Aquilo


Levanta, trabalha, casa, tv, cama. Esse era o lema das pulguinhas em um episódio da Vida Moderna de Rocco, um antigo desenho da Nickelodeon. Toda a problemática era que uma das pulguinhas estava cansada da monotonia de sua vida, até que ela entra numa aventura e no final, depois de perceber a maravilha que vivia, decidiu se orgulha de seu cotidiano. Levanta, trabalha, casa, tv, cama.

Talvez o cotidiano, essa repetição de afazeres seja algo tão profundo que ignoramos. Ignoramos e não tomamos nota de como se passam os dias. Hoje, sem precisar me ater aos dias, datas ou prazos, me sinto prezo ao pior dos eventos. Não é de hoje que essa sensação acontece. Não é um comichão, um arreio ou algo que se indico dor. Sensação. Como um deja-vu constante de que tudo não se passa de um enorme desperdício.
Ver tv, caminhar, dormir, comer, ler e até mesmo estudar. Tudo se torna um acúmulo contínuo de culpa. De algo maior que eu, que suga, que draga uma energia enorme para apenas se estabelecer. Acordar todos os dias motivado não é o mesmo que acordar todos os dias feliz. Felicidade não tem nada a ver com motivação. E esse tal de foco que preciso buscar para alcançar meus objetivos é o que me falta, segue então mais um peso para minha grande culpa que carrego.
Não é de hoje isso. Talvez seja um trauma de nunca estiveram satisfeitos com nada que eu fiz na vida, seja na área profissional, financeira, amorosa ou religiosa. Eu cresci e vivi por muitos anos sendo chamado de demente. Já até comentei por aqui algumas vezes sobre isso. E crescer ouvindo todos os dias que você não é nada, um lixo, alguém que só desperdiça a chance de alguém que realmente quer ser alguém é devastador.
Meu monstro maior é essa culpa que cultivo com carinho. Minha aflição por ver um filme que gosto porque eu deveria estar fazendo algo pro meu futuro. O prazer que eu tinha por ler, jogar, conversar e passear, passou por um reciclo que apenas são atividades que acabo por escolher em vez de estar estudando para ter um futuro melhor, um amanhã que eu já deveria ter tido anos atrás.
Ansioso por mudar, para dar razão às expectativas de outrem eu morro todos os dias. Não é de hoje que o prazer me falta nas pequenas coisas. Ao mesmo tempo sou cobrado por ele, pelo tempo. Aos 30, olho para trás e só vejo tentativas e fracassos já sabidos, para frente, apenas mais fracassos por saber da autossabotagem. 

Sair na rua e ver esse gigante que é a sensação da obrigação de estar me dedicando mais. Isso me derrota porque sei que não sou capaz de fazer, sempre me mostraram isso e por tantas vezes cheguei a desistir. Hoje, não diferente, me tiram o sono, me tiram o prazer das coisas, me tiram o brilho. É difícil acordar motivado todos os dias, de enfrentar as dificuldades ou até mesmo a repetição das coisas. Levanta, trabalha, casa, tv, cama. Estaria aí a felicidade?
Ou será que a gente realmente merece algo melhor para nossas vidas?
Aquilo que sempre desejamos ao olhar os céus estará lá quando estivermos pronto? 

Você sabe o que eu quero dizer.

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