Previsão de Chuva



Você já se pegou imaginando se o clima que nos rodeia refletisse como nos sentimos? Se felizes fizesse um sol caloroso, se tristes fizesse um frio sublime, se raiva trovejasse e tantas outras sensações... 
"Nossa, como escureceu de repente!", disse ela correndo para verificar os céus. As nuvens que se intercalavam eram de um notório acinzentado. Uma flutuação pesada que ameaçava desaguar a qualquer momento. Ventava bastante para acompanhar a sensação de tormenta. Não se ouviram trovões, não se viram raios, não se bebeu chuva.
Se o clima representasse nossas sensações, nossas emoções mais efêmeras, qual seria a previsão para os próximos dias?
Elas torceram aos ver os pompos e cargas d'água, apostaram a quantidade de chuva, checaram a previsão nos smartphones... tudo ensaiadamente pausado. 
A atividade continuava, a cada pergunta um tentativa de toque, um desnecessário movimento intimista do qual eu quase desisti de tudo e corria para casa abdiquei de importar. Preciso estar aqui. Será rude se eu pedir para pará-lo. Não posso ser o esquisito. Sorrio amarelamente, superando a ansiosidade que está surgindo. A concentração é crucial nesses momentos de dissabor. 
Ela fala gloriosamente que é incrível, que é legal, pergunta onde eu estava quando ela precisou... ela fala, ela toca... ela afirma que leu várias teorias, textos, pesquisou isso e aquilo, e toca... Conta que nunca conheceu alguém assim, que ela diz que incrível ser assim, e mais uma vez ela toca. Foco nos movimentos repetitivos, não sei onde estou, talvez no duzentos e três e quatro e cinco e toca. Perco o foco, sinto sua vibração, sua euforia, sua ânsia atônita de me ver sair correndo dali, me provoca, me persegue, me circunda e tenta mais uma vez.
Esquivo, a ventania se debruça nas janelas. Pessoas passam correndo, se agarrando do vendaval. Foco, desisto de contar, só vou trocando e definindo um padrão novamente. Ela se mexe a cada 30 segundos, e a cada 1 minuto e meio ela confere o celular.   
Para quem diz saber muito, não me soa confiante quando quebra a primeira regra fundamental: NÃO TOCAR.
Talvez eu não devesse pensar mais nisso, continuar a mentalização que está tudo bem. As nuvens carregadas continuam sob minha cabeça. Água deve vir. Ser sincero é um dos pontos cruciais de uma relação sem desentendimentos. Espero que não fiquem chateados se eu não ir mais uma vez ou outra quando ficar ansioso demais para chegar lá. De só querer chegar em casa e ver que está tudo do jeito que deve estar. Que estou a salvo de todos, de tudo, dos sons e das incertezas que me corroem.
Fazer palestras de como se sentir a pior pessoa do mundo não me soa um tema nada agradável, como disse à ela. Mas nem adiantava dizer o quanto é ruim ser eu. Para ela, tudo é fantástico, tudo é incrível porque é algo raro de se ver... de tocar.
Não gostaria de fazer palestras motivacionais para o mostrar o fracasso que eu sou. De tudo aquilo que perdi, que deixei de ser, de continuar com medo, das oportunidades irem tão facilmente pelo simples não conseguir dar o próximo passo. Não creio que alguém vai me escutar quando eu falar que a melhor coisa que eu fiz foi emburrecer, quando eu aprendi a ficar calado e não opinar, que a melhor fase da vida eu não fazia nada que me fazia feliz, só seguia o fluxo dos outros. 
Talvez se escrevessem uma biografia isso fosse posto e um ou outro comprasse, mas falar abertamente sobre como ser inútil e deprimente? Acho melhor não. 
Em tempos de coaching de sucessos, com tantos cases e falácias... ver o lado escuro da lua não apetece ninguém. Como ouvi um dia desses "você tem um currículo muito interessante, se expressa bem. Bem bacana", e no final quando fora explicado que eu não ficaria na vaga por não ter experiência em nada, eu sorri e abri meu guarda-chuva para voltar para casa. 


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