquina do tempo, um teletransporte, uma poção mística para trazer um momento bom de volta, pensando em sufocar essa coisa que marca o corpo tão profundamente que nunca poderá cicatrizar. Não é remorso, não é solidão, tampouco desaventura da mente ou devaneio de culpa. É só a vida que se foi.
Assistir e idealizar que vamos morrer igual à velhinha do Titanic: centenária, numa cama confortavelmente aconchegante e enquanto estiver num sono bom é o mesmo que olhar para o céu e não ver uma nuvem sequer e acreditar que nunca choverá. Jamais esqueça: água deve vir, diz a previsão. E se não quiser se preocupar com as roupas no varal, apenas fique de olho vez ou outra, se importe menos, se importe mais, tanto faz, no final do dia tudo terá valido a pena ou não.  
 






segunda-feira, 27 de abril de 2020

Por onde começar?


Arte de Yun Ling ou apenas @lingy000

Este é o título do primeiro projeto audiovisual que me propus junto ao amigo oculto. Não é algo grande, revelador ou modificador de vidas. É algo simples, íntimo e sincero. E como assunto, joguei uma proposta singular. Perguntei-o sobre o começo de tudo e, por incrível que pareça, ficamos por horas falando e falando sobre as coisas.
Por onde começar? Do início, claro! Mas onde seria esse início? Bem, isso depende bastante.
Se você fala de um texto, por exemplo, você começa do conceito, da origem histórica ou etimológica. Assim, acabamos alcançando alguns contextos e colocamos o leitor em uma situação sabida. Para começar a cozinhar, gosto de primeiro lavar os pratos e copos, deixar a pia limpa e pronto para receber a próxima rodada. Com tudo limpo, sinto-me satisfeito para começar uma prato simples, um almoço elaborado ou uma janta conterrânea. Para começar exercícios físicos, começamos com o alongamento. Aquecer o corpo para trilhar os caminhos do estica-e-puxa. Claro que isso também serve para o canto, a dança e o instrumento musical. Aquecimento é válido e necessário quando se põe músculos à prova.
Para começar a ler do nada, indico sempre começar por algo que sabemos que gostamos. Um tema, uma trama, um autor. Do mesmo modo acontece com as maratonas de séries e filmes. Começar um projeto, assim como começar a ler este texto, vem da proposta inicial de querer e quando você percebe, já está quase acabando. Começar às vezes só cabe você parar e fazer. Se dedicar uns minutos para aquela tarefa, sair um pouco das redes sociais e cair em um mundo meio arisco: o mundo real.
Ao começar uma conversa, elogie, ao começar um trabalho, seja grato, ao começar a arrumar a casa, seja música.
Limpo a mesa para começar a digitação prolongada. É um ritual. Faço mapas mentais para organizar os assuntos por tema. É uma mania. Traço um cronograma para trilhar as matérias desse semestre, é hábito. Mas, no fim, de todo esse começo, faço o que me prometi a fazer. Não uso de procrastinação ativa para desviar do objetivo. Fazer faxina no quarto para estar tudo limpo e, assim, estudar por horas sem se preocupar com o entorno é sensacional. Só que... faxina todo dia e acabar cansada em sequer tocar no livro... bem, sabemos onde isso vai dar. 
Começar não é fácil, por isso, não se cobre tanto. Comece, recomece, repita e tente mais uma vez. Com o tempo, lá na frente, você verá que é simples e até mesmo prazeroso. Dá uma lida um pouco por dia, converse sobre as coisas, assista aquele filme que tu tanto queria, mas não deixe de começar a viver as coisas do jeito que deve ser. 
Podemos começar todos os dias, mas o final é sempre o mesmo.


quarta-feira, 22 de abril de 2020

Convite


Art by @chantal_horei

O sol aquece as calçadas, as copas das árvores e avoaça sobre os carros. É um novo dia, um breve até. São poucas horas da manhã e o mundo já acontece lá fora. Vejo as pessoas indo e vindo daqui da sacada, meu café ainda está acordando para esta nova realidade. O vapor soturno abriga meus nervos. O sol aquece minha pele, o vento frio me treme, e assim é mais um dia de outono. Avisto os carros saindo, crianças sorrindo e muita agitação para uma segunda-feira. Se não fosse por um detalhe até que eu pensaria que é mais uma segunda-feira.
Estamos em quarentena, já é meu trigésimo terceiro dia de abrigo. Sem sair para nada. A alimentação é pedida todas as quintas-feiras, por telefone, passo a lista de compras e alguém do supermercado garante a qualidade e a entrega. Os produtos é meio que por sorte, ora uma promoção ou um preço comum, ora um produto muito caro que não tiver oportunidade de troca. Com a dispensa abastecida gradualmente me mantenho. Escolhi as quintas-feiras por ser um dia bom para música. Assim que as compras chegam, começa todo o processo de higienização do processo. Primeiro a forma de receber, depois tirar as compras dos sacos e caixas, passar água e sabão em tudo, embalagens plásticas esfregadas, embalagens de papelão trocadas, frutas e verduras no hipoclorito. O processo é lento e bem cuidado. Em tempos de quarentena, qualquer movimento brusco é um deslize para contaminação. 
O estoque de alimentos e produtos de limpeza deixa tudo com cheiro de limpo. O que tem lugar em potes e vidros vão para os potes e vidros, o que é da geladeira, na geladeira e o que é para fim apenas um banho bem tomado. Esterilizado. É assim que vejo as todas as coisas que passam pelo portal doméstico. As plantas tomam sol na varanda como se não soubessem o que se passa, mas já contei tudo o que sabia. São todas minhas amigas. Me ouvem, me cantam e ficam no meu silêncio matinal, assistindo o dia dos outros ignorarem uma tragédia natural. 
Aquecer o corpo com goles de café preto ou com o sol que tenta ganhar do frio da estação é tão gostosinho que você deveria tentar qualquer dia desses. Parece que a solidão que derroca da quarentena não é tão fustigante como muita gente diz. Aprender a se gostar e pensar na vida te torna sagaz. Não há necessidade de contato, de demonstração de poder, tampouco menção à ostentação. Estar em quarentena sozinho e ver o mundo abrir mão da visão da ciência é, como diria Maquiavel, tentador.
Existe vida na quarenta, assim como sensações e sentimentos. Tudo é multiplicado por mil quando se fala de si. É muita falta, é muita sobra, é muito tempo para poder se equilibrar. Saber que sou suficiente é satisfatório. Acreditar que serei o mesmo daqui ao pós quarentena é, deliberadamente, ilusório. Não quero que essa fase seja apagada da memória das coisas, não acho justo com todo mundo que já se foi, não acho justo com todo mundo que ainda vai, nem com quem fica assistindo isso sem poder fazer nada. E neste nada maroto que imploramos por acontecer é permanecer em casa, o lar seguro de tudo e todos. Sem festas particulares, sem jantares, sem visita no final de semana, sem amores casuais nem humilhações sazonais. Se estar no quadrado continuar evitando o alastre da morte, continuarei aqui na sacada, café na mão, frio na pele, Low Hum aos céus e a reza ao infinito. Vem comigo, mas fique em casa.



segunda-feira, 20 de abril de 2020

Convide


art by @thuta_vares


Se os artistas sempre preferiram fazer alusão ao impossível, agora mais que nunca. Em tempos de quarentena e isolamento social, a arte prevalece como constante companheira. É do ramo das ciências humanas que vem os atores, cantores, pintores e demais profissionais que reforçam que este seguimento é muito mais que apenas cultura, é a perpetuação das ações do mundo como um todo. 
Com o isolamento e alguns toques de recolher, o mundo se vê em consumo maciço de internete, tevê e música. Sim, se você ficar nos créditos ao final do filme ou da série, até mesmo um programa da tevê aberta, você verá as pessoas diretamente ligadas aquilo. 
Num program de tevê, como uma novela, por exemplo, você pode pensar apenas nos atores em sim, mas tem um corpo de direção, montagem, figurino, som, edição, executivos que arrecadam dinheiro pra produção e tantas outras coisas diretamente ligadas. Ou seja, mesmo que seja uma série de tevê que uma pessoa fica em monologo suspendendo 30 minutos por episódio, inda assim você terá pelo menos umas cinquenta pessoas por trás. No youtube não seria diferente. Existem canais e canais com o mais diverso conteúdo divulgado para o mundo todo e equipes que só trabalham com os bastidores do processo.
As ciências humanas são inúteis ao ponto de: se não existissem, você não teria seu programa favorito, sua saga seja ela Harry Potter, Game of Thrones, Senhor dos Anéis ou mesmo o entre Star Wars e Star Trek não existiriam. Atente que falo de modo amplo e contundente que a ciência humana, quando vazada na arte te devora o tempo inteiro e você finge que ela não é importante e deixa os outros quererem aboli-las sem pensar.
Em pesquisa de simples conceito a famosa página wiki nos trás uma dicotomia entre ciências humanas e ciências sociais, mostrando o que é social (como psicologia e sociologia) e o que é humano (como letras e filosofia). O mais interessante é que o ensino de filosofia, história, dança, música e afins são alvos da extrema direita nacional. A história como ciência fica entre as duas e cada nacionalidade vai defini-la a seu critério. 
De acordo com a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, ou para os íntimos apenas CAPES, as ciências humanas englobam as seguintes linhas de conhecimento:

1) Filosofia;
2) Sociologia;
3) Antropologia;
4) Arqueologia;
5) História;
6) Geografia;
7) Psicologia;
8) Educação;
9) Ciência Política;
10) Teologia.

Dentro destes dez itens existem inúmeros subitens que encaminhas as linhas das ciências de cordo com sua própria estrutura metodológica científica. Mas o que isso quer dizer? É simples: se a CAPES, a responsável pela estrutura da árvore do conhecimento, fizer a exclusão da essencialidade das ciências humanas dos currículos pedagógicos, tudo vira um caos. A ciência humana em conceito não tem arte, não tem dança, canto ou teatro. Se retirar das universidades a Educação, por exemplo, acabam os cursos de licenciatura e a própria pedagogia por não terem mais uma estrutura que fundamentem as teorias e práticas do ensino-aprendizagem. Como formar professores sem esse galho da árvore? Outra coisa, retirar Filosofia e Sociologia não farão as pessoas parar o pensamento, o questionamento, as revoltas, manifestações e inquietudes que são, sabidamente, intrínsecas ao ser humano.


Falar que a extrema direita está errada ao pedir extinção das Ciências Humanas é certo para você?
Você consegue imaginar um mundo sem esses 10 itens sendo ensinados e estudados? 
Em tempos de pandemia e isolamento social tudo pode ser gatilho. Pandemia e isolamento social é fato novo, não se engane. Assisto com muito medo todas as manifestações que o movimento autoritário faz: movimentos contra democracia, gritos contra cultura, banalização do conhecimento científico e todo dia é uma blasfêmia histórica e social diferente. 
Toda essa raiva vem da falta de poder absoluto, toda essa raiva não é nova, toda essa raiva não vai passar assim do nada. A luta contra a ignorância é vital, é através do diálogo ou da porrada. Cada época tem sua arma.
Dizem que quanto mais evoluída a civilização, menos violência. Em que tipo de civilização você está?
Aproveito esta ultima para te dizer que o processo reflexivo é inquietante e divertido. Te mostro que essas questões promovem sabedoria. Vem comigo?



domingo, 12 de abril de 2020

Midnight dinner


art by @pigeoncindy_

A imagem da cidade toma conta do cenário. O caminho é nítido pela cidade noturna. A trilha que acompanha não te energiza. Ela te diminui e te comprime ao máximo que dá. Assim, você cabe no teu próprio vazio, um bolso te molda e você segue pela avenida movimentada. Há tanta gente na rua, as luzes fortes dos letreiros nos cegam por reflexo. 
A faixa de pedestres é inundada pelo cardume de gente. Indo e vindo eles vão, eles vêm. A trilha não aprimora a leveza, ela sutilmente te deixa entorpecido e se deseja triste. A tristeza consiste numa tendência quase que automática. A noite é solitária, as pessoas não se completam mais, elas apenas se conectam. A tristeza que vos falo não é deprimente, enfadonha ou lacrimeja uma nota sequer. A tristeza que acalenta é aquela soturna, esta que nos acolhe antes de cair no sono. 
Chamo de tristeza porque é o mais próximo do conceito, poderia ser uma melancolia serena, uma solicitude sagaz, ou alguma dessas combinações não tradicionais.
Como algo que me afetou tão profundamente poderia ser tão fungível naquela hora. E foi isso que pensei ao sobrevoar as ruas de Tokyo. Respiro fundo e a cicatriz não tem marca, sobrou dela um nome que desejei guardar por mágoa. Mágoa esta que cultivo em troca de um livro insistente.
A minha coleção foi tomada para si com bravura e boca cheia. As palavras fartas e incisivas me cortaram o ultimo fio de relação que outrora havia. Era derradeiro o fim já sabido, e prontamente protelei para que não fosse real, mas é. 
A realidade, assim como a verdade, pode tardar a te jorrar os olhos, mas uma hora ou outra te trará lágrimas e ranger de dentes. E pedindo meu jantar da meia-noite me peguei contando meus botões, buscando prazer em memórias que justifiquem um mero sorriso. Não encontro prazer nessas memórias que queimam ardentemente ao som de uma verdade irreal. Uma certeza tão podre e fulgural que rompe qualquer sensação boa que tento fisgar do passado. 
Tokyo me traz essa tristeza pelas ruas, ao ver vitrines com coleções de coisas, tantas coisas. Coisas tantas que nem saberia por onde te falar. Acontece tanta coisa por aqui, queria te contar tudo a toda hora. Vejo as luzes da cidade, os semáforos, ouço as conversas vazadas e os sons das emoções. Nada disso vai ser levado adiante e, como um tesouro só meu, enterro nos travesseiros todas as noites. Deixei em caixas todo meu acervo passado, a que chamei tolamente de tesouro e, como piratas, elas  me conquistaram, me amarraram em promessas, cavaram no tempo e enterraram o meu sonho. No mapa existem vários xis marcando a localização não-precisa: as águas são bem-vindas, o tempo é tentador... bem, umas coisa que aprendi aqui em Shinjuku é que uma hora as coisas vão deixar de te fazer mal e fluirá em calor confortante. Meu jantar está pronto, itadakimasu, comerei vendo mestre satisfeito com minha presença, talvez ele queira saber que meu dia foi bom, inda que meu aspecto seja cabisbaixo. 
Só mais uma refeição delicada que me faz pensar nas coisas. Pensar no que realmente vale a pena. Provavelmente, tudo o que deixei para trás não signifique tanto assim. Afinal de contas, eu só sou uma conexão, um ícone que em alguns cenário vai te lembrar de épocas passadas. Ao sumir do virtual nada me sobrará e você terá apenas a promessa moribunda que nunca passou de palavras ao vento. E carregado por eles irei mais uma vez, sair pela cidade ao som de uma morna sensação de dever cumprido.  Jaa, mata ne!


Ultimo suspiro

  Imagem por breezeh ou @briscoepark Navegar pelas redes sociais em tempos de pandemia é um caminho tortuoso. No começo, entre os três prime...