E foi uma reviravolta daquelas.


A folha que apanhei caiu do livro que abandonei lá por volta de 2016, não sei bem. Também não lembro quando escrevi aquelas palavras, mas lembro dos motivos. Lembro porque foram eles que estavam escritos em dizeres quase que profanos, ou melhor, quase como uma oração, rogando que aquilo fosse lido o quanto antes, mas era tarde demais. O aviso que escrevi para mim, na noite que encontrei o bilhete dentro dos envelopes, aquilo que deixei fluir durante horas de choro sem sentido que passei sozinho. Foi naquele dia, sim, foi naquele dia. Eu me avisei ali mesmo, em traços tortos e feito poema, avisei com tinta manchada de lágrimas, disse tudo o que eu não deveria fazer. 
Fiquei estático, claro, quem não ficaria? Como eu pude esquecer disso? Sentei na mesma hora, escorrendo pela parede, até que finalmente o chão me acolheu. Li uma, duas, três vezes até parar e pensar no tanto que fiz e deixei de fazer pra chegar até agora. Até esse momento em que tu estás a ler. Respiro fundo. Olhei para os meus livros e senti saudade. Esse medo de ter aprovação social que hoje tanto me pesa, é um dos motivos ao qual me prestei a dizer que ia cair em profusão mental. Olho para os lados novamente, e conto quantas vezes eu deixei de ser eu mesmo para agradar quem não merecia, quem não me merece. E, até então, agora, depois de me desfazer daquela carta sublime, sei que a resiliência me conforta, a empatia está morta, e a minha perspectiva para o futuro é apenas existir de uma maneira brande e quase que anônima, porque é assim que deve ser. Pessoas difíceis vivem sozinhas, lembre-se sempre disso, e quando você entender o motivo de tal, você vai ver que não é deprimente. Vai entender que pessoas são pessoas, e que nem sempre estaremos lá quando tudo virar de ponta-a-cabeça. Hoje, desperto mais um pouco a cada dia que passa, migro a condição de importar com o que se passa ao meu redor, para meados de 2014, quando eu saquei que a vida é apenas aquilo que eu leio, nada mais importa.



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