quarta-feira, 7 de outubro de 2020

Fantasia

Arte de @raytongart


Voltei a ver alguns animes. E, desde que voltei, percebo o quanto o machismo e erotização é exagerada e comum. Todos os animes até agora tem dois tipos de mulher: 1) a peituda, vaginuda e bunduda e a 2) baixinha infantilizada, sem peitos. E não é algo novo, é um estilo. Lembro disso em Shurato, Cavaleiros do Zodíaco, Bucky, InuYasha, Evangelion e tantos outros. Hoje, vejo Naruto, Bleach e alguns outros bem populares e a técnica continua.
Todo anime tem um velho que é tarado, geralmente leva porrada pela mulher assediada, mas em nenhum momento ela denuncia ou ele para. É algo natural a mulher sempre bater no velho tarado, como se todos os homens velhos ficassem tarado e tudo bem. As cenas que acontecem os assédios focam os peitos ou bunda, entre muitas pessoas ou não, e a música muda para um tom mais cômico. O assédio é o núcleo cômico. 
Anime é algo delicado para acompanhar. Ou você tem esses temas bem conceituados e fixados como algo bom ou ruins, ou essa internalização vai acontecendo e tudo se torna normal. Assédio não é normal, merece denúncia e não a normalização. Do mesmo modo acontece com as objetificação do corpo da mulher. Difícil achar animes populares que não parecem uma pornô. Homens musculosos, mulheres super gostosas, meninas com voz de submissão e micro trajes do cotidiano.
Interessante que eu percebi isso tantos anos atrás. Cheguei a me afastar do anime pela repetição da fórmula. Sempre é o protagonista que faz tudo, sempre em busca de poder e mais poder, nunca é em grupo ou equipe, sequer buscando um plano, estratégia ou inteligência. Parece mais um MMORP que você tem que matar monstro para ser mais forte. Sempre mais forte, grita, luta, fica forte, luta, grita, mais e mais forte. 
Até aparece um ou outro personagem enigmático ou carismático que foge do padrão protagonista, mas logo se percebe que vai ser aquele que vai chorar pelo protagonista. Em Bleach, temos a Rukya, sempre que aparece ela soa como personagem forte, não sexualizado, mas daí... sempre vem o Bleach para salvá-la. Uma personagem que busca aprovação do irmão por ele ser patriarca da família, uma personagem com um poder incrível que só aparece quando já não precisa dele, e quando parece que ela vai dar conta, vem um homem e a salva. Todo o anime é isso: mulher vítima, homem poderoso a salva. Gritos, aumento de poder, peitos e bundas, música cômica, mais lutas e poder...
Deve ser legal não perceber essas coisas e ser fã de verdade, mas quando você entende que muitos traços dessa cultura só perpetua o machismo, pedofilia, assédio e tantas problemáticas estruturais... tudo isso deixa a coisa não atrativa.
É como assistir um filme da Barbie com temas adultos. Você entende o motivo por ser adulto, mas quem assiste são crianças. Como esperar que um geração se estabeleça com um pensamento diferente se tudo ao redor só afirma a velha e boa cultura machista patriarcal?
 

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

O Escritório

Arte de Selin Tahtakılıç

Morar no sul vindo de outra região é explorar um perfil histórico psicológico muito interessante. Depois de ter contato com a série de televisão The Office, tive a certeza que a personificação do homem Michael Scott e da mulher Ângela Martin.
De um lado temos o homem branco com personalidade infantil, cheio de racimo e outros preconceitos de maneira bem sutil. Ele não odeia negro, mas quando fala em gueto ou gíria, pergunta ao único negro que conhece. Essa sutileza é a demonstração de como a estrutura social molda a nossa visão. Michael Scott não percebe os assédios que faz, do racismo e homofobia que pratica, a misoginia é quase seu mantra. E como ele se criou em um universo que as pessoas não retaliavam quando extremo, não o reprimiriam quando errado e conversavam explicando o certo, virou um homem de mais de quarenta anos altamente insuportável. Líder de um grupo de pessoas que o aturam pelo capital. Em seu lado, figura a versão feminina, uma mulher branca e loura, carregada de religiosidade e altamente crítica de tudo, nada é bom o suficiente para ela, tudo é motivo dela demonstrar sua feição de negação. O seu comportamento é de supremacista, ela se põe como superior aos outros, uma porque é serva de Deus e expõe isso sempre que pode, outra é pelos seus hábitos que ela põe como melhores, tipo seu veganismo. E esses dois personagens na série são exatamente o tipo de pessoa que você encontra aqui embaixo, aos montes. São pessoas criadas com base no cristianismo hipócrita, com amor ao próximo se ele pode te dar algo em troca, de muitos diálogos desconfortáveis por ligações ao racismo, misoginia e outros preconceitos. 

Como lidar com esse padrão de comportamento aqui? Você tem duas opções: 1)Ou você é extremista e não fica calado, demonstrando sempre o quanto elas estão sendo irracionais, perversas, preconceituosas. E obviamente você não será bem quisto no ambiente, já que os outros compactuam com o pensamento deste; 2)Ou você pode ligar o foda-se e seguir sua vida usando da shade. Pequenos apontamentos subliminares criticando o comportamento destas pessoas. Se for uma piada racista, você além de demonstrar descontente ainda diz "então a graça é que ele é negro? Entendi", e ao demonstrar a problemática você não vai ser mau quisto, mas uma pessoa boba que não entende o ponto engraçado. Só que isso vai acumulando e aos poucos elas perceberão que estão sendo perversas todos os dias, e esse normal delas afasta você. Tudo bem que essas duas opções são baseadas no meu ano de contrato no ultimo trabalho. Uma empresa de 300 pessoas onde 90% era branca autoproclamada alemã. Onde o que importa é o sangue alemão, onde todos os problemas da cidade ou vieram dos índios vagabundos, dos paraguaios contrabandistas, ou dos negros bandidos que vieram de fora. E sempre que eu ouvia essas coisas eu usava a opção 2 e ficava uma climão.

Estou falando essas coisas porque estou percebendo um padrão na internet, com colegas e pessoas amigas da região, que me remete ao Michael ou a Ângela e eu fico pensando se não é hora de estabelecer uma opção 3) Ignorar. Ignorar os fatos, fotos e dados porque não vai fazer diferença alguma na minha vida, por mais estressante que seja em ver as postagens, é respirar fundo e pensar no meme "branco fazendo branquice". Lembrar de toda história nazista na região, como a região foi explorada e evoluída, e como a tecnologia amplia os prazeres da cretinice, é pensar sempre na proposta 3 quando vias de internet, e quando mais velho e mais financeiramente independente, trazer isso pra vida. 

Não tem problema você evitar pessoas que são Michael ou Ângela, sua saúde mental e física vai melhorar, seus pensamentos não serão bombardeados por cultura dos anos vinte e com certeza você será uma pessoa evitada por se achar superior. 
E você é superior? Claro que sim. Uma vez que seus pensamentos são positivos, seu diálogo é inclusivo e evita ao máximo as raízes da opressão patriarcal caucasiana, você vai ser uma pessoa de mentalidade elevada. E isso é ótimo, um pouco solitário se você está num antro de Michaels e Angelas, mas nada melhor do que ser um bom ser humano. 

domingo, 20 de setembro de 2020

Ultimo suspiro

 

Imagem por breezeh ou @briscoepark
Imagem por breezeh ou @briscoepark

Navegar pelas redes sociais em tempos de pandemia é um caminho tortuoso. No começo, entre os três primeiros meses, tudo era novidade. As fotos dos cantos nunca antes explorados da casa, os diálogos entre as pessoas que conseguiam fazer o isolamento, as denúncias de quem escolhia não fazer e as várias produções artísticas. Eram lives atrás de lives. Lembro que em várias dessas lives, as postagens rápidas eram quase sempre as mesmas: pessoas juntas bebendo e comendo, comemorando e ouvindo os concertos pelas plataformas.

Na segunda etapa, foi meio que uma releitura. As pessoas começaram a desenterrar coisas, joguinhos da era do orkut, veio a onda das indicações (me indique um filme, me indique um album, me indique alguém), tiveram inúmeros movimentos do não-vai-ter-eu e várias hashtags. Tudo era motivo para explodir, seja um reality show, seja as tramoias do governo decadente. Tudo era pólvora para a fúria da ociosidade. E leia que esta ociosidade não é a falta do que fazer, mas a exaustão do confinamento. 

Aqui é necessário explicar que estar em quarentena, em isolamento social real não esses onde a pessoa se diz isolada e visita todo mundo, vai à festa, reunião, consultas não urgente... enfim, você entendeu. Aqui a quarentena causou exaustão pela mesma coisa repetida, foi o que deixou a mente exausta de verdade. A mudança do cotidiano, números de mortes na televisão subindo, o home office obrigatório para alguns, o lançamento nas vielas para outros. Saber se está infectado deixava todo mundo nervoso. Os índices de ansiedade estavam lá em cima, beirando a insanidade. 

Na segunda etapa é justamente onde se instala a crise. Governo decide sacrificar as pessoas, o comércio se vê obrigado a continuar firme, as pessoas comuns não têm opção, vão trabalhar, vão se contaminar sem saber. Vidas se perderam mais rapidamente que a própria contagem de casos. Como já esperávamos: foi cada um por si e Deus por todos. Foi uma fase triste. Perdi familiares para gripe, alguns outros entes mais próximos ficaram internados severamente e eu aqui no fim do mundo.

Não poder acompanhar o que se passa é muito, mas muito ruim. Você fica sequestrado a qualquer notícia, boato ou menção indireta àquilo que se quer saber. E, como mais uma vez, esperei para saber de tudo. E, por mais penosa que fosse a situação, eu não podia fazer muito. A minha arma é a ligação. Ligo quase todos os dias para ela e nunca está disponível. Depois dele, ela morreu de vez. Não há conversa que se sustente por mais de 10 segundos. Quando acontece uma resposta de mensagem rápida é sempre a mesma coisa. A praxis de 1) Como você está? 2) se cuide 3) mande lembranças. 

É estranho olhar que você viveu tanto tempo com essas pessoas e não as conhece, não sabe de onde vem ou para onde vão. Que o máximo de apoio que dão é batido com cinco ou mais comentários depreciativos. A toxicidade é tanta que corroeu até meus ossos. Repondo o item 1, os seguintes mando sticks. São mais práticos e mais alegres que a conversa que se afunda em todas as tentativas. É deprimente.

Passou a terceira fase, foi uma agonia aguda. Foram semanas de exames, sintomas, medos e angústia. A televisão repetia infinitamente o que já tínhamos decorado. Na teoria, só sai de casa quem realmente precisa, e ainda assim tomando todas as medidas pandêmica de saúde. Na prática, nada mudou. Quer dizer, o uso seletivo de máscara foi condicionado. Usar máscara é estar seguro. Não importa se em um ônibus lotado para ir ao trabalho, ou uma fila enorme do lado de fora do banco para sacar um dinheiro que não paga o aluguel. O que esperar do espírito brasileiro depois dessa derrota gigantesca para o bom senso? A política continua dizendo "fodam-se", as pessoas continuam fazendo o que dá pra fazer, e eu aqui. Eu aqui vendo tudo através de uma mar de informações.

A gripe chegou por aqui esses dias. E nem bem chegou e já estão em pós-pandemia. O mundo pode até está em pós alguma coisa, mas o Brasil? Não meu caro, o Brasil está moribundamente se arrastando por ela. E já considerei esse ano como perdido. Já era. Até tentei criar projetos e desenvolver coisas lá antes da segunda fase. Depois que tudo deu errado por incompetências alheias. Eu parei de ouvir que a culpa era da pandemia, do COVID-19, e apenas abracei a ideia do governo: "fodam-se". Passei a negar tudo e qualquer coisa que envolvesse um começo. Mais nenhum projeto com ninguém este ano. Assim, não ouvirei mais nenhuma desculpa sobre pandemia.

Isso relaxou-me tanto que parei de contar os dias que estou enclausurado. Mesmo com todos os anúncios de passeios, descontos para passagens e, obviamente, pessoas festejando o tempo todo, eu sigo firme na quarentena. Ouço o vizinho de cima fazer um jantar e chamar família e amigos, o do lado com amigos fumando narguilé, os de trás fazendo aquele churrasco da família tradicional supremacista branca. 
E eu aqui, passando água e sabão em tudo o que chega, tomando coragem e correndo desesperado para colocar o lixo lá fora. Vendo o mundo por telas, vendo as pessoas se abraçando pela janela, sem saber ao certo se isso sempre foi normal. Um universo inteiro de bom senso jogado fora por tantos motivos que a exaustão mental nem deixa pensar, só ligo a televisão e vejo mais um episódio, ouço mais um podcast, jogo mais um jogo para descontrair. 

Se eu morrer mesmo em algumas horas, essas pessoas nunca saberão quem eu fui, ou para onde eu iria. Os conhecidos lamentarão por alguns segundos, os familiares farão as cinco etapas do luto e ficarão bem, já as redes sociais me perpetuarão para sempre o existir. Para sempre.


quarta-feira, 29 de julho de 2020

O mesmo time


Imagem de AmalasRosa

Converso com um controverso. É difícil no começo, depois se torna divertido, mas agora é só um monte de repetição. Repetir o assunto nem é o que acontece, isso seria o de menos. A repetição de desculpas é o que acaba afundando o assunto em respostas não tão verdadeiras. É como se a pessoa que começa a remoer o que disse para ter a aceitação do discurso não fosse capaz de errar, ou ao menos nunca quisesse. 
Um diálogo com alguém assim é o mesmo que conversar com um olavista sem ter os palavrões. Ele tenta contorcer tudo o que falou, tornando uma armadilha argumentativa para que no final ele tenha razão. O problema do Olavismo é que ele não é inteligente, é pseudointeligente. Uma artimanha fajuta que tenta forçar seu processamento de ideias, confundindo-as e tornando-as duvidosas ao ponto de você concordar com ele.
Soa como cansativo e é.
Dialogar com alguém que pratica isso o tempo todo é enfadonho. O cunho olavista em oratória é altamente proposital, e esse controverso não faz isso baseado no charlatão. É um ato instintivo e bem tradicional de quem vem da religião. Nada é bom o suficiente e se perpassa para a ideia de aceitação. Tudo tem que ser no ideal imaginado por ele e acaba frustrando o mesmo.
Por exemplo, ele usa o tinder, grindr, scruff, badoo, parperfeito, e outros aplicativos além das redes facebook, instagram e twitter para conversar com pessoas que ele acha interessante. Ao mesmo tempo que diz que não está procurando ninguém porque ele ainda nem se sente suficiente pra si. Depois dessa parte ele volta a falar dos diálogos nada ortodoxos nesses aplicativos de relacionamentos, depois fala que desistiu de todos. Ao ser perguntado se ele desinstalou tudo, ele ri e diz que ainda não está pronto. 
Ser alguém que tem limitações de interação humana é uma coisa, lidar com alguém controverso é um ato violentamente desafiador. Ouvir uma coisa e ver a ação do completo diferente é algo que me deixa a perguntar "o que eu devo dizer?". Ele me pede uma opinião, eu falo sobre o que ele quer ouvir ou sobre o que eu penso disso tudo?
Confuso.
Não tem palavra melhor para descrever como eu fico a todo momento presente com essa pessoa. O controverso é divertido em si, por essa habilidade de nem ele conseguir seguir seu próprio raciocínio, ao mesmo que me deixa triste por saber que aquilo vai minando seu humor até dragá-lo e triturá-lo dia-após-dia. 
Contei a ele que existe um padrão em tudo o que ele faz. E, como sempre, ele encucou com isso e fica repetindo a todo momento. Eu esqueço que nunca posso falar o que realmente acho porque ele não lida de uma maneira positiva. Rejeição o faz se cancelar, destruir todas as redes, apagar as memórias e se fechar em uma cápsula espinhosa que só tem mágoa. Por isso, tento sempre articular pensamentos que deixe o conceito de rejeição longe.
Tudo o que ele precisa é de alguém que jogue no mesmo time que ele, que o entenda, que concorde com ele, que o desaprove quando sincero, que o incentive ao seu potencial máximo, que fale de arte, de cinema, de música, que beba, que dance, que deite e role, que pule e dê acrobacia. Tudo o que ele precisa é dele mesmo, uma conversa dura e vorpal que estraçalhe sua mágoa com o passado e estilhace a idealização da família margarina. 
A equipe que ele precisa é nada mais que amigos que o abracem, um bom terapeuta que o faça sempre se afastar da rejeição e uma família que não o atrapalhe. 
Espero que um dia ele saia da terapia via youtube e consiga ter alguém qualificado para ouvi-lo e guiá-lo para seu melhor. Se todo mundo fizesse terapia, talvez o mundo fosse 1% melhor.

Metrô


Arte de @Bysau_

"Pegou a máscara?" é o novo "pegou a carteira?". É interessante visualizar o mundo estranho que vivo. Uma metade está lutando contra uma pandemia e a outra finge que nada acontece. Uma metade é tomada pelo espírito negacionista e a outra pela solidariedade. Uma metade é sensata, a outra nem pensa. E assim foram os dias, estão sendo os dias durante esta quarentena. 
Sei que parece errado te falar, mas essas metades que te falei agora são difusas e coletivas. É muito pontual encontrar alguém que seja mesmo 50% um ou outro, pois no senso comum elas se confundem muito. A educação brasileira não é capaz de formar um indivíduo com capacidade suficiente em valores éticos, morais e sociais.
Tenho conhecimento de pessoas que estavam em quarentena e distanciamento social desde fevereiro. E a cada semana passava uma experiência em casas diferentes. Começou indo na casa da amiga, passar 10 dias lá, porque ela também estava em quarentena e isolamento social, depois foi na casa da tia, passar mais tantos dias, e na outra vez outra pessoa e assim foi. Foi até apresentar o famoso sintoma de coronavírus. E a grande surpresa era como ela tinha pego se ela estava em quarentena e isolamento social.
Sair de casa, pegar ônibus, uber, taxi, carona, ir à feira, mercado, shopping, praia, falar com familiares, vizinhos, amigos e no final: como eu peguei o coronavírus?
Outro caso curioso foi o acolhimento do corona. Um familiar estava com claros sintomas de contaminação e durante toda sua fase sintomática (tosse, febre, falta de ar) ele foi visitar os familiares todos os dias e ficava lá tendo atenção por estar doente, e nos finais de semana ia para as festas de pagode na chácara que começa sexta e termina domingo. Daí, não acreditando em coronavírus, não foi fazer o exame, não se preocupou em passar o vírus para os outros e, no fim, os familiares ficaram gravemente doentes. E, em vez de ter atenção do mais novo que contaminou, este não deu qualquer apoio porque tinha medo de ficar doente. A família passou bocados severos e dramáticos por toda a fase sintomática. Muita febre, diarreia, oxigênio e entubação. E no dia de vida-ou-morte, o infectador estava em pagode, sambando para o egoísmo estrutural.
O enterro do meu tio foi rápido, quando eu soube da notícia, lá em meados de abril, já era tarde demais. Tudo aconteceu muito rápido, mas vai ser digerido na memória até o fim dos tempos. Hoje, vendo as pessoas indo e vindo sem qualquer preocupação me pergunto: vale a pena continuar vivendo num mundo desse?
As pessoas que se importam, não se importam. Suas palavras de preocupação só servem para massagear o ego e minimizar a culpa. Elas pegam a máscara e vão visitar os parentes e amigos, vão ao shopping, à praia, aos bares aos montes. Boa parte sem máscara, Deus está protegendo, a saúde foi ungida. Deus no comando, anticristo no poder, ninguém se importando verdadeiramente. Governo desdenha do pobre, o pobre se sujeito ao desespero. Brasil.
E quanto mais os dados são somados, mais cremos que não adianta. Não adianta conversar, não adianta estudar, não adianta se importar. Essa geração de civilização está novamente perdida. A passada pela ditadura, essa pela distorção. Sorte da próxima que ainda pode sonhar com a ilusão de ser o que quiser.

terça-feira, 30 de junho de 2020

O meu amigo é o meu amor


Imagem de Caleb ou só @porkironandwine

Mandei mensagem como se não quisesse nada e logo fui respondido. Ficamos ali por um tempo relembrando o passado, falando das pessoas que passaram por nossas vidas, sobre os anseios que tínhamos e o futuro presente de cada um. Ela, grávida novamente, contou do marido, do filho mais novo, das ilusões educacionais e como era difícil ser alguém. Como era complicado ser adulto.
Quando a gente tem entre dez e quinze anos, pensamos e pensamos sobre o que queremos ser quando crescer. E isso é muito errado. Ninguém aparece para conversar sobre todas as possibilidades, nem carreiras, o que você tem é o que você vivencia ao teu redor, teus exemplos mais próximos como familiares, vizinhos e a escola, às vezes o centro religioso entra nesta conta, mas é muito às vezes. E daí, quando você entra no ensino médio, o que ocorre é ver a lista de cursos disponíveis na universidade pública e tentar achar algo que você se encaixa. 
Para mim não tinha essa de escolher e pronto. Eu nunca engoli esse sabor de acreditar que minha vida se resumiria ao curso que eu escolheria e teria, assim, a vida toda definida. Com meus pais não fora assim, com meus avós muito menos. E, obviamente, comigo tampouco seria. Sou fruto de uma geração despreparada, que tinha a violência como linguagem e os detalhes emocionais como cicatrizes de traumas. Tão comum com meus amigos quanto assistir a Tv Globinho depois da escola.
Perambular essas questões e conversar sobre isso dá respaldo a mais lógica e conformidade da vida adulta que: em resumo, somos um emaranhado de sonhos, dinheiro, oportunidades, tentativas, erros, acertos e sorte. Sim, sorte conta bastante. 
Trajando meu pijama da quarentena como uniforme militar, pousei o celular de lado por um momento, e observei onde eu estava. Os livros tantos que gosto de ter por perto, as prateleiras com objetos infantis de decoração, os diversos videogames, joysticks, cds, dvds, blurays, quadros de pokemon, televisão enorme, tapete escolhido a dedo, meias fofas de bichinhos, vi tudo isso e senti que era o que eu gostaria de ser quando pudesse ser. Fui abraçar minha família, e enquanto você tocava guitarra, peguei meu café preto, segurei a morna caneca de anime, e voltei a assistir ao som dos estudos de Tico Tico No Fubá no violão clássico, as mesas próximas com os computadores gamers, impressora de tanque de tinta, muitas canetas hidrográficas, post-its, stabilos e lápis de cor, vários e vários suplementos para arte, desenho, escrita e som. Os pedais diversos e coloridos lado-a-lado, os instrumentos que tocam melodia bem posicionados. Litros de café fumegantes me esperavam todos os dias.
Observar o quanto tenho vivido de maneira repetida não me deixa triste por isso, porque é um paraíso para mim. Ter tudo isso ao meu redor é concretização do desejo de uma criança que só queria fugir dos problemas dos outros quando época. Que apanhava por ter um jeito gay, por ter uma voz gay, por saber demais, por não entender como responder às ações dos outros. Crescer foi entender que posso escolher não sofrer as dores que não são minhas, que posso acolher a luta que não é minha do mesmo jeito. 
Crescer, diferente do que eles pregavam na infância, é muito mais que trabalhar para pagar as contas e alimentar os filhos que não queriam ter. É poder aproveitar os momentos construídos com calma e perseverança, é valorizar um recital na universidade, é comemorar a mudança de casa, é conhecer novas pessoas e aprender novas piadas. É não se revelar repetição dos nossos pais. É ser o ponto fora da curva.
Ver a vida dos outros através de olhos virtuais é, também, entender que existe muita luta e resolução de problemas do lado de lá. Que nem sempre a felicidade reina, e muita vezes é só um dia após o outro. Não tem mensuração sobre o que é bom ou não, são perfeitas histórias de pessoas completas com dramas distintos e comédia perspicaz. São pessoas sendo pessoas, não sabendo o que será delas logo após o fechar de olhos.
O frio estaciona sobre nossa cidade novamente. Lá fora faz três graus. Somos adultos, não mais com dez anos. Aqui dentro uns trinta e tantos. Também tinha tento. Atento a tudo tento, novamente, frisar que estamos bem por agora. Que o amanhã a Deus pertence, e quando for confuso, perguntarei "onde está seu deus agora?" E com casacos, luvas, cachecol, gorro e vapor saindo pelo rosado risco abridor de alegria rodeado pela barba com cheiro de menta, me responderá "42" e entenderemos que hoje será um dia em que nossos pais terão certeza que somos quem queremos ser. 

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Os sapinhos


Fonte: Imagem aleatória que vi no twitter. Por Art_Kaaata
Eu vi dois sapinhos.
Pelo o que senti ao ver essa imagem, há uma sensação boa de fim de tarde de um dia de sol. São dois sapinhos, não tem essa de sapo ou perereca, macho ou fêmea, pai e filho ou mãe e filha.
São apenas dois sapinhos.
Sapinhos em natureza, e se não fossem as latinhas de bebida em tamanho proporcional, tudo seria bem natural. Em pose estranha, claro, mas natural.
As pequeninas latas de cerveja, refrigerante, destilado, suco ou chá estão ali. Estão sentadas tão minimamente íntimas do mesmo que os sapinhos naquela pose de pessoas juntas vendo o mar. Os corpos dos sapinhos estão coladinhos, assistindo e tomando sua bebidinha industrial. Poderia ser um sábado qualquer, um domingo de sol, uma terça na chuva. Não há sinais de vento, de sol ou de chuva. As cores são de musgo, mas o pântano é pura contemplação.
Não lembro a ultima vez que parei para assistir algo ao ar livre, mas lembro das tardes no banco de cimento, sob as sombras de coqueiros, vendo os amistosos de vôlei das gays. Sim, eu ia à praia com uma amiga assistir tardes de vôlei. O melhor é que todos eram gays, alguns muito caricatos, outros só gays mesmo. E eles conversavam, gritavam, se jogavam, dançavam, e todo mundo estava ali torcendo. Era o jogo secreto de vôlei das gays.
De menina só tinha essa minha amiga, mas ela parecia conhecer todo mundo. Por mais que ela não falasse com ninguém, ela torcia por todo mundo, a cada lance bem feito ela gritava parecendo mãe de aluno em final de campeonato faltando aquele ponto crucial para o troféu genericamente dourado.
Não tínhamos dinheiro, não tomávamos latinhas, não comíamos salgadinhos, nem se quer íamos de ônibus. O jogo era no final da Jatiúca, perto do Carlito, e eu saia de casa, passava na casa dela, descíamos a ladeira do óleo, íamos andando pelas areias da Cruz das Almas até chegar lá. E, quatro ou cinco horas depois, voltávamos pelo mesmo caminho.
Era mágico.
Primeiro, por ser nosso segredo, ninguém mais sabia que fazíamos esse percurso de dez quilômetros toda semana. Segundo, por ser uma reunião de gays e tudo bem. Não tinha olhar negativo, palavrões e insultos, ninguém apanhava gratuitamente, nem tentavam se esconder. Esse era o tipo de gente que eu queria ter por perto. Eu adolescente, eles com mais de vinte e cinco. Eles trabalhavam, estudavam, e alguns os dois. 
Eu lembro que por vezes nós éramos como os mascotes daquele encontro, os olhares com ternura, as conversas soltas que nos abraçavam. Eu me sentia bem em estar ali, em me sentir seguro, em estar normal e ser normal quando tudo o que eu tinha fora dali era a sensação massacrante que minha existência era errada e que dia após dia eu merecia estar morto.
Vi os sapinhos.
Vi os sapinhos sentados e me lembrei da camisa verde com passagens sobre cavalos, do jogador Moab e seus saques firmes, do recebimento taxativo e as expressões faciais do cinquentão cabeleireiro de sunga cavada, lembro dos saltos, cortes e bloqueios. A torcida vibrava a cada set, a linha fora ficava atônita com tanta energia gasta em campo. Os jogadores não tinham medo da areia. Mergulhavam para garantir que não haveria ponto, pulavam como se fossem se agarrar na única corda que salvaria suas vidas, sacavam com pontaria de final de olimpíadas.
Os sapinhos eram nós dois naquelas tardes de vôlei.
Eu sempre só assisti, sempre tive vergonha de mim. Do que eu penso, de como eu penso, de como sou como um todo. Ser uma vergonha como indivíduo é algo que possuo e isso sempre estará, é minha carga familiar. Não são genes, mas criação. Fundamentalismo este que tinha medo da areia, do salpicar salgado da praia, dos gritos e risadas dos gays.
Talvez, um dia, quem sabe, eu consiga ser um sapinho novamente. Consiga, enfim, ver um jogo qualquer e ficar bem, assistir uma apresentação e me sentir seguro, ficar ouvindo música sem ter medo de apanhar por ser eu.  
Eu vi dois sapinhos.
Sim, eu vi.

quinta-feira, 21 de maio de 2020

As leituras da lista

Arte: Comfort Zone by Chantal Horeis ou @chantal_horeis



A lista de leituras deste ano foi composta, quase que exclusivamente, da lista entregue no sítio da BBC News, emissora de telejornalismo. Esta lista grafava todos os vinte livros mais mentidos da década. Mentidos por muita gente. "Ah, eu conheço a história, já li na infância", é quase que bem assim que eles falam sobre. Na verdade, eles só viram algum desenho ou filme, ou mesmo alguém falando em modo resenha sobre a história, e por ouvir os detalhes principais, replicam sem ter a culpa de precisar ler o livro citado.
E isso é ruim? Bem, às vezes sim. Tirar o mérito da obra por acreditar que tem o domínio do conhecimento é como dizer que não vai assistir a novela porque sabe que no final os mocinhos acabam juntos, o vilão se arrepende, e há sempre uma festa de casamento para encerrar a trama. Resumir novela desta maneira é ou não impróprio? É como este vídeo icônico aqui (https://www.youtube.com/watch?v=-yr8YzTzwv4), o famoso vídeo do "tananan" que explícitamente mostra como a linguagem é importante. 
Você teria vergonha de não ter assistido o filme Titanic, por exemplo? Em uma roda de conversa, quando indagado por algo tão rebatido e consolidado como a história do Titanic, não ter assistido o filme vai te trazer um "você precisa ver, é um clássico". E isso não é ruim, indicações de coisas que nos marcam, sejam filmes, séries, músicas, eventos, jogos, locais, comidas e até pessoas (por quê não?), faz parte da nossa construção de relacionamentos. Receber indicações de remédio e não tomá-lo não te tornas um herege, então por que na literatura acontece disso? 
Não ler um clássico literário não te tornas herege, fique tranquilo, observe que a premissa de ler já é um tanto que delicada. Ler sempre foi um ato superior. Antigamente, só as pessoas importantes tinham o dom da palavra escrita e falada, o objetivo da vida era apenas sobreviver e não pensar. Tempo vai passando, seres humanos vão criando vínculos, testando ações e reações, vem a fala, as pinturas, a escrita, a conversa, a linguagem como um todo e voilà, temos o que conhecemos de comunidade eloquente. Ou ao menos próximo disso. Quem tem dinheiro tem educação, e quem não tem: lavoura. Era assim nas minhas terras antigamente. Sabe dizer se é assim hoje?
Quanto mais dinheiro a família tem, mais oportunidades de aprendizagem, melhores professores, materiais de estudo, viagens explanatórias e experiências únicas. Quanto menos dinheiro, mais sonhos de ter mais oportunidades. O sistema não perdoa. E toda essa volta só para te dizer que o livro é como uma arma, quanto mais você lê, mais você se carrega de munição. Seja ela educacional ou técnica, ficcional ou não-ficcional, em texto corrido ou poesia. Ler é uma condição de superioridade automática, tanto que a preconcepção de pessoa inteligente é aquele que usa óculos de grau. Quem lê muito, sabe muito.
Não é de hoje que essas névoas de conceitos antigos nos ronda, e ora eles têm razão e ora não. Quando me perguntam, em uma conversa trivial, o que gosto de fazer, sempre sou sincero e digo que gosto de ler, ler bastante, ler tudo e qualquer gênero que me ponham. Daí a réplica sempre é "eu também gosto/amo ler", e quando esta vai se explicar o que anda lendo surgem certos clichês sociais: não tenho o tempo que gostaria para me dedicar a isso; não consigo ler muito porque tenho filho(s), ando atarefado para ler, mas juro que gosto muito. 
E eu acho isso muito triste. Por ambos os fatos, o primeiro pela resposta ser sempre a obrigatória para que socialmente os outros não achem que a pessoa seja um troglodita; segundo, por saber que todas as respostas podem ser cem por cento verdade e de uma maneira bem massacrante. 
Para desmistificar um pouco essa lista em que as pessoas mentem, decidi fazê-lo pelo prazer do teste. Será mesmo que é um conteúdo feito para qualquer pessoa ou um nicho específico? Se essa lista é tão popular, o que ocorre que não chega ao interesse de correr os olhos nas linhas dessas fabulosas histórias? 
Me veio uma vez que a história é tão conhecida e simples que nem é necessário ler para saber o que acontece. Como num conto de mistério de "quem matou o coronel Mostarda na sala com um candelabro?", e você já começa sabendo que foi o mordomo Robert e tudo perde a graça. Mesmo que fosse assim, será que todos os livros são mesmo assim? Sem nenhuma experiência de leitura do começo, miolo e fim? Nada se salva de novo, engraçado, suspeito, erótico ou levemente divertido? Tenho minhas dúvidas.
E, enquanto faço essa experimentação, saboreio outros títulos que me veem hora e outra e, claro, se quiser me indicar algo, sinta-se à vontade. 





quinta-feira, 14 de maio de 2020

Só quer ser

Arte heads in clouds por @chantal_horeis


Sim, eu quero ser a diferentona. Quero ser a espertona, sabichona, gostosona e fodona. Eu quero ser tudo isso que você fala com ênfase de pessoa nojenta e invejosa. Um veneno esguichado por palavras comparativamente medíocre.
Ôcre, foi esta palavra que usei para determinar o tom de alaranjado no mapa gráfico. Todas olharam para mim com desdém. Já conheço esse semblante. Isso significa que elas se sentem inferiorizadas pelo meu conhecimento. Elas repetem a palavra que desconhecem em tom bem característico, você conhece qual.
Sempre foi assim. Em casa, na escola, na rua, e agora no trabalho. Ninguém gosta de gente inteligente por perto, ao menos não por muito tempo. Aqui, foram quase 36 horas até começarem a me odiar. 
Não digo ódio como o extremo oposto do amor, claro que não, é só uma intensificação literária para o resumo de desprezo, desgosto e apatia que elas geram em si ao me ver. É notório que não sou bem-vinda aqui. Era assim em casa quando eu era pequena, os mesmos semblantes. Apanhava dos meus irmãos mais velhos, dos meus pais, dos vizinhos e dos familiares. Sempre que eu falava ou perguntava algo que eles não gostavam ou não sabiam o que significava. Ela está zombando de mim?Sempre era uma surra. 
A gente aprende o que é dor, a suportar a dor, a não chorar ainda que você tenha que ir sozinha ao posto de saúde mais próximo após uma surra do seu pai por corrigi-lo enquanto falava mal do prefeito na televisão. A gente aprende a guardar a dor, bem, foi isso que eu aprendi depois de ficar três dias hospitalizada curando a hemorragia dos meus rins. Sim, fui atropelada.
Eles não sabem que o ônibus que me atropelou veio aqui saber o que eu tinha dito. Depois de confirmada simulação, foi para casa ou ao bar continuar bebendo. Alcoólatra a palavra.
Guardei a dor desses dias de casa, as dores da escola, da vizinhança até que consegui um emprego durante a faculdade e fugi de casa. Literalmente fugi, não disse para onde ia, com quem ou se voltava. Eles nem sabem que eu fiz o teste para faculdade. Só deixei um recado na porta da geladeira "obrigado e adeus".
Ôcre, foi esta a palavra que o médico falou que estava a cor de minha urina por conta do sangue dos rins. Algumas coisas nos marcam para sempre. E sim, vou continuar com o meu trabalho, afinal de contas, é com ele que eu pago a minha terapia psicológica que me mantem aqui, firme e forte.
Foi através dela, primeiro de um modo gratuito e comunitário, que aprendi o que era violência e que a culpa não era minha. Não na família, não na escola, tampouco na vizinhança. A culpa nunca foi minha. Esse peso que deixei para trás pouco-a-pouco, os quilos de culpa que escorriam face após cada sessão falando sobre mim, sobre as coisas, sobre tudo.
Sim, eu quero ser a diferentona. Quero ser aquela que carrega um livro consigo para todo canto, que aprecia o folhear nos dedos enquanto você dá like. Não é uma competição, é uma satisfação. Uma satisfação imensa de que eu simplesmente posso olhar ao redor e não precisar mostrar algo que não sou. Aos poucos, se elas quiserem, vão perceber que eu só sou mais uma garota que quer ser feliz, que sofreu um bocado, que gosta de aprender e que não quer o sol de ninguém.
É um trabalho em equipe, não é uma competição. Repito isso sempre que surge o silêncio ensurdecedor após a apresentação de material. Algumas passam a entender, outras são resistentes. Será que isso será o suficiente? Nunca saberemos.
Estarei aqui, aprendendo e ensinando gentilmente, porque esse é o meu trabalho e, principalmente, porque pode melhorar o mundo em que quero viver. 


domingo, 10 de maio de 2020

Unhas Cortadas

Arte de @giopota_nsfw



Sincronia.
Esta é a palavra que define uma relação de convívio.
Se você tem sincronia com a(s) pessoa(s) que mora(m) contigo, você poderá perceber uma fluidez nas ações do dia. O estar em sincronia também serve para tal, porém como é um momento oportuno, pode gerar insatisfações quando este mesmo momento acabar.
O convívio quando não acontece esta tal sincronia você já conhece. É uma ordem imperativa que rege e uma desordem de acontecimentos que predomina em insatisfação, distanciamento, discussões, angústia e muita tristeza. 
Pode parecer estranho alguém vos falar que se você vive em sincronia, tudo o que acontece é de fato satisfatório. Sim, é estranho. Mas te digo que não é de pura utopia, muito pelo contrário. Tudo vai pelo diálogo, hábito e construção mútua de um lugar de moradia melhor.
A colaboração de todos os envolvidos é o que determinará na estruturação dessa nova mecânica. Vivi por muito tempo em dessincronia, disfunção familiar e distanciamento até. Tudo porque na minha geração familiar não há o diálogo construtivo, não acontece a empatia, tampouco o acolhimento psicossocial. Em outras palavras, apenas uma família tradicional pós ditadura. 
E, quando finalmente emergi de tudo isso, quando parti para construção da minha própria instituição, percebi, então, que aquilo poderia ser diferente, satisfatório e por muitas vezes real. A minha própria utopia em concretude. Algo que se assemelha ao exemplo Mike Wazowski e James P. Sullivan (o Sulley) ao determinarem os limites de cada um, suas virtudes e vícios e, assim, se completarem finalmente.
Interessante que não nos posicionamos para reflexão se somos nós a peça que emperra o maquinário do convívio. Talvez algumas posições que tomamos, ações que fazemos e palavras que lançamos podem gerar um contínuo desdém familiar. Daí a empatia serve para colar os fragmentos da comunicação violenta. Violência aqui como ausência de harmonia. Sempre haverá alguma forma de acontecer um desentendimento, um diálogo acalorado ou tristeza por ações de outrem, isso também é convivência.
Em comparação do que vivo hoje com o que vivi outrora, os momentos de satisfação são extremamente maiores com as pessoas que decidi conviver com. Até mesmo na ultima experiência desgastante de degrau social delimitado, a sensação de dessincronia não era tão áspera e corrosiva como naquele tempo. 
Por isto tudo, ao varrer as unhas cortadas do chão, me sento na varanda e tomo meu café que me deixaram ali antes de saírem para enfrentar um novo dia. Agradeço por continuar tentando ser uma pessoa melhor, com valores maiores que minha própria existência. Porque a paz traz isso consigo, uma vontade imensa de fazer os outros experimentarem a sensatez de existir minimante imenso.


segunda-feira, 4 de maio de 2020

Sexta-feira ou o amanhã de ontem?


Arte de @brunopixels

Aquecedor para os dias próximos do zero grau, ventilador para os dias com mais de trinta. Condicionador de ar não é uma opção, tem vento direcionado e sem competição, banho livre e à vontade. Água potável abastecida na geladeira, comida pronta e mantimentos para produção de bolos, pudins, joelhos e sanduíches. O controle remoto só perde para o controle do vídeo-game. Na tevê são série e filme disputando jogos de fazenda ou de zumbis. A internete é tão vital quanto respirar. As janelas se abrem durante o dia inteiro e se fecham para as noites.
O café é religioso, a risada é a oração.
Quarentena. 
Acordo preguiçosamente.
Ainda é cedo, o sol desperta ao som de Sweater Weather, a cama é arrumada, os lençóis dobrados, janelas abertas. Bom dia. O primeiro vento é sempre gelado, percorre o quarto como um cão raivoso, avançando, farejando e sem controle nenhum. Os pássaros já piam para lá e para cá. Árvores balançam saudando. Os vizinhos dormem, geralmente só abrem as janelas depois das dez. 
Que dia é hoje? Bem, ou respondo sexta-feira ou respondo o amanhã de ontem. Sem prazos, sem datas, sem cobranças. Estar em quarentena é só não ter a obrigação de sair de casa. Não mudou a minha rotina, mas mudou meus hábitos. Conversas são feitas com mais frequência, perguntas são disparadas como setas infinitas ao contento de quem quiser responder. Os dias são os mesmos, só que diferentes e se você focar, exclusivamente, no que não se pode fazer, isso não será saudável. 
Temos um prazo para sair dessa estratégia de combate à pandemia. E isso ajuda a apaziguar os ânimos. Se você lembrar, em The Sims, lá trás, os sims quando ficavam muito tempo em casa pediam para sair. Como se não conseguissem se manter saudáveis ficando em casa, como se algo maior que eles roubasse sanidade pelas paredes. Na vida adulta sabemos que isso não existe. 
Nosso cérebro acostumado a comandar nossas saídas, escola, trabalho, amigos, parentes, festas, compras, passeios, com rumo, sem rumo, andando, correndo, cambaleando, parado ou a todo vapor. Nosso cotidiano é bombardeado de coisas indo e vindo e, no frear brusco da quarentena, tudo parece fora de controle. Uma pane no sistema. Respira fundo. Não é bem assim. Vê novamente como você começa o dia. Os meus você já conhece, só que sempre muda um pouco. 
Ontem mesmo, fiquei uns muitos minutos sentado no chão do quarto, recebendo o sol da manhã. Dando sentido à sensação, ao calor que emanava de fora, do morno abrigando a pele, o vento surrupiando os pelos. E assim passou o tempo. Perceber o que se passa nestes atos pequenos é como almoçar sem qualquer interação tecnológica: sem tevê, sem música nos ouvidos, sem celular ou tablet por perto. Quando se come, sem as distrações tão eficientes, o cérebro reconhece novos sabores, acontece uma textura, o mastigar é sentido, a língua é manipulada com veemência. Dar atenção aos atos diários que são dispensados por qualquer desculpa é o modo de você acontecer durante um surto de solitude. 

Aos que conversam sobre enlouquecer se não sair de casa em breve, pergunto o que falta, e em todas as respostas elas não sabem explicar bem o quê. Eu sei bem o que é: vivemos desde sempre indo e vindo, atrás de alguém, de um lugar ou algo. Vivemos correndo para escola às sete, o trabalho às nove, o almoço às doze e quinze, o ônibus em quinze minutos, o espetáculo daqui a duas horas, a viagem dentro de cinco dias. O relógio marca nossa existência ao nascer e firma nossa diáspora ao mundo dos céus.
O tempo, o tempo todo, é o que nos consome, o que nos guia e estabelece propósitos, angustias e alegrias. E agora que parece que temos todo o tempo do mundo dentro de nossas casas, ficamos descontrolados, com uma ansiedade sobre o futuro, sobre nosso meio, sobre o ontem e o que será de hoje. Não existe terapia que te prepare para conviver consigo mesmo, porém existe as práticas da aceitação do momento agora, a esperança do amanhã e a ressignificação do ontem. 
Yoga, relaxamento, pensamentos, leituras, sonecas, vídeos, músicas, conversas... tanto a se fazer durante poucos ou muitos minutos. Não se prenda ao que não pode, se solidarize com os que estão lá fora e os que também não podem sair. E se pensar em surtar, subir pelas paredes, ou não aguentar mais olhar para as mesmas coisas, só me avisa, te mostrarei um mundo de possibilidades. 

  

terça-feira, 28 de abril de 2020

Tudo bem?


Arte de Strovery ou @stro_very_

Ainda é cedo quando me pego pensando sobre a morte e a vida. As linhas do ensaio, em minhas mãos, se confundem e me transportam para o nada, onde tudo acontece. Momentos como este me dragam para reflexões infinitas, são mais sensoriais que paradigmas. 
Me pergunto se é saudável ficar imaginando sobre essas coisas. Imagino como foi que tudo aconteceu, mas em detalhes. Me preocupo em imaginar se ele sentiu dor quando o copo caiu no chão, se ele ainda estava vivo quando a cabeça encontrou o chão, se ele lembrou do filho, se ele pediu desculpas ou só chamada por socorro, ainda que sua voz não pudesse mais sair porque só a vida brotava dali. Imagino seus olhos claros perdendo a vida enquanto olha o asfalto, consigo ver suas expressões de dor latejante dos projéteis em sua carne. Me pergunto se ouviu gritos e entrou em pânico, se ainda pôde escutar a moto dos assassinos se distanciando; se o vento tocava na pele e deu-lhe frio, o sangue quente jorrando pelos buracos de fogo e o frio tomando sua alma; se conseguiu ver o céu em seu ultimo momento de vida. O céu ao entardecer, alaranjado e sem nuvem alguma. 
Exposto ao chão sujo como panfleto amassado, é assim que tudo acaba. 
O ensaio que leio é sobre defesa, como os Estados se comportam de maneira militar, autodefesa, expansionismo, agenda estratégica... Quem se importa? hoje é só um dia daqueles que sonhei com alguém e isso me assombra pelo dia inteiro. Trás uma aflição corriqueira, uma tristeza já antiga. Pensar sobre essas coisas me deixa reflexivo sobre a vida, sobre a morte, sobre como somos nada no universo, como somos tão pouco. 
Ao assistir Claire falando sobre isso, declarando à Altman que isso lhe acontece, e mesmo assim ela seguiu em frente, tomo isso como normal para quem teve alguém próximo tomado à força, por um acidente, pela violência cotidiana, pela vida (in)justa. É um momento peculiar quando a mente te indaga sobre coisas tão irrelevantes, tentando te trazer um conforto talvez? Tentando te avivar, quem sabe? Qual o sentindo desses pensamentos além da saudade. 
Saudade esta que se prontifica em lembranças fracas e borradas de um passado confuso e nada amoroso. Afirmo que isso só se dá pelo drama que queremos para nós, um drama pesado e esmagador que assola todas as pessoas do mundo. Se está vivo, uma dessas questões irá te perturbar uma hora. É só esperar que vai acontecer. E, sinceramente, não adianta se preparar tanto, porque a lógica da coisa vai te fazer corroer algumas lembranças, querer voltar atrás, fazer diferente, e tudo será do jeito que já é. 
Pensamento tão inúteis que você quererá uma máquina do tempo, um teletransporte, uma poção mística para trazer um momento bom de volta, pensando em sufocar essa coisa que marca o corpo tão profundamente que nunca poderá cicatrizar. Não é remorso, não é solidão, tampouco desaventura da mente ou devaneio de culpa. É só a vida que se foi.
Assistir e idealizar que vamos morrer igual à velhinha do Titanic: centenária, numa cama confortavelmente aconchegante e enquanto estiver num sono bom é o mesmo que olhar para o céu e não ver uma nuvem sequer e acreditar que nunca choverá. Jamais esqueça: água deve vir, diz a previsão. E se não quiser se preocupar com as roupas no varal, apenas fique de olho vez ou outra, se importe menos, se importe mais, tanto faz, no final do dia tudo terá valido a pena ou não.  
 






segunda-feira, 27 de abril de 2020

Por onde começar?


Arte de Yun Ling ou apenas @lingy000

Este é o título do primeiro projeto audiovisual que me propus junto ao amigo oculto. Não é algo grande, revelador ou modificador de vidas. É algo simples, íntimo e sincero. E como assunto, joguei uma proposta singular. Perguntei-o sobre o começo de tudo e, por incrível que pareça, ficamos por horas falando e falando sobre as coisas.
Por onde começar? Do início, claro! Mas onde seria esse início? Bem, isso depende bastante.
Se você fala de um texto, por exemplo, você começa do conceito, da origem histórica ou etimológica. Assim, acabamos alcançando alguns contextos e colocamos o leitor em uma situação sabida. Para começar a cozinhar, gosto de primeiro lavar os pratos e copos, deixar a pia limpa e pronto para receber a próxima rodada. Com tudo limpo, sinto-me satisfeito para começar uma prato simples, um almoço elaborado ou uma janta conterrânea. Para começar exercícios físicos, começamos com o alongamento. Aquecer o corpo para trilhar os caminhos do estica-e-puxa. Claro que isso também serve para o canto, a dança e o instrumento musical. Aquecimento é válido e necessário quando se põe músculos à prova.
Para começar a ler do nada, indico sempre começar por algo que sabemos que gostamos. Um tema, uma trama, um autor. Do mesmo modo acontece com as maratonas de séries e filmes. Começar um projeto, assim como começar a ler este texto, vem da proposta inicial de querer e quando você percebe, já está quase acabando. Começar às vezes só cabe você parar e fazer. Se dedicar uns minutos para aquela tarefa, sair um pouco das redes sociais e cair em um mundo meio arisco: o mundo real.
Ao começar uma conversa, elogie, ao começar um trabalho, seja grato, ao começar a arrumar a casa, seja música.
Limpo a mesa para começar a digitação prolongada. É um ritual. Faço mapas mentais para organizar os assuntos por tema. É uma mania. Traço um cronograma para trilhar as matérias desse semestre, é hábito. Mas, no fim, de todo esse começo, faço o que me prometi a fazer. Não uso de procrastinação ativa para desviar do objetivo. Fazer faxina no quarto para estar tudo limpo e, assim, estudar por horas sem se preocupar com o entorno é sensacional. Só que... faxina todo dia e acabar cansada em sequer tocar no livro... bem, sabemos onde isso vai dar. 
Começar não é fácil, por isso, não se cobre tanto. Comece, recomece, repita e tente mais uma vez. Com o tempo, lá na frente, você verá que é simples e até mesmo prazeroso. Dá uma lida um pouco por dia, converse sobre as coisas, assista aquele filme que tu tanto queria, mas não deixe de começar a viver as coisas do jeito que deve ser. 
Podemos começar todos os dias, mas o final é sempre o mesmo.


quarta-feira, 22 de abril de 2020

Convite


Art by @chantal_horei

O sol aquece as calçadas, as copas das árvores e avoaça sobre os carros. É um novo dia, um breve até. São poucas horas da manhã e o mundo já acontece lá fora. Vejo as pessoas indo e vindo daqui da sacada, meu café ainda está acordando para esta nova realidade. O vapor soturno abriga meus nervos. O sol aquece minha pele, o vento frio me treme, e assim é mais um dia de outono. Avisto os carros saindo, crianças sorrindo e muita agitação para uma segunda-feira. Se não fosse por um detalhe até que eu pensaria que é mais uma segunda-feira.
Estamos em quarentena, já é meu trigésimo terceiro dia de abrigo. Sem sair para nada. A alimentação é pedida todas as quintas-feiras, por telefone, passo a lista de compras e alguém do supermercado garante a qualidade e a entrega. Os produtos é meio que por sorte, ora uma promoção ou um preço comum, ora um produto muito caro que não tiver oportunidade de troca. Com a dispensa abastecida gradualmente me mantenho. Escolhi as quintas-feiras por ser um dia bom para música. Assim que as compras chegam, começa todo o processo de higienização do processo. Primeiro a forma de receber, depois tirar as compras dos sacos e caixas, passar água e sabão em tudo, embalagens plásticas esfregadas, embalagens de papelão trocadas, frutas e verduras no hipoclorito. O processo é lento e bem cuidado. Em tempos de quarentena, qualquer movimento brusco é um deslize para contaminação. 
O estoque de alimentos e produtos de limpeza deixa tudo com cheiro de limpo. O que tem lugar em potes e vidros vão para os potes e vidros, o que é da geladeira, na geladeira e o que é para fim apenas um banho bem tomado. Esterilizado. É assim que vejo as todas as coisas que passam pelo portal doméstico. As plantas tomam sol na varanda como se não soubessem o que se passa, mas já contei tudo o que sabia. São todas minhas amigas. Me ouvem, me cantam e ficam no meu silêncio matinal, assistindo o dia dos outros ignorarem uma tragédia natural. 
Aquecer o corpo com goles de café preto ou com o sol que tenta ganhar do frio da estação é tão gostosinho que você deveria tentar qualquer dia desses. Parece que a solidão que derroca da quarentena não é tão fustigante como muita gente diz. Aprender a se gostar e pensar na vida te torna sagaz. Não há necessidade de contato, de demonstração de poder, tampouco menção à ostentação. Estar em quarentena sozinho e ver o mundo abrir mão da visão da ciência é, como diria Maquiavel, tentador.
Existe vida na quarenta, assim como sensações e sentimentos. Tudo é multiplicado por mil quando se fala de si. É muita falta, é muita sobra, é muito tempo para poder se equilibrar. Saber que sou suficiente é satisfatório. Acreditar que serei o mesmo daqui ao pós quarentena é, deliberadamente, ilusório. Não quero que essa fase seja apagada da memória das coisas, não acho justo com todo mundo que já se foi, não acho justo com todo mundo que ainda vai, nem com quem fica assistindo isso sem poder fazer nada. E neste nada maroto que imploramos por acontecer é permanecer em casa, o lar seguro de tudo e todos. Sem festas particulares, sem jantares, sem visita no final de semana, sem amores casuais nem humilhações sazonais. Se estar no quadrado continuar evitando o alastre da morte, continuarei aqui na sacada, café na mão, frio na pele, Low Hum aos céus e a reza ao infinito. Vem comigo, mas fique em casa.



segunda-feira, 20 de abril de 2020

Convide


art by @thuta_vares


Se os artistas sempre preferiram fazer alusão ao impossível, agora mais que nunca. Em tempos de quarentena e isolamento social, a arte prevalece como constante companheira. É do ramo das ciências humanas que vem os atores, cantores, pintores e demais profissionais que reforçam que este seguimento é muito mais que apenas cultura, é a perpetuação das ações do mundo como um todo. 
Com o isolamento e alguns toques de recolher, o mundo se vê em consumo maciço de internete, tevê e música. Sim, se você ficar nos créditos ao final do filme ou da série, até mesmo um programa da tevê aberta, você verá as pessoas diretamente ligadas aquilo. 
Num program de tevê, como uma novela, por exemplo, você pode pensar apenas nos atores em sim, mas tem um corpo de direção, montagem, figurino, som, edição, executivos que arrecadam dinheiro pra produção e tantas outras coisas diretamente ligadas. Ou seja, mesmo que seja uma série de tevê que uma pessoa fica em monologo suspendendo 30 minutos por episódio, inda assim você terá pelo menos umas cinquenta pessoas por trás. No youtube não seria diferente. Existem canais e canais com o mais diverso conteúdo divulgado para o mundo todo e equipes que só trabalham com os bastidores do processo.
As ciências humanas são inúteis ao ponto de: se não existissem, você não teria seu programa favorito, sua saga seja ela Harry Potter, Game of Thrones, Senhor dos Anéis ou mesmo o entre Star Wars e Star Trek não existiriam. Atente que falo de modo amplo e contundente que a ciência humana, quando vazada na arte te devora o tempo inteiro e você finge que ela não é importante e deixa os outros quererem aboli-las sem pensar.
Em pesquisa de simples conceito a famosa página wiki nos trás uma dicotomia entre ciências humanas e ciências sociais, mostrando o que é social (como psicologia e sociologia) e o que é humano (como letras e filosofia). O mais interessante é que o ensino de filosofia, história, dança, música e afins são alvos da extrema direita nacional. A história como ciência fica entre as duas e cada nacionalidade vai defini-la a seu critério. 
De acordo com a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, ou para os íntimos apenas CAPES, as ciências humanas englobam as seguintes linhas de conhecimento:

1) Filosofia;
2) Sociologia;
3) Antropologia;
4) Arqueologia;
5) História;
6) Geografia;
7) Psicologia;
8) Educação;
9) Ciência Política;
10) Teologia.

Dentro destes dez itens existem inúmeros subitens que encaminhas as linhas das ciências de cordo com sua própria estrutura metodológica científica. Mas o que isso quer dizer? É simples: se a CAPES, a responsável pela estrutura da árvore do conhecimento, fizer a exclusão da essencialidade das ciências humanas dos currículos pedagógicos, tudo vira um caos. A ciência humana em conceito não tem arte, não tem dança, canto ou teatro. Se retirar das universidades a Educação, por exemplo, acabam os cursos de licenciatura e a própria pedagogia por não terem mais uma estrutura que fundamentem as teorias e práticas do ensino-aprendizagem. Como formar professores sem esse galho da árvore? Outra coisa, retirar Filosofia e Sociologia não farão as pessoas parar o pensamento, o questionamento, as revoltas, manifestações e inquietudes que são, sabidamente, intrínsecas ao ser humano.


Falar que a extrema direita está errada ao pedir extinção das Ciências Humanas é certo para você?
Você consegue imaginar um mundo sem esses 10 itens sendo ensinados e estudados? 
Em tempos de pandemia e isolamento social tudo pode ser gatilho. Pandemia e isolamento social é fato novo, não se engane. Assisto com muito medo todas as manifestações que o movimento autoritário faz: movimentos contra democracia, gritos contra cultura, banalização do conhecimento científico e todo dia é uma blasfêmia histórica e social diferente. 
Toda essa raiva vem da falta de poder absoluto, toda essa raiva não é nova, toda essa raiva não vai passar assim do nada. A luta contra a ignorância é vital, é através do diálogo ou da porrada. Cada época tem sua arma.
Dizem que quanto mais evoluída a civilização, menos violência. Em que tipo de civilização você está?
Aproveito esta ultima para te dizer que o processo reflexivo é inquietante e divertido. Te mostro que essas questões promovem sabedoria. Vem comigo?



domingo, 12 de abril de 2020

Midnight dinner


art by @pigeoncindy_

A imagem da cidade toma conta do cenário. O caminho é nítido pela cidade noturna. A trilha que acompanha não te energiza. Ela te diminui e te comprime ao máximo que dá. Assim, você cabe no teu próprio vazio, um bolso te molda e você segue pela avenida movimentada. Há tanta gente na rua, as luzes fortes dos letreiros nos cegam por reflexo. 
A faixa de pedestres é inundada pelo cardume de gente. Indo e vindo eles vão, eles vêm. A trilha não aprimora a leveza, ela sutilmente te deixa entorpecido e se deseja triste. A tristeza consiste numa tendência quase que automática. A noite é solitária, as pessoas não se completam mais, elas apenas se conectam. A tristeza que vos falo não é deprimente, enfadonha ou lacrimeja uma nota sequer. A tristeza que acalenta é aquela soturna, esta que nos acolhe antes de cair no sono. 
Chamo de tristeza porque é o mais próximo do conceito, poderia ser uma melancolia serena, uma solicitude sagaz, ou alguma dessas combinações não tradicionais.
Como algo que me afetou tão profundamente poderia ser tão fungível naquela hora. E foi isso que pensei ao sobrevoar as ruas de Tokyo. Respiro fundo e a cicatriz não tem marca, sobrou dela um nome que desejei guardar por mágoa. Mágoa esta que cultivo em troca de um livro insistente.
A minha coleção foi tomada para si com bravura e boca cheia. As palavras fartas e incisivas me cortaram o ultimo fio de relação que outrora havia. Era derradeiro o fim já sabido, e prontamente protelei para que não fosse real, mas é. 
A realidade, assim como a verdade, pode tardar a te jorrar os olhos, mas uma hora ou outra te trará lágrimas e ranger de dentes. E pedindo meu jantar da meia-noite me peguei contando meus botões, buscando prazer em memórias que justifiquem um mero sorriso. Não encontro prazer nessas memórias que queimam ardentemente ao som de uma verdade irreal. Uma certeza tão podre e fulgural que rompe qualquer sensação boa que tento fisgar do passado. 
Tokyo me traz essa tristeza pelas ruas, ao ver vitrines com coleções de coisas, tantas coisas. Coisas tantas que nem saberia por onde te falar. Acontece tanta coisa por aqui, queria te contar tudo a toda hora. Vejo as luzes da cidade, os semáforos, ouço as conversas vazadas e os sons das emoções. Nada disso vai ser levado adiante e, como um tesouro só meu, enterro nos travesseiros todas as noites. Deixei em caixas todo meu acervo passado, a que chamei tolamente de tesouro e, como piratas, elas  me conquistaram, me amarraram em promessas, cavaram no tempo e enterraram o meu sonho. No mapa existem vários xis marcando a localização não-precisa: as águas são bem-vindas, o tempo é tentador... bem, umas coisa que aprendi aqui em Shinjuku é que uma hora as coisas vão deixar de te fazer mal e fluirá em calor confortante. Meu jantar está pronto, itadakimasu, comerei vendo mestre satisfeito com minha presença, talvez ele queira saber que meu dia foi bom, inda que meu aspecto seja cabisbaixo. 
Só mais uma refeição delicada que me faz pensar nas coisas. Pensar no que realmente vale a pena. Provavelmente, tudo o que deixei para trás não signifique tanto assim. Afinal de contas, eu só sou uma conexão, um ícone que em alguns cenário vai te lembrar de épocas passadas. Ao sumir do virtual nada me sobrará e você terá apenas a promessa moribunda que nunca passou de palavras ao vento. E carregado por eles irei mais uma vez, sair pela cidade ao som de uma morna sensação de dever cumprido.  Jaa, mata ne!


segunda-feira, 9 de março de 2020

Pequenas Grandes Conquistas

Arte de Yaoyao Ma Van As

A pergunta era simples: Qual a grande conquista que você só conseguiu quando adulto? As pessoas respondiam coisas diferentes umas das outras. Algumas sobre materialidade como ter um carro ou viagem feita para Europa, outras sobre coisas mais simples como ter um pet, um jantar num lugar desejado e seguia o fio. Para mim, uma coisa que eu só vim conquistar na vida adulta foi algo perturbador. Eu sempre tive um desejo peculiar de poder dormir vendo o céu. Sei que para sua realidade isso seja algo um tanto idiota, mas para minha infância e adolescência, tudo o que eu fazia era imaginar a imensidão sideral. Podia desmanchar o teto rapidamente, imaginar as constelações, alguma nuvens aqui e ali, raios e trovões.
Ver o céu ao dormir e ao acordar era um privilégio tão simples. E eu não tinha. A casa que habitei por décadas tinha muros altos e janelas para o concreto. Ver o céu era uma atividade não-permitida. Quando criança, para não ficar doente no sereno, o quintal que era o lar das minhas atividades solitárias não era permitido ficar depois das dez da noite. Trancas e cadeados nos segurava com precisão. Quando adolescente, o quintal fora engolido por uma reforma tão esperançosa que, por um momento, acreditei que fosse findar em algo tão esperado: um quarto só meu, sem precisar disputar silêncio ou me preocupar com o sumiço das minhas coisas. Acabou que o meu espaço sideral sufocou-e em ripas de solidão. Para ter uma visão das nuvens, eu teria que pleitear entre vigas de concreto. Algo tão simples e tão profundo. Ter a capacidade de acordar vendo o céu claro, ou ver a chuva cair, ou ver os últimos raios de sol.   
Quando já adulto, ainda na transição entre jovem e não tanto, consegui morar num apartamento perfeito. Todos o cômodos tinham janelas que davam para o infinito. Eu amava ficar olhando pela janela, ver o sol do fim de tarde criando murais na parede, correr para fechar as janelas quando da chuva... amava poder ter esse privilégio tão tolo. Lembro das muitas vezes que sorri com aquilo, que chorei com aquilo, que me senti tão satisfeito em ter aquele momento de vislumbre. Fogos de artifício já riscaram os céus e eu pude ver, também vi pássaros voando, pipas planando, aviões fingindo não se importar. 
Hoje é noite de lua. Lembro dessa sensação de orgulho ao poder ver a lua de um lugar confortável, seja da sala, do quarto ou banheiro. A inquietação única e valente que se dá quando percebo que o céu está bem ali. A estrelas me acompanham até a ultima gota de prontidão, a árvore balança tentando me hipnotizar, e assim é meu dormir hoje. Ao acordar não é diferente. Os pássaros cantam e voam, vejo todos afoitos pelo novo dia, prevejo chuva pelo serrilhar das nuvens, elas marcham enquanto me acordo. Estou olhando para cima, é o esforço que faço para admirar meu quadro dos desejos.
Se eu puder continuar com essa possibilidade de ver o céu assim tão simples, farei sem duvidar. Admiramos a passagem da lua cheia em um conforto tão incrível, sem sereno, com um café quente e música calma. É essa minha conquista mais admirável que tenho hoje. Ver o céu através de uma janela, sonhar que tudo está bem ou está ficando, esquecer dos problemas ou dores e ser uma estrela na imensidão sideral.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Sessão Fechada

Arte do Pinterest, Cristi-B.

No Brasil as coisas são mais demoradas para acontecer, mas não quer dizer que não chegam, por isso, inclusive, é lar de uma grande e vasta coalizão de raças. Lembre da história da civilização: Muitos seres foram dizimados em suas terras, exilados e banidos por apenas existirem, outras vezes por serem tão nocivos à raça humana que a sua simples menção trazia choro aos que sobreviveram. Guerras aconteceram para acabar com a praga, ora real ora surreal, e justificativas foram dadas, era a fome, a sede, a terra, a fé, a raça, o petróleo... Cada momento um tema para jogar e gerar rios de dinheiro e sangue em nome de algo, em prol de alguém. A fé não estaria longe disso tudo. Se estabelecia em um movimento contra tudo aquilo que era inumano. A fé se tornou escudo e espada da humanidade. Cada povo com sua crença, cada indivíduo com sua própria história de sobrevivência. Quem tem o poder impõe sua vontade e, por gerações, a dominação é o ápice da vida. Dominar é sinônimo de existência. 
O ano é 2018, a tecnologia comum é ultrapassada a cada 60 dias, evoluindo de forma dinâmica e orgânica. Aqui o recorte será deveras específico, uma retrato íntegro de uma manipulação velada. Se reúnem a cada ciclo, de quatro em quatro anos, para escolherem o próximo representante do governo. Sempre escolhido por sorteio o local de encontro, o Elísium Metropolita em São Paulo D.C, sedia o evento deste Estado soberano. Em reunião solene, estão presentes os sete anciões desta terra, escolhidos cada qual pelo seu clã, em seu próprio sistema político. Os Sete permanecerão durante sete dias e sete noites, discutindo e debatendo sobre o próximo reinado. Sendo necessário cinquenta por cento dos votos mais um (50%+1). Sendo um número primo e ímpar, você pode achar que são votações difíceis, mas não são, das atas fixadas e mandadas para cada governador e príncipes para que sejam seguidas à risca, os votos são sempre 6 a favor e 1 contra. A visão quase unânime dos clãs vem seguindo as gerações. Muito peculiar contar que o voto contra sempre é do clã Malkavian? 
A sessão acontece em uma sala precisa, sem iluminação, sem tecnologia, à prova de som e de bala, com as paredes em concreto maciço, sete metros de concreto mais uma placa de titânio de 2 metros e outros sete metros de concreto. Visto pelo composição você percebe que é no subsolo, com escadas para encaminhar, velas para acender, e papel, tecido, e café. Como faziam os antigos nos jardins da babilônia, uma tradição trazida por um Toreador e mantida pela simplicidade e respeito histórico. 
A cada dia é rezada uma tradição da conduta da Camarilla, e a cada dia é tema explicatório dos motivos do representante ser aquele e não outrem. Um dia por vez, uma reza por noite. Assim é feito aqui, nas terras-brasilis. Até hoje. 



PRIMEIRA NOITE: A MÁSCARA

Não revelarás tua verdadeira natureza àqueles que não sejam do Sangue. Fazer isso, é renunciar aos teus direitos de Sangue.

SEGUNDA NOITE: O DOMÍNIO

Teu domínio é de tua inteira responsabilidade. Todos os outros devem-te respeito enquanto nele estiverem. Ninguém poderá desafiar tua palavra enquanto estiver em teu domínio.

TERCEIRA NOITE: A PROGÉNIE

Apenas com a permissão de teu ancião gerarás outro de tua raça. Se criares outro sem a permissão de teu ancião, tu e tua progénie serão sacrificados.

QUARTA NOITE: A RESPONSABILIDADE

Aqueles que criares serão tuas próprias crianças. Até que tua progénie seja liberada, tu os comandará em todas as coisas. Os pecados de teus tilhos recairão sobre ti.

QUINTA NOITE: A HOSPITALIDADE

Honrarás o domínio de teu próximo. Quando chegares a uma cidade estrangeira, tu te apresentarás perante aquele que a governa. Sem a palavra de aceitação, tu não és nada.

SEXTA NOITE: A DESTRUIÇÃO

Tu estás proibido de destruir outro de tua espécie. O direito de destruição pertence apenas ao teu ancião. Apenas os mais antigos dentre vós convocarão a Caçada de Sangue.


Fantasia

Arte de @raytongart V oltei a ver alguns animes. E, desde que voltei, percebo o quanto o machismo e erotização é exagerada e comum. Todos os...