segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Mentirinha

Arte de Beomjin Kim

O relógio solar é bem preciso, a luz que emana de fora risca o chão formando uma sombra em quarenta e cinco graus. Hora de levantar, pegar um café e sentar para ler mais uma vez. 
Talvez você não saiba, ou eu nem tenha dito, mas existe uma série de títulos que as pessoas mentem que já leram só para parecerem descoladas, intelectuais ou apenas para não ficar para trás. 
Alguns destes livros ou obras, como queira chamar, são clássicos literários e outros apenas venderam muito. Sendo série, trilogia ou um solitário, ler nos torna melhores. 
É interessante ouvir de pessoas comuns que elas "amam" ler, mas quando você vai ao fundo desse amor, é apenas uma resposta para ela dizer que leu algo anos atrás. O melhor desse tipo de resposta é aquela máxima de usar livros de auto-ajuda como referências unânimes e consolidadas. 
Primeiro que livros de auto-ajuda não são ruins, mas não são livros para você se agarrar e usar durante toda a sua vida, pois se você não aprendeu a mensagem que aquele guia te traz, a sua leitura não foi eficaz. Segundo que essa tal mensagem é o que torna o livro especial. 
Você pode ouvir música durante todo o dia, mas só uma música em especial vai te fazer arrepiar. Você pode assistir sua novela, filme ou série com afinco, mas serão poucos os momentos que serão memoráveis para ti e te trarão uma sensação, seja lá raiva, tensão ou alegria. 
O livro funciona diferente. Ele precisa de você para acontecer. Se você não tiver disposta a relaxar e percorrer a aventura imaginária, o livro vai ser massante e logo será jogado de lado. Ler é chato, ler cansa, ler dá sono... na verdade pensar é chato, pensar cansa e pensar tira o sono. A atividade da leitura é diretamente vinculada aos olhos, à visão, e são eles quem comandam todo o espetáculo. Entre ler textos do facebook, conversas infinitas do whatsapp, um manual com instruções para o uso da tv, ler as letras do teu disco favorito ou 5 páginas de um livro qualquer, qual você acha que vai te cansar mais rápido? A palavra livro é tão pesada que a gente acaba tentando mudar nas conversas para ver se fica mais fácil. Já leu fulano? Já leu aquela história do menino bruxo? Já leu a biografia do teu artista favorito? 
Pois é, ler é assim. Não adianta você querer ser uma pessoa que "ama" livros se não se dispõe a ler. E aqui não trato da suposta qualidade do livro, porque o livro é bom quando você o utiliza da melhor maneira. Para quem gosta de mistério, leia os de mistério, para quem gosta de românticos, leia os românticos, para os que gostam de terror, leia então os de terror. Empurrar um clássico com linguagem arcaica não é nada inteligente, vai te afastar daquilo que deveria ser um hobby, uma distração. 
Ler um livro te dará uma experiência muito mais significante do que assistir o filme, pois tudo acontece na tua cabeça. E não venha com essa de que você demora a ler, ou você acha mesmo que alguém aqui está competindo? Quer dizer, se você participa de grupos de leitores, realmente há uma competição ali, de quem tem mais dinheiro para ter mais livros e de quem se diz ler mil livros por ano. 
Excluindo essa parte dos grupos de leitores, a única pessoa que vai ganhar ou perder com o tempo dedicado ao livro será você mesma. Se for começar, comece pelo básico, pegue leve. Procure algo atual, temas como se fosse tua série ou filme favorito. Vá com calma, não se irrite se vier o sono nas primeiras páginas, mas tente manter o ritmo diário. Algumas pessoas leem para dormir e com as noites vão-se o livro todo. Se você não consegue ter foco para ler e entender o que está sendo lido, tente começar primeiro com gibis e quadrinhos. Hoje há uma série de histórias em quadrinhos com temas adultos, juvenis, bem sérios e outros mais comédia. 
Eu fiz minha lista deste ano, fora alguns livros que já estão pendentes de terminar. Talvez com essa nova motivação eu consiga fazer tudo. Se eu não conseguir, tudo bem, vou continuar a tentar.
Não existe maneira para justificar essa falta de querer ler, de gostar de passar um tempo consigo mesmo e a cabeça flutuando na imaginação. O ser humano tem medo de quem pensa, ainda que ele mesmo não goste de pensar.  

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Corais

Art by Mercywise

Chegamos e é sempre a mesma sensação. Do alto vemos a barreira de corais protegendo o beira-mar das grandes ondas. Maré alta explode espuma no ribombar da corrente, um show espetacular visto daqui, do alto. Procuramos um lugar para ficar, na areia, onde tudo acontece.
As escadas de pedras são as de sempre, polvilhadas de areia branca e fofa, os grande tapete se estende pela praia inteira. Uma grande margem nostálgica. Foi aqui que declarei que estava indo, foi aqui que vi o mar pela ultima vez, a ultima em que senti a areia entrar entre os meus dedos dos pés, senti as gotículas salgadas borrifadas no rosto, vi o emaranhado de coqueiros costurando minha visão do céu.
De pé ouço o mar, os ventos, as crianças rindo, pessoas conversando, música ao longe. De pé ouço a praia, respiro o mar, vejo o oceano infinito. O cheiro é o mesmo daquele sonho, o vento que carrega o sal também é o mesmo, hidrato os lábios com a própria língua e trago a memória. Revejo ela de biquíni rindo para mim, o sol de sete da manhã nos glorificando, o sorriso dela me convidado para mergulhando, o "hein" com sotaque me agarra, ela aponta para as crianças, com roupa de praia brincam na areia, maravilhadas. Não foi real, não podia ser. Acordei com o cheiro do mar, com o gosto do sal. Hoje eu revejo esta lembrança, pois as sensações são as mesmas, mas vocês não estão aqui. Ele está. 
E com ele relembro o ultimo dia. Vejo a sereia no encarando ali na frente. Vejo a árvore dos corais ali do outro lado, parece que nunca saí daqui. Os muros de grandes e luxuosos prédios começam a dominam os limites da paisagem, e isso não existia quando parti. Aos poucos sei que esse lugar não será mais como antes, talvez até não pelas pessoas de sempre, mas sim pelas pessoas do futuro.
Ao entrar na água morna sinto a corrente. A sensação de mar é algo que não dá para descrever. A água gelada conforta o sol forte, não tem muita gente tomando banho, a praia perfeita é esta aqui. Perfeita porque é linda, tem confortos de quiosques, não tem barulho estarrecedor, os rostos são agradáveis e fáceis de ler, a água é transparente como sempre, sem pedras no fundo, com peixes ao redor. Mergulho. O som do infinito parece que me envolve em placenta, ouvir as ondas no submerso me faz flutuar, me faz mais leve, me faz não existir por segundos. E não ser nada por um momento é relaxante, nada existe, só o som da água, um sulco gástrico natural e não corrosivo. 
Não sei se há relação com o bombardeio de sal no corpo, mas tomar um banho de mar é algo que modifica, sabe? Não só por todas as sensações do lugar, mas pelo pós. Aquela fadiga marota que se instala quando você chega em casa e toma um banho comum, a gente se descarrega, o sono bate firme, e quando acordamos parece que estamos 300% melhor, mais dispostos. A cor de jambo que fica também nos agrada, uma tatuagem temporária de que aquele dia valeu a pena. 
Se você tiver a oportunidade de ir à praia, faça. Vá e aproveite, mas não como alguns costumam fazer, usando o lugar como um bar. Use como um spa, faça questão de pisar na areia, cavar com as mãos, sentar sem compromisso com o tempo, chutar as ondas que desistem de dominar a areia, coletar as conchas que polvilham a margem, admirar os peixinhos que correm livres pela água translúcida, fotografe o horizonte encabeçados por coqueiros... admire a natureza. Sem soberba. Contemple um dia qualquer sem precisar comparar com os outros dias, sem ter a necessidade de mostrar as outras pessoas que seu dia está melhor do que o delas, sem querer mostrar ao universo que você está tomando uma piña colada. Apenas vá e aproveite, esqueça o mundo concreto e permaneça neste paraíso artificial que é um dia de praia sem se importar com nada, apenas com você e o mar. 

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Retrospectiva

Arte de Danny Mew

Estamos nos ultimas dias do ano, todo mundo se encontra com aquele famoso espírito natalino e das festividades que só dezembro possui. Começam a ditar os melhores e piores do ano e os da década. É claro que também faço uma retrospectiva e este ano teve muito mais pesar do que o passado. 
Aconteceram poucas e concisas coisas que me levaram de um lado para o outro. Quando paro para pensar e transcrever tudo isso, ligando pensamentos com conceitos de emoções para expressar o que realmente me acontece, aí é que chega o ilustríssimo cansaço. Não necessariamente um cansaço ou fadiga, seria mais um preguiça ativa de começar de novo.
Postando sobre essa sensação de inexistência em um grupo particular, me indicaram ir ao terapeuta, pois essa sensação de inexistência não é saudável e ninguém ali jamais tinha sentido isso. Li e reli os comentários como se eu fosse o problema e não a sensação em si. Me senti tão errado em comentar a sinceridade que acabei apagando o comentário sem me explicar.
Explicar... se prolongar... respiro fundo. Como explicar que essa coisa de sentir que não existe em um grupo para escritores amadores é algo técnico, algo profissional? Ao comentário de cima que dizia "não consigo mais escrever porque só consigo fazer às noites e agora trabalho, sou um vampiro que abandonou a paixão" e o apoio veio e ninguém questionou se ele era ou não um vampiro. Ser o homem-invisível é problemático de doença mental, ser vampiro não. Talvez eu esteja interagindo com paulistas demais e esqueço disso.
Forma poética, esse era o ponto da resposta e eu não estava disposto a explicar e replicar os porquês das coisas, fiz como sempre. Deixei para lá. 
Deixando para lá foi o que me ocorreu esse ano por vezes inteiras: já já eu leio, já já eu faço, já já eu comento, já já eu ligo... e fui deixando. Este ano que se passa eu tenho algumas pequenas conquistas, uma delas é continuar tendo o privilégio de poder escolher, outra é que consegui tentar algumas vezes, e a ultima não muito importante é que eu decidi continuar. 
A parte mais difícil de se fazer uma retrospectiva não é o olhar para o passado e juntar as peças da memória, mas sim esquecer das razões. É como assistir o próprio filme e não julga os personagens. É entender que já passou e pegar o que pode ser mudado e anotar para a próxima temporada. 
Se tivéssemos o poder de voltar no tempo e mudar nossas decisões talvez não estaríamos com metade de nossas vidas como estão. E como isso ainda não é possível, o certo é decidir com clareza, ponderar as consequências e seguir em frente. 
Eu não acredito nessas coisas de apenas no dia 31 para o 01 que as coisas vão mudar. Acredito que o ano novo é todo dia, porque basta uma fração de segundo para mudar tudo. Basta uma ligação para contar que um ente querido próximo morreu, basta um clique para saber que sua promoção aconteceu e vai te dar mais chances de crescer, é numa conversa simples que você é convidado a sair do teu emprego. As coisas só vão acontecendo, ainda que você pare para ler um pouco no teu quarto, beberia=cando um café morno enquanto o mundo lá fora acontece.
Retrospectiva é legal de se fazer, pois um ano é muita coisa para quem se vive todo dia. Em um ano muita gente nasceu, morreu, casou, se separou, terminou os estudos, começou o curso, brigou, fez as pazes, se arrependeu, arriscou mais uma vez... os ciclos não se encerram no final do ano, apenas viramos a página do calendário.
Se você souber que a imensidão que é o tempo e o espaço vai acabar se olhando insignificante, vai se ver como uma formiguinha de açúcar, pequenina, sorrateira, porém forte. E talvez essa seja a lógica da comparação, ver o que é real e nos vincular ao que é bom e ruim. Dessa inexistência literária que me aconteceu, me trouxe muita coisa boa, umas viagens para lugares diferentes, conhecimento sobre leis-política-relações e afins, conheci gente, entendi o sistema, eu vivi uma vida inteiramente nova. E era isso que eu queria que você entendesse, que as nossas sensações são experiencias que podemos avaliar e usar, são instrumentos intrínsecos.
Tem mais um ano novo logo mais, e você vai saber lidar com tudo o que em ti habita? 

Fantasia

Arte de @raytongart V oltei a ver alguns animes. E, desde que voltei, percebo o quanto o machismo e erotização é exagerada e comum. Todos os...