segunda-feira, 9 de março de 2020

Pequenas Grandes Conquistas


A pergunta era simples: Qual a grande conquista que você só conseguiu quando adulto? As pessoas respondiam coisas diferentes umas das outras. Algumas sobre materialidade como ter um carro ou viagem feita para Europa, outras sobre coisas mais simples como ter um pet, um jantar num lugar desejado e seguia o fio. Para mim, uma coisa que eu só vim conquistar na vida adulta foi algo perturbador. Eu sempre tive um desejo peculiar de poder dormir vendo o céu. Sei que para sua realidade isso seja algo um tanto idiota, mas para minha infância e adolescência, tudo o que eu fazia era imaginar a imensidão sideral. Podia desmanchar o teto rapidamente, imaginar as constelações, alguma nuvens aqui e ali, raios e trovões.
Ver o céu ao dormir e ao acordar era um privilégio tão simples. E eu não tinha. A casa que habitei por décadas tinha muros altos e janelas para o concreto. Ver o céu era uma atividade não-permitida. Quando criança, para não ficar doente no sereno, o quintal que era o lar das minhas atividades solitárias não era permitido ficar depois das dez da noite. Trancas e cadeados nos segurava com precisão. Quando adolescente, o quintal fora engolido por uma reforma tão esperançosa que, por um momento, acreditei que fosse findar em algo tão esperado: um quarto só meu, sem precisar disputar silêncio ou me preocupar com o sumiço das minhas coisas. Acabou que o meu espaço sideral sufocou-e em ripas de solidão. Para ter uma visão das nuvens, eu teria que pleitear entre vigas de concreto. Algo tão simples e tão profundo. Ter a capacidade de acordar vendo o céu claro, ou ver a chuva cair, ou ver os últimos raios de sol.   
Quando já adulto, ainda na transição entre jovem e não tanto, consegui morar num apartamento perfeito. Todos o cômodos tinham janelas que davam para o infinito. Eu amava ficar olhando pela janela, ver o sol do fim de tarde criando murais na parede, correr para fechar as janelas quando da chuva... amava poder ter esse privilégio tão tolo. Lembro das muitas vezes que sorri com aquilo, que chorei com aquilo, que me senti tão satisfeito em ter aquele momento de vislumbre. Fogos de artifício já riscaram os céus e eu pude ver, também vi pássaros voando, pipas planando, aviões fingindo não se importar. 
Hoje é noite de lua. Lembro dessa sensação de orgulho ao poder ver a lua de um lugar confortável, seja da sala, do quarto ou banheiro. A inquietação única e valente que se dá quando percebo que o céu está bem ali. A estrelas me acompanham até a ultima gota de prontidão, a árvore balança tentando me hipnotizar, e assim é meu dormir hoje. Ao acordar não é diferente. Os pássaros cantam e voam, vejo todos afoitos pelo novo dia, prevejo chuva pelo serrilhar das nuvens, elas marcham enquanto me acordo. Estou olhando para cima, é o esforço que faço para admirar meu quadro dos desejos.
Se eu puder continuar com essa possibilidade de ver o céu assim tão simples, farei sem duvidar. Admiramos a passagem da lua cheia em um conforto tão incrível, sem sereno, com um café quente e música calma. É essa minha conquista mais admirável que tenho hoje. Ver o céu através de uma janela, sonhar que tudo está bem ou está ficando, esquecer dos problemas ou dores e ser uma estrela na imensidão sideral.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Sessão Fechada


No Brasil as coisas são mais demoradas para acontecer, mas não quer dizer que não chegam, por isso, inclusive, é lar de uma grande e vasta coalizão de raças. Lembre da história da civilização: Muitos seres foram dizimados em suas terras, exilados e banidos por apenas existirem, outras vezes por serem tão nocivos à raça humana que a sua simples menção trazia choro aos que sobreviveram. Guerras aconteceram para acabar com a praga, ora real ora surreal, e justificativas foram dadas, era a fome, a sede, a terra, a fé, a raça, o petróleo... Cada momento um tema para jogar e gerar rios de dinheiro e sangue em nome de algo, em prol de alguém. A fé não estaria longe disso tudo. Se estabelecia em um movimento contra tudo aquilo que era inumano. A fé se tornou escudo e espada da humanidade. Cada povo com sua crença, cada indivíduo com sua própria história de sobrevivência. Quem tem o poder impõe sua vontade e, por gerações, a dominação é o ápice da vida. Dominar é sinônimo de existência. 
O ano é 2018, a tecnologia comum é ultrapassada a cada 60 dias, evoluindo de forma dinâmica e orgânica. Aqui o recorte será deveras específico, uma retrato íntegro de uma manipulação velada. Se reúnem a cada ciclo, de quatro em quatro anos, para escolherem o próximo representante do governo. Sempre escolhido por sorteio o local de encontro, o Elísium Metropolita em São Paulo D.C, sedia o evento deste Estado soberano. Em reunião solene, estão presentes os sete anciões desta terra, escolhidos cada qual pelo seu clã, em seu próprio sistema político. Os Sete permanecerão durante sete dias e sete noites, discutindo e debatendo sobre o próximo reinado. Sendo necessário cinquenta por cento dos votos mais um (50%+1). Sendo um número primo e ímpar, você pode achar que são votações difíceis, mas não são, das atas fixadas e mandadas para cada governador e príncipes para que sejam seguidas à risca, os votos são sempre 6 a favor e 1 contra. A visão quase unânime dos clãs vem seguindo as gerações. Muito peculiar contar que o voto contra sempre é do clã Malkavian? 
A sessão acontece em uma sala precisa, sem iluminação, sem tecnologia, à prova de som e de bala, com as paredes em concreto maciço, sete metros de concreto mais uma placa de titânio de 2 metros e outros sete metros de concreto. Visto pelo composição você percebe que é no subsolo, com escadas para encaminhar, velas para acender, e papel, tecido, e café. Como faziam os antigos nos jardins da babilônia, uma tradição trazida por um Toreador e mantida pela simplicidade e respeito histórico. 
A cada dia é rezada uma tradição da conduta da Camarilla, e a cada dia é tema explicatório dos motivos do representante ser aquele e não outrem. Um dia por vez, uma reza por noite. Assim é feito aqui, nas terras-brasilis. Até hoje. 



PRIMEIRA NOITE: A MÁSCARA

Não revelarás tua verdadeira natureza àqueles que não sejam do Sangue. Fazer isso, é renunciar aos teus direitos de Sangue.

SEGUNDA NOITE: O DOMÍNIO

Teu domínio é de tua inteira responsabilidade. Todos os outros devem-te respeito enquanto nele estiverem. Ninguém poderá desafiar tua palavra enquanto estiver em teu domínio.

TERCEIRA NOITE: A PROGÉNIE

Apenas com a permissão de teu ancião gerarás outro de tua raça. Se criares outro sem a permissão de teu ancião, tu e tua progénie serão sacrificados.

QUARTA NOITE: A RESPONSABILIDADE

Aqueles que criares serão tuas próprias crianças. Até que tua progénie seja liberada, tu os comandará em todas as coisas. Os pecados de teus tilhos recairão sobre ti.

QUINTA NOITE: A HOSPITALIDADE

Honrarás o domínio de teu próximo. Quando chegares a uma cidade estrangeira, tu te apresentarás perante aquele que a governa. Sem a palavra de aceitação, tu não és nada.

SEXTA NOITE: A DESTRUIÇÃO

Tu estás proibido de destruir outro de tua espécie. O direito de destruição pertence apenas ao teu ancião. Apenas os mais antigos dentre vós convocarão a Caçada de Sangue.


sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Jobs

art by Beomjin Kim


Reabrir uma postagem que ficou seis anos pendente é um tanto desafiador. Não só por não saber ao certo o que eu queria tratar na época, mas também por querer tratar de tantas coisas ao mesmo tempo. Desde que olhei o título fiquei a pensar os motivos de chegar até aqui. Não sei se pelo ícone tecnológico, se era por coisas do trabalhos, para trabalho ou sobre qualquer trabalhos. Só tenho uma única certeza, Jobs (Trabalho em inglês) me traz uma imagem em mente: currículo.
Meu currículo é bem deprimente, principalmente quando você olha a idade, trazer um Balzac em papel simples e entregá-lo para que te vejam de uma forma a dizer "parece alguém que eu gostaria de trabalhar com" ou mesmo "é interessante para esta empresa"... deprimente. 
Lembro que em uma entrevista de estágio, já tomada como desclassificado por ser velho demais ao comparar os outros oito concorrentes de 18 anos, eu lembro que falei a máxima quando me perguntaram porque eu acreditava que estava apto aquela vaga: Bem... se me candidato acontece duas coisas, ou eu não tenho experiência para a vaga, pois só tenho a formação científica, daí sou desclassificado; ou eu tenho experiência demais por ter conhecimento científico e trinta anos. Ambos os modos não sou contratado, nem chamado para outras coisas. Vivo no limbo do mercado.
E, agora, parado na ciclovia arborizada vendo o sol se por por voltas das 20 horas, se escondendo atrás de um muro de prédios que não ter um mar por trás, agora mesmo me vejo no mesmo limbo. Não é que eu não queira fazer algo, só acredito que não há nada que eu possa fazer. Essa aceitação de não ser bom em nada é o que me faz continuar todos os dias. Ao sono me vem a suave voz que me diz aquilo que eu já sei, não sei fazer nada, e isso me acorda por vezes de madrugada, me acorda pelo dia, me acorda agora. 
Não basta você querer fazer algo porque é bom naquilo, ou deixar de fazer algo porque não tem a menor habilidade. Tudo é uma questão, quase que exclusivamente, de quanto você se acha bom naquilo. No quanto você acredita que é o teu papel. Existem inúmeros casos de pessoas que são achadas para glória, como o caso de Susan Boyle, e outras não tão televisivas como Maria da Silva. Ambas foram achadas quando suas tentativas de fazer aquilo que sempre quiseram deram a elas oportunidade de florescer no sonho. O melhor disso é ver ou saber suas atitudes quando na tentativa. É um aspecto confiante, como se em suas mentes houvesse um "o que eu tenho a perder se eu já não tenho nada?". Era exatamente isso que eu tinha em mente quando na seleção de estágio, quando eu respondia de uma maneira simples e afirmativa sobre todas as perguntas, inclusive aquelas não-permitidas em uma entrevista de emprego. Saber que não temos nada a perder nos torna confiantes, nos dá um gás por saber que não existe queda para quando estamos deitados no chão.
Ao ver as cores do céu acima do muro, o farfalhar do caminho de árvores da direita me lembrando um bairro histórico e desolado de outrora, essa sensação de estar deitado no fundo do posso também dá a satisfação de contemplar tudo o que temos acima, de tudo o que podemos alcançar quando estivermos pronto para levantar e subir. 
Os campos verdejantes me levam reflexões, uma delas é ler e reler as nuances dele quando diz: “O trabalho vai preencher uma grande parte da sua vida, e a única maneira de ficar completamente satisfeito é fazer o que você acredita ser um bom trabalho. E a única forma de fazer um bom trabalho é amar aquilo que você faz. Se você ainda não descobriu o que é, continue procurando. Não se acomode. Da mesma forma que acontece com as coisas do coração, você vai saber quando encontrar.” Jobs. O murmurinho interior continua, indo e vindo com a maré de sorte, sem parar e sem controle, até afogar os medos e inseguranças que margeiam o único sustento. A certeza de si.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Mentirinha


O relógio solar é bem preciso, a luz que emana de fora risca o chão formando uma sombra em quarenta e cinco graus. Hora de levantar, pegar um café e sentar para ler mais uma vez. 
Talvez você não saiba, ou eu nem tenha dito, mas existe uma série de títulos que as pessoas mentem que já leram só para parecerem descoladas, intelectuais ou apenas para não ficar para trás. 
Alguns destes livros ou obras, como queira chamar, são clássicos literários e outros apenas venderam muito. Sendo série, trilogia ou um solitário, ler nos torna melhores. 
É interessante ouvir de pessoas comuns que elas "amam" ler, mas quando você vai ao fundo desse amor, é apenas uma resposta para ela dizer que leu algo anos atrás. O melhor desse tipo de resposta é aquela máxima de usar livros de auto-ajuda como referências unânimes e consolidadas. 
Primeiro que livros de auto-ajuda não são ruins, mas não são livros para você se agarrar e usar durante toda a sua vida, pois se você não aprendeu a mensagem que aquele guia te traz, a sua leitura não foi eficaz. Segundo que essa tal mensagem é o que torna o livro especial. 
Você pode ouvir música durante todo o dia, mas só uma música em especial vai te fazer arrepiar. Você pode assistir sua novela, filme ou série com afinco, mas serão poucos os momentos que serão memoráveis para ti e te trarão uma sensação, seja lá raiva, tensão ou alegria. 
O livro funciona diferente. Ele precisa de você para acontecer. Se você não tiver disposta a relaxar e percorrer a aventura imaginária, o livro vai ser massante e logo será jogado de lado. Ler é chato, ler cansa, ler dá sono... na verdade pensar é chato, pensar cansa e pensar tira o sono. A atividade da leitura é diretamente vinculada aos olhos, à visão, e são eles quem comandam todo o espetáculo. Entre ler textos do facebook, conversas infinitas do whatsapp, um manual com instruções para o uso da tv, ler as letras do teu disco favorito ou 5 páginas de um livro qualquer, qual você acha que vai te cansar mais rápido? A palavra livro é tão pesada que a gente acaba tentando mudar nas conversas para ver se fica mais fácil. Já leu fulano? Já leu aquela história do menino bruxo? Já leu a biografia do teu artista favorito? 
Pois é, ler é assim. Não adianta você querer ser uma pessoa que "ama" livros se não se dispõe a ler. E aqui não trato da suposta qualidade do livro, porque o livro é bom quando você o utiliza da melhor maneira. Para quem gosta de mistério, leia os de mistério, para quem gosta de românticos, leia os românticos, para os que gostam de terror, leia então os de terror. Empurrar um clássico com linguagem arcaica não é nada inteligente, vai te afastar daquilo que deveria ser um hobby, uma distração. 
Ler um livro te dará uma experiência muito mais significante do que assistir o filme, pois tudo acontece na tua cabeça. E não venha com essa de que você demora a ler, ou você acha mesmo que alguém aqui está competindo? Quer dizer, se você participa de grupos de leitores, realmente há uma competição ali, de quem tem mais dinheiro para ter mais livros e de quem se diz ler mil livros por ano. 
Excluindo essa parte dos grupos de leitores, a única pessoa que vai ganhar ou perder com o tempo dedicado ao livro será você mesma. Se for começar, comece pelo básico, pegue leve. Procure algo atual, temas como se fosse tua série ou filme favorito. Vá com calma, não se irrite se vier o sono nas primeiras páginas, mas tente manter o ritmo diário. Algumas pessoas leem para dormir e com as noites vão-se o livro todo. Se você não consegue ter foco para ler e entender o que está sendo lido, tente começar primeiro com gibis e quadrinhos. Hoje há uma série de histórias em quadrinhos com temas adultos, juvenis, bem sérios e outros mais comédia. 
Eu fiz minha lista deste ano, fora alguns livros que já estão pendentes de terminar. Talvez com essa nova motivação eu consiga fazer tudo. Se eu não conseguir, tudo bem, vou continuar a tentar.
Não existe maneira para justificar essa falta de querer ler, de gostar de passar um tempo consigo mesmo e a cabeça flutuando na imaginação. O ser humano tem medo de quem pensa, ainda que ele mesmo não goste de pensar.  

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Corais


Chegamos e é sempre a mesma sensação. Do alto vemos a barreira de corais protegendo o beira-mar das grandes ondas. Maré alta explode espuma no ribombar da corrente, um show espetacular visto daqui, do alto. Procuramos um lugar para ficar, na areia, onde tudo acontece.
As escadas de pedras são as de sempre, polvilhadas de areia branca e fofa, os grande tapete se estende pela praia inteira. Uma grande margem nostálgica. Foi aqui que declarei que estava indo, foi aqui que vi o mar pela ultima vez, a ultima em que senti a areia entrar entre os meus dedos dos pés, senti as gotículas salgadas borrifadas no rosto, vi o emaranhado de coqueiros costurando minha visão do céu.
De pé ouço o mar, os ventos, as crianças rindo, pessoas conversando, música ao longe. De pé ouço a praia, respiro o mar, vejo o oceano infinito. O cheiro é o mesmo daquele sonho, o vento que carrega o sal também é o mesmo, hidrato os lábios com a própria língua e trago a memória. Revejo ela de biquíni rindo para mim, o sol de sete da manhã nos glorificando, o sorriso dela me convidado para mergulhando, o "hein" com sotaque me agarra, ela aponta para as crianças, com roupa de praia brincam na areia, maravilhadas. Não foi real, não podia ser. Acordei com o cheiro do mar, com o gosto do sal. Hoje eu revejo esta lembrança, pois as sensações são as mesmas, mas vocês não estão aqui. Ele está. 
E com ele relembro o ultimo dia. Vejo a sereia no encarando ali na frente. Vejo a árvore dos corais ali do outro lado, parece que nunca saí daqui. Os muros de grandes e luxuosos prédios começam a dominam os limites da paisagem, e isso não existia quando parti. Aos poucos sei que esse lugar não será mais como antes, talvez até não pelas pessoas de sempre, mas sim pelas pessoas do futuro.
Ao entrar na água morna sinto a corrente. A sensação de mar é algo que não dá para descrever. A água gelada conforta o sol forte, não tem muita gente tomando banho, a praia perfeita é esta aqui. Perfeita porque é linda, tem confortos de quiosques, não tem barulho estarrecedor, os rostos são agradáveis e fáceis de ler, a água é transparente como sempre, sem pedras no fundo, com peixes ao redor. Mergulho. O som do infinito parece que me envolve em placenta, ouvir as ondas no submerso me faz flutuar, me faz mais leve, me faz não existir por segundos. E não ser nada por um momento é relaxante, nada existe, só o som da água, um sulco gástrico natural e não corrosivo. 
Não sei se há relação com o bombardeio de sal no corpo, mas tomar um banho de mar é algo que modifica, sabe? Não só por todas as sensações do lugar, mas pelo pós. Aquela fadiga marota que se instala quando você chega em casa e toma um banho comum, a gente se descarrega, o sono bate firme, e quando acordamos parece que estamos 300% melhor, mais dispostos. A cor de jambo que fica também nos agrada, uma tatuagem temporária de que aquele dia valeu a pena. 
Se você tiver a oportunidade de ir à praia, faça. Vá e aproveite, mas não como alguns costumam fazer, usando o lugar como um bar. Use como um spa, faça questão de pisar na areia, cavar com as mãos, sentar sem compromisso com o tempo, chutar as ondas que desistem de dominar a areia, coletar as conchas que polvilham a margem, admirar os peixinhos que correm livres pela água translúcida, fotografe o horizonte encabeçados por coqueiros... admire a natureza. Sem soberba. Contemple um dia qualquer sem precisar comparar com os outros dias, sem ter a necessidade de mostrar as outras pessoas que seu dia está melhor do que o delas, sem querer mostrar ao universo que você está tomando uma piña colada. Apenas vá e aproveite, esqueça o mundo concreto e permaneça neste paraíso artificial que é um dia de praia sem se importar com nada, apenas com você e o mar. 

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Retrospectiva


Estamos nos ultimas dias do ano, todo mundo se encontra com aquele famoso espírito natalino e das festividades que só dezembro possui. Começam a ditar os melhores e piores do ano e os da década. É claro que também faço uma retrospectiva e este ano teve muito mais pesar do que o passado. 
Aconteceram poucas e concisas coisas que me levaram de um lado para o outro. Quando paro para pensar e transcrever tudo isso, ligando pensamentos com conceitos de emoções para expressar o que realmente me acontece, aí é que chega o ilustríssimo cansaço. Não necessariamente um cansaço ou fadiga, seria mais um preguiça ativa de começar de novo.
Postando sobre essa sensação de inexistência em um grupo particular, me indicaram ir ao terapeuta, pois essa sensação de inexistência não é saudável e ninguém ali jamais tinha sentido isso. Li e reli os comentários como se eu fosse o problema e não a sensação em si. Me senti tão errado em comentar a sinceridade que acabei apagando o comentário sem me explicar.
Explicar... se prolongar... respiro fundo. Como explicar que essa coisa de sentir que não existe em um grupo para escritores amadores é algo técnico, algo profissional? Ao comentário de cima que dizia "não consigo mais escrever porque só consigo fazer às noites e agora trabalho, sou um vampiro que abandonou a paixão" e o apoio veio e ninguém questionou se ele era ou não um vampiro. Ser o homem-invisível é problemático de doença mental, ser vampiro não. Talvez eu esteja interagindo com paulistas demais e esqueço disso.
Forma poética, esse era o ponto da resposta e eu não estava disposto a explicar e replicar os porquês das coisas, fiz como sempre. Deixei para lá. 
Deixando para lá foi o que me ocorreu esse ano por vezes inteiras: já já eu leio, já já eu faço, já já eu comento, já já eu ligo... e fui deixando. Este ano que se passa eu tenho algumas pequenas conquistas, uma delas é continuar tendo o privilégio de poder escolher, outra é que consegui tentar algumas vezes, e a ultima não muito importante é que eu decidi continuar. 
A parte mais difícil de se fazer uma retrospectiva não é o olhar para o passado e juntar as peças da memória, mas sim esquecer das razões. É como assistir o próprio filme e não julga os personagens. É entender que já passou e pegar o que pode ser mudado e anotar para a próxima temporada. 
Se tivéssemos o poder de voltar no tempo e mudar nossas decisões talvez não estaríamos com metade de nossas vidas como estão. E como isso ainda não é possível, o certo é decidir com clareza, ponderar as consequências e seguir em frente. 
Eu não acredito nessas coisas de apenas no dia 31 para o 01 que as coisas vão mudar. Acredito que o ano novo é todo dia, porque basta uma fração de segundo para mudar tudo. Basta uma ligação para contar que um ente querido próximo morreu, basta um clique para saber que sua promoção aconteceu e vai te dar mais chances de crescer, é numa conversa simples que você é convidado a sair do teu emprego. As coisas só vão acontecendo, ainda que você pare para ler um pouco no teu quarto, beberia=cando um café morno enquanto o mundo lá fora acontece.
Retrospectiva é legal de se fazer, pois um ano é muita coisa para quem se vive todo dia. Em um ano muita gente nasceu, morreu, casou, se separou, terminou os estudos, começou o curso, brigou, fez as pazes, se arrependeu, arriscou mais uma vez... os ciclos não se encerram no final do ano, apenas viramos a página do calendário.
Se você souber que a imensidão que é o tempo e o espaço vai acabar se olhando insignificante, vai se ver como uma formiguinha de açúcar, pequenina, sorrateira, porém forte. E talvez essa seja a lógica da comparação, ver o que é real e nos vincular ao que é bom e ruim. Dessa inexistência literária que me aconteceu, me trouxe muita coisa boa, umas viagens para lugares diferentes, conhecimento sobre leis-política-relações e afins, conheci gente, entendi o sistema, eu vivi uma vida inteiramente nova. E era isso que eu queria que você entendesse, que as nossas sensações são experiencias que podemos avaliar e usar, são instrumentos intrínsecos.
Tem mais um ano novo logo mais, e você vai saber lidar com tudo o que em ti habita? 

Pequenas Grandes Conquistas

A pergunta era simples: Qual a grande conquista que você só conseguiu quando adulto? As pessoas respondiam coisas diferentes umas das o...