terça-feira, 31 de outubro de 2017

Ride


I was in the winter of my life
And the men I met along the road were my only summer
At night I fell asleep with visions of myself dancing and laughing and crying with them
Three years down the line of being on an endless world tour and my memories of them were the only things that sustained me
And my only real happy times

I was a singer
Not a very popular one
I once had dreams of becoming a beautiful poet
But upon an unfortunate series of events saw those dreams dashed and divided like a million stars in the night sky
That I wished on over and over again, sparkling and broken
But I didn’t really mind because I knew that it takes getting everything you ever wanted and then losing it to know what true freedom is

When the people I used to know found out what I had been doing how I had been living, they asked me why, but there’s no use in talking to people who have a home
They have no idea what its like to seek safety in other people
For home to be wherever you lie your head

I was always an unusual girl
My mother told me that I had a chameleon soul
No moral compass pointing me due north
No fixed personality
Just an inner indecisiveness that was as wide and as wavering as the ocean
And if I said I didn’t plan for it to turn out this way I’d be lying

Because I was born to be the other woman
Who belonged to no one
Who belonged to everyone
Who had nothing
Who wanted everything
With a fire for every experience and an obsession for freedom that terrified me to the point that I couldn’t even talk about it
And pushed me to a nomadic point of madness that both dazzled and dizzied me

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Cool



"Sim, eu estou bem", é assim que geralmente eu respondo para que as pessoas não fiquem com aquele ar de piedade e consigam seguir o que elas realmente querem fazer. Porque eu sei como é difícil você gostar de alguém e não querer ficar mais com ela, mas também não tem motivos para ignorá-la ou largá-la por aí. É mais uma questão de amadurecimento de caráter, somado ao sentimento e memórias boas. Isso a gente aprende com o tempo, com a vida. Primeiro é difícil você desvincular o hábito, o dia-a-dia que passavam juntos, que se falavam e dividiam praticamente tudo o que podiam. Segundo, depois isso vai morrendo, as coisas vão ficando espaçadas, o ritmo começa a ganhar espaço entre o pensamento no outro e quando você perceber, já se foram dias, semanas, meses, anos e décadas. Sim, as décadas também chegam e quando você perceber o quanto de pessoa já veio e já foi, vai entender que deverás carregar sempre o que tem de melhor de cada qual. Ainda que a relação fuja, suma, acabe por traição moral ou física, além de qualquer coisa, roube para si os sentimentos bons que o mundo te aguarda. Não cultive mágoa, raiva ou qualquer outro sentimento ruim por muito tempo. Deixe as coisas decantarem dentro de ti, e refaça os teus próprios passos para a felicidade. "Sim, eu estou bem", repito para que você me deixe te deixar tentar ser feliz, porque âncoras como eu, por mais que consigam ir pelo mar quando há um barco, ela sempre, eu disse sempre, irá tentar te levar para baixo. Âncoras servem para dar estabilidade quando chega ao fundo, essa é sua função plena. E a estabilidade é justamente você perceber que não vale a pena carregar uma âncora por aí se você pode ter um motor de ponta e nunca precisar desse tipo de material. 
É interessante quando você para pra pensar em algumas pessoas que te fizeram bem por um tempo, como aqueles momentos únicos caíram no esquecimento por desmerecer aquela pessoa. Será mesmo que vale a pena esquecer tanta coisa? Ou melhor, será mesmo que vale a pena ficar pensando em ter momentos bons assim? Acredito que a questão por agora seja exatamente continuar dizendo que está tudo bem, assim ninguém fica incomodado em parar a vida por uma causa perdida. Convencer todo mundo que tudo está legal, so cool, e quando derem por si, serei apenas outra memória.

E foi uma reviravolta daquelas.


A folha que apanhei caiu do livro que abandonei lá por volta de 2016, não sei bem. Também não lembro quando escrevi aquelas palavras, mas lembro dos motivos. Lembro porque foram eles que estavam escritos em dizeres quase que profanos, ou melhor, quase como uma oração, rogando que aquilo fosse lido o quanto antes, mas era tarde demais. O aviso que escrevi para mim, na noite que encontrei o bilhete dentro dos envelopes, aquilo que deixei fluir durante horas de choro sem sentido que passei sozinho. Foi naquele dia, sim, foi naquele dia. Eu me avisei ali mesmo, em traços tortos e feito poema, avisei com tinta manchada de lágrimas, disse tudo o que eu não deveria fazer. 
Fiquei estático, claro, quem não ficaria? Como eu pude esquecer disso? Sentei na mesma hora, escorrendo pela parede, até que finalmente o chão me acolheu. Li uma, duas, três vezes até parar e pensar no tanto que fiz e deixei de fazer pra chegar até agora. Até esse momento em que tu estás a ler. Respiro fundo. Olhei para os meus livros e senti saudade. Esse medo de ter aprovação social que hoje tanto me pesa, é um dos motivos ao qual me prestei a dizer que ia cair em profusão mental. Olho para os lados novamente, e conto quantas vezes eu deixei de ser eu mesmo para agradar quem não merecia, quem não me merece. E, até então, agora, depois de me desfazer daquela carta sublime, sei que a resiliência me conforta, a empatia está morta, e a minha perspectiva para o futuro é apenas existir de uma maneira brande e quase que anônima, porque é assim que deve ser. Pessoas difíceis vivem sozinhas, lembre-se sempre disso, e quando você entender o motivo de tal, você vai ver que não é deprimente. Vai entender que pessoas são pessoas, e que nem sempre estaremos lá quando tudo virar de ponta-a-cabeça. Hoje, desperto mais um pouco a cada dia que passa, migro a condição de importar com o que se passa ao meu redor, para meados de 2014, quando eu saquei que a vida é apenas aquilo que eu leio, nada mais importa.



terça-feira, 24 de outubro de 2017

O Mistério da Caveira de Cristal


Quando a arqueóloga Dra. Laura Shepherd descobre que seu colega foi assassinado segurando um misterioso crânio de cristal, é envolvida em um mundo sombrio de presságios estranhos, fenômenos psíquicos e um código enigmático, 1221201212212012. Sua busca pela verdade leva-a a arriscar sua carreira, seu casamento e até mesmo sua vida. Laura descobre uma terrível profecia, embarca em uma perigosa missão, rumo a um antigo templo maia, protegido por uma densa floresta, cercado por guardas armados, determinada a descobrir o mistério da caveira de cristal, a qualquer custo.


A) Opinião sobre a história?
Ao começar a lê-lo, nos reportamos às famosas aventuras de arqueólogos e caçadores de relíquias, pois, uma expert em assuntos antigos é forçada a trabalhar em um dos maiores mistérios que já viu. A caveira de cristal em si já é um ponto de curiosidade para se ler. Soa como uma aventura intrigante.


B) Opinião sobre os personagens?

Apresentados poucos personagens, apenas a protagonista se dá ao luxo de demonstrar aspectos que tentam torná-la uma pessoa real. Talvez pela maneira televisiva de transportar a história para o livro traga mais nuances que favoreçam o crescimento deles.


C) Qual o ponto entre a posição atual e a sinopse?

A dr. Laura Shepherd começou a investigar a caveira de cristal agora, após muito relutar por não ser seu material de trabalho.


D) Frase mais interessante até agora?

Com o coração pesado, deu o dia por encerrado.


E) Qual a ultima frase da página 100?

Sentiu uma onda de raiva diante da injustiça de tudo isso.


F) Pretende continuar a ler?

Sim, a proposta parece interessante, e a investigação acabou por começar.


G) O que esperar do restante do livro?

Que a dra. Laura consiga dominar o trauma de perder a filha, consiga desvendar o mistério da origem da caveira de cristal e termine a tradução das tábulas.



H) Indicaria esse livro?
Talvez, ainda não sei o propósito da história além do básico na sinopse. Então talvez a história não flua tão bem ao ponto de indicá-la. Aguardemos.

sábado, 21 de outubro de 2017

Tua mensagem me lembrou PalavrasdeDuas



Depois dos dezoito a gente aprende que tem amor que não precisa ser pra vida inteira. Não é fácil destruir toda aquela história de que amores são aqueles que vêm e ficam pra sempre, mas a gente aprende. Aprende vendo aquele casal que a gente tanto apoiava e que tanto se dava bem separando, aprende vendo pessoas que juravam nunca sair da nossa vida, pegando as coisas e indo embora. A gente aprende que pra ser amor não precisa ficar, alguns amores vêm e ficam o tempo que é preciso pra nos ensinar ou aprender algo, mas um dia se vão, porém, não é porque acabou que não deu certo, não importa o tempo que ficou, o amor não é cronometrado. Deu certo até ali, só chegou a hora de cada um seguir seu caminho e isso não anula o amor que foi um dia e que também ficou. Por quanto tempo foram a companhia perfeita para o outro? O quanto cresceram juntos? São inúmeras histórias pra contar que não anulam só porque não terão mais um futuro como manda o manual. A relação existiu, foi linda enquanto durou, não importa se foi um mês ou um ano, um fez parte da vida do outro e isso ninguém pode mudar. Cada um segue levando um pouco do outro, porque querendo ou não a gente sempre planta algo de nós dentro do outro. Mesmo que a relação tenha acabado, ambos serão especiais para o resto da vida. O final não tem a mesma beleza do início, seja ele de uma forma ruim ou boa, mas ele também tem seu devido valor, porque tudo que começa tem que acabar um dia, às vezes acaba antes do que o coração esperava, mas o importante é que um dia existiu, um dia o amor pulsou ali e vai pulsar, de alguma forma, mesmo que ainda não estejam juntos, porque tem amores que não precisam ser vividos a vida inteira.
Por Jhenifer.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

O ângulo era perfeito, mas nós não.


E a foto foi tirada diversas vezes, sempre ficávamos bonito nelas, mas a gente nunca ficava com nenhuma. Tinha algo maior que nos montava e nos arrancava da mesma maneira. Até que desistimos e paramos de tentar. O vento passa por entre a gente afirmando que já é hora de parar. Nossos corpos fixam estátuas esparramadas pelo concreto, ficamos ali deitados, olhando as nuvens de sempre, indo e vindo, como pessoas, como nós dois ontem e amanhã. Parece que não há mais mágica entre nossas conversas, não há sabor no nosso gosto. E principalmente, nossos hobbies ficaram ultrapassados. Fotos, vídeos e rabiscos. Tudo apagado da memória dos apetrechos. Você diz que não vale a pena guardar aquilo se já nem se importa com mais nada. Eu observo, fico me perguntando se a tentativa de poses minutos antes era para você afirmar para si de que algo estava errado ou se era só uma tentativa. Estamos no shopping, olhando vitrines e valores, passeamos por entre monumentos gigantes de proporções cinematográficas, você não me espera, só vai pegando as peças da vitrine e colocando nas costas. Tudo se gruda e faz te parecer caracol. Você ri, você fotografa, você fala nomes de todas as pessoas que você ama. Meu nome não é emitido, ninguém ousa nem olhar. Chamo por ti e tudo desaba. É noite e a areia coça meus pés, faz frio mas estou bem, sinto o meu corpo dormente, pois estou morto. Estou morto e vejo as estrelas no céu negro de outubro, as ondas me embalam para que o sono eterno seja tranquilo. Sei que você da areia me vê, mas continua a fumar para ficar brisado, o acampamento será por todo o fim de semana, tem bebidas, maconha e muitas histórias de praia e cidade. Você se encaixa perfeito nessa ilusão marota de que a vida é apenas isso. 
Acordo. Outro pesadelo depois de uma sensação noturna de invasão. Sei que foi um sonho ruim por acordar ofegante, me vejo sentado, ensaiando como voltar a dormir sem pensar no que sonhei. Não consigo esquecer, então picoto papéis até cair no sono novamente, a cada rasgar de papel digo algo sobre mim, desabafo sobre meu pedaço de chão esmeril. 


Se você quer ser um guitarrista do Iron Maiden.


Extravagâncias, amantes, dívidas,
separações, alegações de incesto,
morte por febre,
se você quer ser um guitarrista do Iron Maiden
tem que carregar consigo um Lord Byron.
Tem que ser antigo como são antigas a bactéria,
a chaga de Cristo
e tudo o mais que a medicina não deu cabo.
De teu motor valvulado, corrosivo e perecível
você tem que extirpar cadeados de lamentos,
cruz e sacrifícios.
Você tem que ser teu próprio pronto socorro,
da selvageria que é a vida,
do osso quando arrebentam
pancadarias na arquibancada,
uma taça feita de crânio, as perfurações,
as úlceras, as lesões, as ofensas,
as injurias, os agravos.
Você tem que saber que não é invulnerável,
que vão te fazer a corte e os cortes,
nunca as suturas.
Você é antigo na dor,
faz de sangrias coaguladas o teu pranto.
Você colocou a mão esquerda na labareda,
deu-a de bandeja à palmatória.
Com a outra você cometeu haraquiri.
E o show ainda nem chegou na metade.

-Luiz Felipe Leprevost


terça-feira, 17 de outubro de 2017

Delphinapterus



Me descubro novamente. O tato se alisa entre as cobertas, a estreita cama se alarga e me engole. O quarto que é minúsculo durante o dia sempre se expande na imensidão do escuro total. Por mais que eu tente fugir do que me persegue, sempre, no ultimo segundo antes de dormir, sou visitado por mim e por toda mágoa que me devora. Me cubro novamente. Não quero sentir o frio de ser solitário, de precisar das pessoas para fazer coisas pequenas, de saber que a vida continuar melhorando para todo mundo menos para mim. Um egoísmo cíclico que parafusa a memória das minhas paredes. Lembro agora do nojo em sua feição após um ato carnal de amor, lembro das costas que fizeram parede para qualquer menção de carinho durante 15 horas seguidas. Lembro que a culpa é minha, que ninguém gosta de mim o suficiente para entender e querer que eu seja exemplo de pessoa ideal. Parece que vai chover novamente, sinto o molhado no rosto, mas não tenho certeza se já sou eu derramando minhas próprias tristezas ou se é chuva. 
É assim toda noite. Me cubro e me descubro, me conforto e me amargo. Até finalmente conseguir dormir. Sei que não sou dono da verdade e que deveria ser uma pessoa normal e atribuir raiva à sua pessoa. Mas, não seria eu se eu não entendesse que as experiências fortalecem o caráter e assim se constrói o adulto que veremos aos 30 anos em diante. Experiências é o que nos move todos os dias, é a captação da adrenalina, da lascívia, do desespero, da euforia, do medo, da ilusão, da paixão e finalmente da resiliência. Talvez você não entenda, hoje, que a roda da fortuna é a carta da tua vida. E ela nunca poderá ser corrompida porque você não aceitará a verdade absoluta que é ser regido por algo mutável.
Durante a madrugada eu acordo com um barulho, não sei se sonho ou realidade, mas era tipo um ronco, um canto de baleia. Era algo natural e sensual ao mesmo tempo. E essas coisas biológicas a gente aprende a conviver, seja o organismo agindo após alguma comida, seja pelo organismo reagindo pelo toque inesperado. A biologia indica princípios reais de vida que podem ser registrados com o observar. Os mamíferos possuem a capacidade de gerar vida dentro de si, amamentá-los e seguir família em sua maioria. Os homens e mulheres tendem aos mesmos princípios mamíferos, a diferença é que o pensamento social de Estado, Família, Religião, Valores e Ética se aglomeram e perpendiculam entre certo e errado. 
Me descubro novamente, tetando me acostumar com o novo normal, que é igual porém diferente. É uma amizade que não se comunica, é um amor que não se beija, é um querer que nem é lembrado. É um normal nos dias, no trabalho, nas aulas, na hora de comer e ir dormir. Dormir. Essa é a hora mais difícil de todas, tentarei deixar a tv ligada no documentário de seis horas sobre o canto das baleias, imaginarei em Galápagos ou Noronha, em uma praia às 10 da manhã ou numa montanha às 10 da noite. Me imaginarei enfrentando trilhas e velocidade, mergulhos e corais, até conseguir me sufocar e falecer. De manhã, massacrado pelo corpo que não descansa, levantarei, verei o espaço vago de ti, verei teu holograma se espreguiçar, verei o café que será feito por mim e para mim, sentirei o calor do sol ou o frio da chuva por entre as janelas que não me importo mais em fechar. E seguirei para mais um dia comum, porque é assim que a gente segue a vida, se matando a cada dia para que não tenhamos mais que morrer por ninguém. 



quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Hoje é meu dia de sol.


 Hoje eu senti o sol pela primeira vez em anos. Parece que os sabores do raiar foram perdidos nessa pesada época de chuva. A coceira que branda a pele me traz uma sensação de plenitude saudosista. Eu não sei se vou te ver mais tarde, mas eu vou ao teu encontro, enquanto o dia estiver claro, te acostumando numa vida mais comum. Você quer que tudo aconteça? Meu braços quentes serão teu descanso da turbulência, minhas pernas mornas abriram a imensidão do teu desejo e a brisa perdurará por inquietas infinitudes. Hoje será meu dia de sol. Vou clarear as nossas tristezas, um raio ao estilo power rangers ultra, que obliterará toda a mágoa, tristeza e solidão. O raio do sol será o meu farol resplandecente, captando e jorrando a magnitude do calor que é acreditar que tudo vai dar certo. Um dia de cada vez. A escuridão acontece para sabermos dar valor ao dia, e um rege o outro em idêntica contrapartida, feito elementos chineses de equilíbrio. Preciso que você entenda essa parte da vida, de que tudo não é um mar de rosas, que coisas acontecem e que tudo voltará a ficar bem se houver o entendimento correto. O calor chegou e já percorreu o meu corpo, sinto a vida emergir, sinto a alegria de dançar ao som do vento, da rua, de tua risada nua, despida de qualquer intenção cicatrizada. Sinta minha pele, cheire o meu sabor salgado que se projeta no embalo da emoção, pularemos ondas de contraditório, faremos trilhas sinuosas até chegar nas cachoeiras da calmaria. O Risco me diz que as cicatrizes estão latentes, e não colocarei sal em tuas feridas, nem te empurrarei para o mar, nada disso. O Risco que me guia hoje não tem nenhum sentimento além do acreditar, da confiança e do querer. O lampejo da dúvida acontece hora ou outra, surge um medo particular das criaturas que se espreitam por entre nós, ouço rugidos, ranger de dentes e tambores. E sem você eu não irei conseguir seguir adiante. O magma pode ser o chão a qualquer momento, e estarei pronto para te dar a mão se houver desiquilíbrio, se houver tontura, e se eu quiser pular, encantado pelas cores da morte certa, por favor não me largue. Me traga pra junto de ti de maneira verdadeira e forte. Forte. Assim é como o sol que se explode lá no alto, nos convidando a travessia deste momento de mudança. E para mudar, algo deve morrer e algo deve nascer. Não necessariamente em contraponto, o bem morre para que nasça o mal, ou o ruim morre para que nasça o bom. Não é assim que a vida nos mostra ao passar do tempo. Algo morre, para que algo novo e único nasça de uma maneira inteiramente nova, para ser cultivada com as premissas passadas, mas com a glória de uma nova perfeição. Não criamos os filhos para que sejam nossa cópia fiel, nós criamos os novos seres para serem a melhor versão da nós. É estranho e até mesmo injusto quando somos indagados para sermos melhores. Se eu já acho que sou a minha melhor versão, como ousa dizer que tenho que ser melhor que isso? Bem, todos dias temos a oportunidade única de sermos melhores, mais amáveis, mais pacientes, mais ativos, mais úteis, mais e mais... e muitos menos também surgem, menos egoístas, menos opressivos, menos desatentos... Todo dia que nasce é um novo dia para começar algo novo dentro de algo que já começou. Dia de abraçar mais, beijar mais, querer mais, suar mais, rir mais e ser feliz por mais um dia. Hoje é o meu dia de sol, e disse isso quando acordei, como um mantra sagrado da Indonésia, disse que tentaria ser uma pessoa mais justa, mas amável, mais fiel ao meus valores. Caminhando aos poucos, talvez eu consiga uma nova permissão para entrar em teu castelo, lugar que eu deixei por ter medo de amar. 


sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Million Reasons


 E foi então que ela começou a contar a história, mesmo sendo uma coisa triste não tinha, em seus olhos, qualquer traço de mágoa. Foi uma fase difícil, começou ela, mas foi uma grande vitória. Era por volta dos meus 32 anos que tudo começou, nas verdade eu nem sabia que já tinha começado lá trás, durante um evento que reuniu a família. E foi pesando a cada mês. Primeiro quando o médico deu a notícia que eu não poderia engravidar. Isso pra uma mulher nova, trinta anos ainda é nova, é muito terrível. Deixa ela devastada. Porque quando é jovem a gente faz de tudo pra ter uma certa estabilidade pra assegurar uma vida melhor aos filhos, mas e quando não há mais essa expectativa? Primeiro foi a festa da família, todos me olhavam, cochichavam e vinham com o olhar de pena. Eu era uma cancerígena terminal ali. E tudo o que eu menos queria era, de fato, lembrar desse acontecimento. Dias se passaram e a tristeza se instalou. Logo depois eu fui demitida, segunda a demissão, na terça mamãe faleceu. Assim, pá! E, como eu não era casada, só estava namorando ainda, acreditava que meu namorado iria estar lá pra dar todo suporte. Quem diria que um namoro de cinco anos fosse se desmanchar em menos de cinco dias? E ele me largou. Disse que pra ele era muita coisa para processar, tinha muita coisa na cabeça e essas coisas que os homens dizem quando tem medo. Ele se foi, e mesmo morando juntos, ele levou só as roupas dele e material pessoal de trabalho. E mesmo deixando quase tudo perfeitamente no mesmo lugar, parecia que tinha levado o piso, o teto e todas as paredes. [suspiro profundo]
Foi aí que eu lembrei dos meus amigos. De toda a turma de amigos e amigas que conviviam comigo, apenas dois foram ao enterro de mamãe, a maioria deu desculpas sobre que não iriam por conta do trabalho, da família ou de viagem, poucos deles deixaram de mandar mensagem de pêsames, mas só mensagens. Desde então apenas dois se mantiveram por perto. Me senti uma pessoa tóxica, que acabava por contaminar tudo e qualquer coisa. Me sentia impotente, amarga, e sem qualquer vontade pra nada. E como eu morava numa cidade sem família nem qualquer parente próximo, tudo foi ficando casa vez mais difícil. Por mais que esses dois amigos tentassem ajudar, eles tinham suas vidas. Sei que fui obrigada a participar do jantar do domingo com eles. A cada semana numa casa diferente, só pra sair mesmo. Eles diziam que não tinham qualquer pretensão, apenas se juntar e comer. [riso rápido] No começo era mesmo assim, a gente chegava, comia, tomava algo rápido e ia embora, fora o "boa noite" ao chegar e ao sair, não havia diálogo nenhum, nada nada. E com o tempo eles começaram a contar coisas sobre a semana, e ao passar dos domingos, foi ficando ao quase normal, tradicional, com conversas bobas, piadas simples e nenhuma indagação.
Nesses domingos eu ficava bem, no restante da semana a coisa se afundava. Encontrei o 141 por acaso. E nunca pensei em utilizá-lo. Até que encontrei meu ex voltando para casa, sim, em pleno fim de domingo. Ele me elogiou, perguntou como iam as coisas e quando dei por mim já estávamos entrando em casa. Parecia que minha vida tinha voltado ao normal. Até ele ver a casa, a bagunça. Ele começou a fazer cara de nojo e me criticar, foi aí que comecei a chorar. Ele veio com palavras que pareciam chicotadas, me chamou de preguiçosa, suja, de vagabunda... antes de bater a porta, cuspiu no chão quando disse "Não sei como um cara como eu ficou tanto tempo com um lixo como você". Chorei por horas. Ele tinha arrancado minhas pernas ali mesmo, foi um golpe e tanto. Arrasada, parecia que tinha sido, oficialmente, o pior dia de toda minha vida. Me senti tão vazia, uma inexistência. Um peso pra humanidade. Liguei pro 141. 
No outro dia, nada tinha mudado, mas me senti melhor.
Saber que existem pessoas, pessoas anônimas no qual você pode desabafar das coisas e elas não irão te julgar. Pessoas que se dedicam voluntariamente a ouvir. [Olhos marejados] 
Foi pensando nisso que eu passei a semana, fui ao médico, fui à uma entrevista de emprego, e no domingo que seria aqui em casa, pedi pra que fossemos a um restaurante perto. Nada de muito caro, até porque eu não tinha dinheiro, meus amigos que me ajudavam com as contas e com a feira de casa. [Enxugando lágrimas sorri] Foi um tanto idiota, mas eu estava numa semana de tpm e não me arrumei pra sair, fui com a cara fechada só pra dizer que fui, e quando cheguei lá, fiquei sozinha sentada. Esperando os outros dois. Um ligou dizendo que bateu o carro e estava esperando o seguro chegar, já a outra ainda estava se arrumando porque o filho vomitou na roupa dela. Parecia que seria "aquele" domingo de azar, e foi então que Jorge chegou. Eu não tinha percebido, mas o lugar estava cheio e eu ocupava uma mesa de seis lugares. "Desculpa, mas é que eu queria muito comer, mas o garçom disse que não há mais lugar. Eu poderia comer aqui enquanto seu pessoal não chega?" Eu nem disse nada, fiquei com o celular na mão e aquela cara de "quem é você?", ele entendeu que sim, sentou e já fez o pedido com o garçom que estava já esperando para enxotá-lo. E ele ficou lá, esperando o prato dele chegar, eu impaciente, e ele lá, sereno. Parecia que ele tinha toda paciência do mundo depois de fazer o pedido. Se apresentou, eu disse meu nome, e ele fez um elogio. Fiquei toda vermelha, porque eu vi que eu tinha saído de casa parecendo uma mendiga, camisa desbotada, short rasgado com manchas de água sanitária, o cabelo estava aquela vassoura! [Ri]
Ele conversou comigo sobre muitas coisas que viu na tv naquela semana. Perguntava a todo tempo "e você sabia?", "você deveria saber disso, é a sua cara". A noite se foi e eu só ria. Ele era muito palhaço. Meus amigos chegaram lá no fim da noite, umas 22 horas, eu já tinha comido e bebido sem pensar. Ainda bem que eles chegaram porque eu estava lisa. [Rindo mais ainda] Jorge fez logo amizade, eles ficaram conversando um monte. 
Dias se passaram Jorge sempre me ligava, mandava mensagem, mas no fim acabava aparecendo lá em casa. Reclamando sempre. Reclamava todos os dias que pudesse, só porque eu não usava o telefone. Só ligava o celular no domingo. Passava a semana toda off. Eu não tinha o que conversar, não tinha ninguém esperando pra me atender, então pra quê ficar com ele ligado? Da primeira vez que Jorge se atreveu me trazer em casa, ele foi bem esperto. Homem quando quer é danado! [Sorri] Ele foi me conquistando aos poucos. Acho que ele conversou depois com meus amigos e eles devem ter contado minha situação ali. Jorge não forçava nada, sempre tentava fazer tudo ser natural, sem questionar, sem pressão. Ele me trouxe em casa caminhando mesmo, do restaurante pra cá, duas ruas só. Eu perguntei se ele morava por ali e me respondeu que era perto, não tinha motivos para desviar o caminho. Ficávamos na porta de casa conversando, eu mais ouvia do que falava, mas me sentia bem. Fiquei com muito medo quando Jorge entrou em casa da primeira vez, ele teve uma dor de barriga do churros que comeu na praça e saiu desesperado quando eu disse que podia usar o banheiro. Foi constrangedor pra todo mundo. Ele me mandou ficar fora de casa ou ele não conseguia fazer, e vendo ele todo suado e se apertando, claro que eu fiquei. A casa estava um lixo nessa semana, eu tinha ficado muito triste quando recebi o convite de casamento do meu ex. Em letras garrafais: FULANO E FULANA CONVIDAM AO CASAMENTO DO ANO, em letras dele logo abaixo, VOCÊ DEVERIA VIR E VER O QUE SÃO PESSOAS FELIZES, QUEM SABE NÃO SINTA INVEJA E TENTA TAMBÉM? Sei que não deveria, mas eu desejava muito que algum terrorista chegasse a explodir o casamento, só de raiva. Mas no fim eu me sentia culpada, não sei explicar. Quando Jorge saiu, eu estava sentada na calçada, ele sentou ao meu lado e agradeceu. Pediu desculpas logo em seguida. Disse rindo que seria uma história constrangedora que adoraria contar aos filhos, eu ri na mesma hora, também dizendo o mesmo, daí ele me pegou, "por que a gente não junta os filhos e contamos os dois ao mesmo tempo?" Eu, naquela hora, não tinha entendido onde ele queira chegar, e ele percebeu. "Gostaria muito de ter mais histórias contigo pra compartilhar". Ele ficou sério, muito sério, e me olhava de um jeito diferente. "Você está bem?", perguntei assustada. "Eu volto já!", disse ele se levantando rapidamente, "Fique aí mesmo!".
[Olhando para a foto de Jorge no porta-retrato sobre a mesa] Sabe, foram vários momentos em que Jorge poderia ter ido embora, principalmente no dia que joguei uma panela na cabeça dele [Ri alto], foram três pontos na testa, ah! Eu achei que ele fosse desviar. Já passamos por muita coisa, ele também teve vários problemas, já foi alcoólatra durante esse caminho. E ainda estamos juntos. Doze anos se passaram desde aquele dia na calçada. 
Em pensar que parece que foi ontem [suspiro profundo]. Você vai encontrar alguém, se não já encontrou, que tentará fazer tudo ficar bem, e não importa quanto você a ignore, expulse, grite com ela, ela vai voltar e vai tentar te fazer feliz. Porque a tempestade nunca dura para sempre, e nesses dias de sol é que nos mostram que tudo valerá a pena. Todo mundo tem problema, às vezes pesados demais, com sangue e morte envolvidos, mas passa. Confiar e acreditar são coisas fundamentais, e claro, os dois têm que saber até onde vai a força de cada um. Saber ceder, e saber levantar. Uma vez alguém me disse que quando as coisas estão muito ruins, ela só precisa um peito para deitar sobre e chorar um pouco. Perguntei à ela se isso resolvia, ela me contou que não resolvia, mas ajudava muito. Que se houvesse isso sempre que precisasse... com isso tomaria forças para continuar. Me pergunto o que eu preciso para continuar, eu não sei o que me ajuda muito. "Você já tentou fazer como ela pelo menos?" ela me pergunta. "Não acho que seria bem-vindo", respondo e desligo.



quinta-feira, 5 de outubro de 2017

A ponte.


Dizem que somos feito ilhas. Grande blocos de terra que possui vida, mas isolados de todo o resto por oceano. Ilhas. Se somos ilha, família é arquipélago. E o intuito de começar a tentar explorar outras ilhas é, justamente, criar vínculos e aglomerar valores à nossa ilha. Assim, a ilha por mais que não cresça e se torne uma potência icônica, ao menos não afundará no próprio oceano. E, assim, te digo novamente, essa coisa de abraçar é o que faz ponte para nossa ilha. Os braços se tornam grandes tentáculos que aproximam as terras dos nossos corações, deixando transporte de mão dupla aos sentimentos. Do mesmo ocorre quando essas pontes são quebradas, queimadas, ou esquecidas pelo tempo. Um exemplo clássico é a ponte ultraviolenta. A ponte ultraviolenta é aquela que é criada forçadamente a partir de eventos esporádicos que firmam certas esperanças e fidelidade. E tem esse nome porque quando ela vem abaixo, é de maneira tão devastadora que leva consigo um pedaço da ilha. 
Eu te falei que eles eram ultraviolento e você me fez prometer que tentaria. E assim o fiz, tentei ser empático e estudei, depois da primeira falha legítima. (A primeira falha legítima foi quando eu não entendia dos atos de convívio social do teu grupo e acabei não contemplando aquela vulgaridade que era se despedir abraçando. Hoje eu entendo que eles fazem isso por mera demonstração de carinho hipócrita, mas na época eu não entendia o motivo real, pois era a segunda ou terceira vez que eu estava ali passando o tempo. Não fazia parte do grupo, e até agora nunca fiz, mas eu deveria saber que ele queria um abraço, porque foi assim em sequencia, mas eu não sabia, não tinha o hábito de fazer essas coisas e, principalmente, com essas pessoas. Nos outros dias, ele que não teve o abraço de despedida passou a me ignorar, e não que seja difícil, mas era propositalmente para humilhar, para que eu soubesse que minha presença em convite não era bem-vinda. Logo que eu entendi, passei a dar desculpas e tentar não forçar nada. Passou) Sempre fora assim, observei que essas pontes que existiam entre si era muito frágil, não se firmava por sentimento, mas por pacto social. Você deve fazer assim porque é assim que eles fazem, não significa que se importam contigo ou que te querem bem. Primeiro sintoma, é um abraço rápido, necessitado de atenção e a primeira pessoa a soltar o corpo do outro é sempre um deles. Sempre um desses que prezam pelo ato, com toda glória afetuosa (uma grande mentira). Segundo sintoma, as falas não se completam com os atos, elas se derretem em pecados ligeiros, o falar-acontecer não é tão simples quanto eles pregam, há uma insegurança presente, ainda que sublime, uma honestidade falsa, uma contravenção amável. Terceiro e ultimo sintoma, o amor. Sim, o alicerce das pontes que juntas as ilhas. O amor que é passado por eles é traiçoeiro. Eles pregam que nunca abandonarão ninguém, ainda que na pior das hipóteses, e basta você não entender uma linguagem e você é excluído, ignorado e símbolo de chacota. No passar do tempo você será só mais um desses tais embustes que eles adoram rir sobre. Deveria ter apostado comigo, foi o que eu disse para si quando eu senti o ultraviolento hoje, foram três rajadas até tudo desmoronar. A primeira na torre do tripé giratório, quando a ponte se acendeu e iria pedir socorro. Mas a iluminação não chegou até a outra ilha, pois ela deixou cair sua ponta de propósito, como se virasse o olhar para os céus, para os lados, para qualquer lugar do que os faróis da outra ilha. Uma virada de costas. Pena que nunca é por acaso, porque a sinalização entre as ilhas irmãs foi detectada, uma singela olhada, levanta a sobrancelha e a mensagem é dada. 
Eu te falei que era tudo não verdadeiro, quando esse tipo de gente diz que tem vontade de ajudar, é só para pregar sua própria imagem de benevolente no grupo de pessoas ao qual se põe um assunto tão delicado em questão. Na verdade, elas não querem essa culpa para si, têm problemas de mais vivendo suas próprias vidas, óbvio que não iriam se importar voluntariamente por alguém que elas desprezam a presença física, imagine emocional. O problema desse tipo de ilha, é que algumas outras desconhecem que terão pontes ultraviolentas e acreditam no discurso de boas pessoas que pregam entre ilhas. 
Metade da minha ilha já ruiu, hoje mais um pouco. Mas tudo bem, uma a mais, uma a menos, não fará diferença neste oceano. 




Lá no fundo.


O buraco que cavo ainda não me cabe, mas aos poucos conseguirei. Aqui em baixo é confortável, úmido e morno, como em um abraço depois do meio-dia. E ultimamente, tudo o que preciso vem desse vazio que me consome. Aos poucos, sei que lá no fundo essa sensação de angústia passará, junto com o medo e a culpa. Não mais carrego aquela vergonha de existir, porque já não há mais os dedos ossudos que me apontam, nem os suínos risos que dilaceram meu bem estar. Como uma sombra vagante, escorro meu corpo por entre as luzes flamejantes. Não resistindo ao medo de fugir das multidões. Lendo você por entre as paredes, o oceano de pessoas que nos afoga, e eu, sombra. Os dias de chuva estão por acabar, e já o sol reinará com toda pompa, lembre-se de sempre apreciá-lo, porque daqui do fundo, quando eu finalmente ajeitar o meu lugar, nunca mais irei enxergá-lo. E isso não é ruim, pois a escuridão me convida, é parceira e sempre me conforta, me adita em seu leito generoso de puro nada. 

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Love, Rosie


"Escolher... escolher a pessoa com quem você quer dividir sua vida, é uma das decisões mais importante que... qualquer um pode fazer... sempre. Porque quando dá errado, deixa sua vida cinza. E às vezes... às vezes você nem nota, até acordar numa manhã e perceber que anos se passaram. E nós sabemos o que é isso! Sua amizade trouxe um colorido novo para a minha do mundo por essa dádiva. Espero ter sabido dar valor, mas talvez não tenha vida e esteve presente nos momentos mais precisos e eu sou a pessoa mais feliz dado, porque às vezes você não vê que a melhor coisa que já aconteceu à você está bem ali... debaixo do seu nariz. Mas tudo bem... é, tudo bem."


terça-feira, 3 de outubro de 2017

Ainda é cedo.


Ainda é cedo, mas eu preciso sair daqui. Preciso deixar para trás, mesmo que por um momento, essa bolha de vergonha que se infla pela casa. Roubei um pedaço dela e pus na mochila, foi um dia com uma bomba dentro de uma caixa, pronta para entrega trágica. Trágico não é o mesmo que mágico, do mesmo modo que natureza não é o mesmo que comportamento. Fui catalogando quantas vezes eu fiquei com vergonha de mim, só por hoje. Sempre quando chego depois da casa dos 30 eu perco as contas, volto a contar em pares de três. Ainda pelo caminho demorado, lembrei que poderia haver marcas e eu teria que criar uma história mirabolantemente mundana. Por sorte não havia. Nada de marcas vermelhas de tuas mãos que me apertaram, provavelmente também não deve ter nas costas que encontraram as maciças paredes por vezes, e as unhas estão intactas, por mais que os dedos tentassem agarrar as quinas com desespero. Ir de contra-vontade é tão humilhante quanto por conta própria e, às ordens do imperador, a saída trágica era me ditada contra vontade. Acho que você ainda não percebeu que existe um oceano que me separa das coisas que todos fazem tão facilmente. E, acho que não é perceptível, mas eu não sei nadar. Sim, também já tentei, e "eu não tenho um barco", disse a árvore. O que fazer então além de ficar quieto e seguir o ritmo de uma terça qualquer? Sinto a cabeça doendo novamente, já foi 1 grama de paracetamol, 500mg ao acordar com a cabeça martelando, e 500mg ao ter a cabeça esmagada violentamente pelas ásperas atitudes de vandalismo contra meu templo. A dor era tão intensa, a vontade de fugir era real, mas tudo o que posso fazer é pedir, suplicar para que me deixe em paz, digo que não vou, que não sou, digo o que quiser, mas me deixe ter um dia comum. Dia em que posso vestir uma camisa cinza, mudar a playlist e lavar roupa. Não desprezo sua boa vontade que dita o que devo fazer, mas não é uma hora boa para que eu possa seguir ordens, não é momento para que eu saia da rotina. Além da dor, da quentura, da tontura, sinto a vista ficando ofuscada enquanto limpo a vidraçaria, a imagem da pia vai ficando conturbada de um jeito diferente a cada indagação tua. O inquérito molesta o silêncio do dia de sol. Até que se derrama. Paro para conter-me, para zerar o ápice do perder controle. Continuo contando em múltiplos de cinco quanto vejo o dia se despedir, os passos são poucos, o caminho é longo, parece que nunca chegarei. Parece que até isso se vai e minha vergonha por tudo isso hoje deixa tudo mais pesado. E deve ser por isso que tenho tantas dores nos ombros, minha respiração pesada não me deixa esconder. Quando finalmente repouso, numa dessas mesas-dominó, peço desculpa mentalmente para todas as pessoas que já decepcionei por não conseguir ir aos lugares que queriam que eu fosse, nessas festas de aniversários, churrascos, clubes, boates, cinema, e casa de amigos. Eu, sinceramente, sinto muito. Embora não pareça, é muito difícil não perecer as condições de ansiedade. Sinto muito.
Mas não se preocupe, com o tempo certo você se acostumará a não mais precisar fazer o convite, uma hora ou outra, bem perdida no tempo, você lembrará que tinha disso da ausência, até não mais fazer falta.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

A cada dois anos


A cada dois anos acontece um evento importante na cidade. Eu nunca fui a nenhum deles, sempre tive vontade. Nessa época de evento, muito provavelmente, estarei namorando ou algo do tipo, e será um convite desses que eu não posso perder por gostar muito de livros. A pessoa vai se empolgar em ver várias celebridades, vários títulos e muita informação pairando entre as pessoas. Ela vai se empolgar ao ponto de ir com outras pessoas. Sim, nesses eventos acontece como nas idas ao cinema. O convite é feito, as pessoas vão, e eu não irei por motivos comuns: Não é um horário que eu possa ir, não é um dia ao qual eu possa ir, ou o mais costumeiro, eles vão antes do dia marcado. E, como de praxis, eu não irei depois.
Ter uma experiência ao qual eu possa falar sobre os livros sem qualquer repúdio, julgamento ou chatices. Estaria eu em ambiente agradável e confortável ao ponto de poder apontar e comentar sobre aquelas capas e volumes. Este ano não foi diferente, convite aceito, dias se passaram e logo veio o "vou com meus amigos hoje, depois a gente vai". E tudo morreu logo em seguida. Parece mais um filme que nunca verei por desprazer da experiência.
Ao mesmo tempo, para ironia da vida, fui "obrigado a estar dentro do evento no outro dia, em uma outra coisa totalmente diferente e, por 10 breves minutos, fui carregado pelo colega à procura de um presente. Vi muitas cores logo aos poucos passos, cheiro de pipoca, caramelo, crianças rindo e brincando, pessoas comento sobre autógrafos, velhos em rodas de conversas... vi muita coisa e queria falar sobre aquilo, queria ter isso com você. Engoli a amargura que é não conseguir fazer esses passeios mesmo quando dão errado, mesmo quando sou a ultima opção de companhia. Segui o colega, fez a compra dele e logo fomos embora, não vi mais que 15% do local, não vi os estandes das minhas favoritas, não vi artistas ou autores, não queria ver mais ninguém, só você. 
Agora, trouxe comigo um troféu da derrota que vi carregando aos 5 minutos de tour no primeiro estande que meu colega percorreu. O livro me lembrou você, capa bonita, cores amareladas como o sol, capa dura para proteger e acessível, dez reais apenas. Literatura juvenil, ficção científica. Lacrado. E quando percebi que estava lacrado já era tarde demais. Vou pôr junto com os outros que também não consigo abrir. Será mais uma história que ficará em repouso eterno, em solidão profunda. A ansiedade não me permite fazer muitas coisas, sinto muito por te decepcionar novamente.

Pós operatório


O veneno é sentido direto na veia. Imagino se você consegue ir além do que consegui. Tento projetar as alegrias e conquistas além de tudo o que vejo agora. Sei que estás bem, onde quer que estejas. Vejo as fotos ao sol, ouço as canções gravadas, leio as frases de amor. Contente, sigo o meu caminho ao dissecar o câncer da tua vida. Um tumor que crescia se ninguém perceber, um mal que iria enraizar em teus sonhos e estrangular teu futuro. Ainda bem que não precisou amputar nada. Uma retirada delicada e precisa. A recuperação é lenta e gradual, todos sabemos, mas a cura é real. Ao menos deste tumor. Espero que não deixe crescer outros assim, feito bola de neve.

domingo, 1 de outubro de 2017

Atlantis


 Sem dores permanentes, sem molhar o rosto, sem luz forte, sem pressa, sem barulho. Foi assim que acordei hoje, em pleno domingo costumeiro. Acabei dormindo tarde e, por mais pesado que tenha sido o dia, continuo aqui. Tive um sonho, deveras, engraçado. Não lembro o que aconteceu, mas lembro da música, lembro de acordar leve. Acordei sozinho, como sempre. Pessoas difíceis vivem sozinhas, andam sozinhas, comem sozinhas, dormem e acordam eternamente sozinhas. E, se você acredita que eu chorei para estar tão aliviado, desconsidere este pensamento. Não houve banho demorado durante a madrugada, embora eu estivesse suado depois de passar um bom tempo no 141. Apenas consegui dormir. Sem imaginar as constelações, sem pensar no horário do amanhã, ou no corpo fervilhando em dissabor. Foi uma noite de exaustão serena. 
 O dia segue no fluxo de descompaixão. Os cartuchos vazio ficam caindo ao chão a cada palavra de ódio, o corpo é metralhado violentamente com a desesperança que só alguém que já morreu pode conceber. E, no ultimo suspiro de vida, tento sanar as chagas desconfortáveis que me alvejam diariamente. A gangrena hemorrágica de um dia normal.  Não escrevo em letras garrafais em busca de socorro ou uma prece para rogar minh'alma, tampouco perdão pelos atos ou mesmo despedidas. Quero apenas uma sombra da alvorada para descansar meu corpo cansado. Um jazigo natural para que o ciclo continue verdadeiramente. Gabriel, ontem, me contou que às vezes cidades inteiras são dizimadas pela natureza, assim sem poderem se defender, mas que no final das contas continuam lá, imersas, desoladas, mas sempre lá, em memória. E isto me fez pensar se, quando eu partir, continuarei nulo, invisível e anônimo. 
 Será mesmo que faria alguma diferença? Peguei minhas anotações sobre visibilidade e resposta, até agora estou em quadro 10/100, e a cada dia que passa vai caindo. Quando a população chega a 0, não se tem motivos da cidade continuar de pé. Será consumida pelo tempo, pelo vento, pelo vazio que já era.

Olhe para mim!



Olhe para mim.
A dor de cabeça continuava, o frisson do dia escorria pelas entranhas, e assim seguiram os tiques e taques. A cada dia que se vai, está sendo mais difícil manter a concentração. É grito, tiro, motores, buzinas, risadas e mais confusão. Nesta mesma semana eu ainda tentei fazer diferente, como havia prometido, fui comer peixe no almoço. Até que gostaria, estava com uma cara ótima, o cheiro muito atraente, mas era peixe frito. Não sei se por momentos assim é que acontecem atos que desafiam a morte, mas eu fiquei deveras nervoso. Um, porque era fila e dois, porque era peixe. A cada momento que seria a minha vez, me vi com a bandeja em tremedeira, senti os olhos julgadores de todos ao meu redor, os cochichos e as risadas de provocação. Ao sentar, tentei fazer como o de costume: comer rápido e ir para casa, mas como comer rápido se não há fome e a vontade de sair correndo é maior? Evitei qualquer tipo de manifestação, seja virtual ou real, sem conversas, sem contato visual, sem telefone. Tentei controlar a respiração, as mãos e a ansiedade que batia na minha cabeça. Muito provavelmente ninguém tenha percebido que eu estava entrando em colapso, espero que não. Feijoada não é peixe, triste feijoada. E assim, os dias vão indo de vento em polpa, pelo ralo, dragados pela suculência de não conseguir fazer nada de útil.
Ei, olhe para mim!
Respiro fundo, percebo que perdi a concentração e volto ao mantra do olhar de poder. Fico contando de 0 até 10 em repetidas vezes. Até que finalmente ele funciona. Você acha que estou olhando nos teus olhos, mas não estou. Foi lá pela terceira consulta, ele me disse algo que me ajudou durante o processo, me disse que eu poderia estudar técnicas de comportamento e replicá-las até um momento que seria algo "natural", passei a comprar livros de autoajuda nesse seguimento, testei muitas coisas e das quais eu mais fico feliz em conseguir em proeza cotidiana é o olhar do poder. Claro, depois de me concentrar muito. Fico olhando por entre teus olhos, onde calçam as sobrancelhas. Pessoas do espectro não fazem esse tipo de contato tão primordial. Parece que tudo se resolve quando se é normal, quando se faz coisas normais. Pena que é doloroso e confuso em sua maioria, e talvez, por agora, não seja prioridade. Um dia, as pessoas serão capazes de entender os outros sem precisar fazê-las se sentirem um lixo-humano, descartáveis e impróprias, mas até lá, sigamos em crença no mínimo necessário para viver.  

As leituras da lista

Arte: Comfort Zone by Chantal Horeis ou @chantal_horeis A lista de leituras deste ano foi composta, quase que exclusivamente, da...