sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Jobs

art by Beomjin Kim


Reabrir uma postagem que ficou seis anos pendente é um tanto desafiador. Não só por não saber ao certo o que eu queria tratar na época, mas também por querer tratar de tantas coisas ao mesmo tempo. Desde que olhei o título fiquei a pensar os motivos de chegar até aqui. Não sei se pelo ícone tecnológico, se era por coisas do trabalhos, para trabalho ou sobre qualquer trabalhos. Só tenho uma única certeza, Jobs (Trabalho em inglês) me traz uma imagem em mente: currículo.
Meu currículo é bem deprimente, principalmente quando você olha a idade, trazer um Balzac em papel simples e entregá-lo para que te vejam de uma forma a dizer "parece alguém que eu gostaria de trabalhar com" ou mesmo "é interessante para esta empresa"... deprimente. 
Lembro que em uma entrevista de estágio, já tomada como desclassificado por ser velho demais ao comparar os outros oito concorrentes de 18 anos, eu lembro que falei a máxima quando me perguntaram porque eu acreditava que estava apto aquela vaga: Bem... se me candidato acontece duas coisas, ou eu não tenho experiência para a vaga, pois só tenho a formação científica, daí sou desclassificado; ou eu tenho experiência demais por ter conhecimento científico e trinta anos. Ambos os modos não sou contratado, nem chamado para outras coisas. Vivo no limbo do mercado.
E, agora, parado na ciclovia arborizada vendo o sol se por por voltas das 20 horas, se escondendo atrás de um muro de prédios que não ter um mar por trás, agora mesmo me vejo no mesmo limbo. Não é que eu não queira fazer algo, só acredito que não há nada que eu possa fazer. Essa aceitação de não ser bom em nada é o que me faz continuar todos os dias. Ao sono me vem a suave voz que me diz aquilo que eu já sei, não sei fazer nada, e isso me acorda por vezes de madrugada, me acorda pelo dia, me acorda agora. 
Não basta você querer fazer algo porque é bom naquilo, ou deixar de fazer algo porque não tem a menor habilidade. Tudo é uma questão, quase que exclusivamente, de quanto você se acha bom naquilo. No quanto você acredita que é o teu papel. Existem inúmeros casos de pessoas que são achadas para glória, como o caso de Susan Boyle, e outras não tão televisivas como Maria da Silva. Ambas foram achadas quando suas tentativas de fazer aquilo que sempre quiseram deram a elas oportunidade de florescer no sonho. O melhor disso é ver ou saber suas atitudes quando na tentativa. É um aspecto confiante, como se em suas mentes houvesse um "o que eu tenho a perder se eu já não tenho nada?". Era exatamente isso que eu tinha em mente quando na seleção de estágio, quando eu respondia de uma maneira simples e afirmativa sobre todas as perguntas, inclusive aquelas não-permitidas em uma entrevista de emprego. Saber que não temos nada a perder nos torna confiantes, nos dá um gás por saber que não existe queda para quando estamos deitados no chão.
Ao ver as cores do céu acima do muro, o farfalhar do caminho de árvores da direita me lembrando um bairro histórico e desolado de outrora, essa sensação de estar deitado no fundo do posso também dá a satisfação de contemplar tudo o que temos acima, de tudo o que podemos alcançar quando estivermos pronto para levantar e subir. 
Os campos verdejantes me levam reflexões, uma delas é ler e reler as nuances dele quando diz: “O trabalho vai preencher uma grande parte da sua vida, e a única maneira de ficar completamente satisfeito é fazer o que você acredita ser um bom trabalho. E a única forma de fazer um bom trabalho é amar aquilo que você faz. Se você ainda não descobriu o que é, continue procurando. Não se acomode. Da mesma forma que acontece com as coisas do coração, você vai saber quando encontrar.” Jobs. O murmurinho interior continua, indo e vindo com a maré de sorte, sem parar e sem controle, até afogar os medos e inseguranças que margeiam o único sustento. A certeza de si.

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