quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Lâmina


A carta que fechará o ciclo desde momento da vida está sendo revelada. Ela, XIII - A Morte. A morte não significa a morte. A representação é clara e objetiva, é o jogar fora tudo aquilo que te é inútil, é o fim de uma era e o início de outra. Lembre-se, você morre várias vezes durante toda a vida. Há ciclos que são bem expressivos, como a infância, a juventude, o se tornar adulto e o idoso. Quando a gente morre, crescemos de alguma maneira. E deixar para trás todo o apego como algumas pessoas, coisas e lugares é difícil. Mudar é muito difícil, sair da zona de conforto de uma maneira tão significante é como um rito de passagem. Terminar o ensino médio e começar uma faculdade é um ritual tradicional do início da vida adulta. Lembra da raspagem de cabeça ou sobrancelha? A morte acontece ali mesmo. Morre o estudante de ensino médio e começa o universitário, o jovem adulto. Nossa, e quantas cobranças, deveres e obrigações surgem ali, como um caminho sem volta.
A cada dia tudo muda. A morte diária, o desenvolver da vida, do ciclo, do karma. A borboleta só acontece porque morre a lagarta, este ser que só se alimentava é exterminada em sua crisálida, não restando nada além de uma casca de casulo. O ser que ali havia já é um outro totalmente diferente. Só que no humano isso também é diferente, pois a morte não quer dizer que você se transformará em outra pessoa, com novos desejos, novas manias e defeitos, nada disso. Aqui, o término do ciclo é a condição do replantio, tirando o que é inútil. Assim, talvez você não perceba que está mudando, ou que as coisas estão te levando a um outro patamar. Consegui o emprego, e agora é trabalhar. Este trabalhar, numa empresa nova, novos amigos de trabalho, condições de trabalho, tudo isso é o novo ciclo, novo, bem simples. Nova matéria, novo amor, novas andanças. 
Sabe, a carta da morte foi a ultima a ser revelada. Ela ficou no topo da tiragem, mostrando em um contexto que tudo aqui será guiado para um modelo que fora protelado por ciclos. Agora é hora de aceitar isso de uma maneira útil, deixando para trás tudo aquilo que não será preciso. Levar na bagagem apenas o necessário, o caráter em primeiro lugar, as conquistas e derrotas, o conhecimento científico, popular e teológico, o bom senso e a boa vibração. Estou levando comigo apenas uma lâmina e uma (des)esperança, desta vez ,cortando a realidade em vez dos pulsos. Saída de emergência.


terça-feira, 7 de novembro de 2017

Pacífico


 Percebo estar acordado, revolto entre lençóis, noite adentro, lua entre frestas do telhado, frio de litoral, você deitado ao lado. Outro pesadelo. Meus ouvidos ao lado do teu ronronar, sinto o hálito quente escorregando pela nuca. Seu corpo quente esmagando o meu. Abraçados como em uma despedida de longa data, seus braços me abraçam, sua voz diz coisas sem sentido, e a noite se afunila mais uma vez. Um pesadelo que me acontece muitas vezes. Acordar e te sentir aqui tão perto. Me deixo ir ao contorno da lua vazante. Sei que a solidão de agora vai passar assim que acordar. Essa aflição que me persegue, como alguém que espera sentado no canto da calçada. É só um pesadelo. Já já irei acordar e ver que continuo sozinho, e isso me fará bem. Afinal de contas, pessoas difíceis vivem sozinhas. Lembro da lua de hoje, do céu de hoje, a lua enorme como o meu sonho, tão longe quanto o meu caminho e tão real quanto minha vontade de continuar. Talvez você não perceba mais a lua como outrora, nem deseje os céus, vai ver isso só funciona pra quem está apaixonado. Sei que, agora que o tempo abriu de vez, a tempestade passou como um namorico, dias abafados e noites quentes fixarão aqueles que esperam o amor chegar, a calmaria de cedo perdurará como uma oração bem quista. 
 Passo um bom tempo sublimando os céus em fragmento, sinto as paredes coçarem meus pelos, relaxo por breve, e entediado volto a decifrar teu ronco. Me mexo para ver se consigo causar um acordar, mas o oceano deságua entre nós, afogando novamente qualquer memória de um tempo bom. Criado um mundo de encanto, parece que é isso que é ser amado, ou até mesmo amar. Mas alguém pode pôr tudo isso a perder. E assim, remexo. Você reclama e me pede para dormir. Sei que é nessa hora que eu deveria sentir a dor forte que escapa em alguns momentos do dia, mas é apenas um sonho ruim e por isso, apenas por isso, não há mais nada que sentir. Agora, tão tarde, ouço os galos da vizinhança cantarem. Outra madrugada em claro, com o fantasma do querer. Pode crer que costumo aprender, e sair por aí querendo ser feliz, porque o  meu oceano é Pacífico, e minha ilha é pedaço de terra que comporta toda forma do universo. Você me beija em sonâmbulo ato, e finalmente me liberto dessa sensação. Finalmente consigo dormir e saber que você não é um sonho. Amanhã acordarei novamente nessas águas, dia após dia, como uma cantiga de marinheiro. Olhe para o céu durante o crepúsculo e quando faltar segundo para o sol morrer, sinta meu ultimo suspiro.


Pequenas Grandes Conquistas

A pergunta era simples: Qual a grande conquista que você só conseguiu quando adulto? As pessoas respondiam coisas diferentes umas das o...