quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Lâmina


A carta que fechará o ciclo desde momento da vida está sendo revelada. Ela, XIII - A Morte. A morte não significa a morte. A representação é clara e objetiva, é o jogar fora tudo aquilo que te é inútil, é o fim de uma era e o início de outra. Lembre-se, você morre várias vezes durante toda a vida. Há ciclos que são bem expressivos, como a infância, a juventude, o se tornar adulto e o idoso. Quando a gente morre, crescemos de alguma maneira. E deixar para trás todo o apego como algumas pessoas, coisas e lugares é difícil. Mudar é muito difícil, sair da zona de conforto de uma maneira tão significante é como um rito de passagem. Terminar o ensino médio e começar uma faculdade é um ritual tradicional do início da vida adulta. Lembra da raspagem de cabeça ou sobrancelha? A morte acontece ali mesmo. Morre o estudante de ensino médio e começa o universitário, o jovem adulto. Nossa, e quantas cobranças, deveres e obrigações surgem ali, como um caminho sem volta.
A cada dia tudo muda. A morte diária, o desenvolver da vida, do ciclo, do karma. A borboleta só acontece porque morre a lagarta, este ser que só se alimentava é exterminada em sua crisálida, não restando nada além de uma casca de casulo. O ser que ali havia já é um outro totalmente diferente. Só que no humano isso também é diferente, pois a morte não quer dizer que você se transformará em outra pessoa, com novos desejos, novas manias e defeitos, nada disso. Aqui, o término do ciclo é a condição do replantio, tirando o que é inútil. Assim, talvez você não perceba que está mudando, ou que as coisas estão te levando a um outro patamar. Consegui o emprego, e agora é trabalhar. Este trabalhar, numa empresa nova, novos amigos de trabalho, condições de trabalho, tudo isso é o novo ciclo, novo, bem simples. Nova matéria, novo amor, novas andanças. 
Sabe, a carta da morte foi a ultima a ser revelada. Ela ficou no topo da tiragem, mostrando em um contexto que tudo aqui será guiado para um modelo que fora protelado por ciclos. Agora é hora de aceitar isso de uma maneira útil, deixando para trás tudo aquilo que não será preciso. Levar na bagagem apenas o necessário, o caráter em primeiro lugar, as conquistas e derrotas, o conhecimento científico, popular e teológico, o bom senso e a boa vibração. Estou levando comigo apenas uma lâmina e uma (des)esperança, desta vez ,cortando a realidade em vez dos pulsos. Saída de emergência.


terça-feira, 7 de novembro de 2017

Pacífico


 Percebo estar acordado, revolto entre lençóis, noite adentro, lua entre frestas do telhado, frio de litoral, você deitado ao lado. Outro pesadelo. Meus ouvidos ao lado do teu ronronar, sinto o hálito quente escorregando pela nuca. Seu corpo quente esmagando o meu. Abraçados como em uma despedida de longa data, seus braços me abraçam, sua voz diz coisas sem sentido, e a noite se afunila mais uma vez. Um pesadelo que me acontece muitas vezes. Acordar e te sentir aqui tão perto. Me deixo ir ao contorno da lua vazante. Sei que a solidão de agora vai passar assim que acordar. Essa aflição que me persegue, como alguém que espera sentado no canto da calçada. É só um pesadelo. Já já irei acordar e ver que continuo sozinho, e isso me fará bem. Afinal de contas, pessoas difíceis vivem sozinhas. Lembro da lua de hoje, do céu de hoje, a lua enorme como o meu sonho, tão longe quanto o meu caminho e tão real quanto minha vontade de continuar. Talvez você não perceba mais a lua como outrora, nem deseje os céus, vai ver isso só funciona pra quem está apaixonado. Sei que, agora que o tempo abriu de vez, a tempestade passou como um namorico, dias abafados e noites quentes fixarão aqueles que esperam o amor chegar, a calmaria de cedo perdurará como uma oração bem quista. 
 Passo um bom tempo sublimando os céus em fragmento, sinto as paredes coçarem meus pelos, relaxo por breve, e entediado volto a decifrar teu ronco. Me mexo para ver se consigo causar um acordar, mas o oceano deságua entre nós, afogando novamente qualquer memória de um tempo bom. Criado um mundo de encanto, parece que é isso que é ser amado, ou até mesmo amar. Mas alguém pode pôr tudo isso a perder. E assim, remexo. Você reclama e me pede para dormir. Sei que é nessa hora que eu deveria sentir a dor forte que escapa em alguns momentos do dia, mas é apenas um sonho ruim e por isso, apenas por isso, não há mais nada que sentir. Agora, tão tarde, ouço os galos da vizinhança cantarem. Outra madrugada em claro, com o fantasma do querer. Pode crer que costumo aprender, e sair por aí querendo ser feliz, porque o  meu oceano é Pacífico, e minha ilha é pedaço de terra que comporta toda forma do universo. Você me beija em sonâmbulo ato, e finalmente me liberto dessa sensação. Finalmente consigo dormir e saber que você não é um sonho. Amanhã acordarei novamente nessas águas, dia após dia, como uma cantiga de marinheiro. Olhe para o céu durante o crepúsculo e quando faltar segundo para o sol morrer, sinta meu ultimo suspiro.


terça-feira, 31 de outubro de 2017

Ride


I was in the winter of my life
And the men I met along the road were my only summer
At night I fell asleep with visions of myself dancing and laughing and crying with them
Three years down the line of being on an endless world tour and my memories of them were the only things that sustained me
And my only real happy times

I was a singer
Not a very popular one
I once had dreams of becoming a beautiful poet
But upon an unfortunate series of events saw those dreams dashed and divided like a million stars in the night sky
That I wished on over and over again, sparkling and broken
But I didn’t really mind because I knew that it takes getting everything you ever wanted and then losing it to know what true freedom is

When the people I used to know found out what I had been doing how I had been living, they asked me why, but there’s no use in talking to people who have a home
They have no idea what its like to seek safety in other people
For home to be wherever you lie your head

I was always an unusual girl
My mother told me that I had a chameleon soul
No moral compass pointing me due north
No fixed personality
Just an inner indecisiveness that was as wide and as wavering as the ocean
And if I said I didn’t plan for it to turn out this way I’d be lying

Because I was born to be the other woman
Who belonged to no one
Who belonged to everyone
Who had nothing
Who wanted everything
With a fire for every experience and an obsession for freedom that terrified me to the point that I couldn’t even talk about it
And pushed me to a nomadic point of madness that both dazzled and dizzied me

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Cool



"Sim, eu estou bem", é assim que geralmente eu respondo para que as pessoas não fiquem com aquele ar de piedade e consigam seguir o que elas realmente querem fazer. Porque eu sei como é difícil você gostar de alguém e não querer ficar mais com ela, mas também não tem motivos para ignorá-la ou largá-la por aí. É mais uma questão de amadurecimento de caráter, somado ao sentimento e memórias boas. Isso a gente aprende com o tempo, com a vida. Primeiro é difícil você desvincular o hábito, o dia-a-dia que passavam juntos, que se falavam e dividiam praticamente tudo o que podiam. Segundo, depois isso vai morrendo, as coisas vão ficando espaçadas, o ritmo começa a ganhar espaço entre o pensamento no outro e quando você perceber, já se foram dias, semanas, meses, anos e décadas. Sim, as décadas também chegam e quando você perceber o quanto de pessoa já veio e já foi, vai entender que deverás carregar sempre o que tem de melhor de cada qual. Ainda que a relação fuja, suma, acabe por traição moral ou física, além de qualquer coisa, roube para si os sentimentos bons que o mundo te aguarda. Não cultive mágoa, raiva ou qualquer outro sentimento ruim por muito tempo. Deixe as coisas decantarem dentro de ti, e refaça os teus próprios passos para a felicidade. "Sim, eu estou bem", repito para que você me deixe te deixar tentar ser feliz, porque âncoras como eu, por mais que consigam ir pelo mar quando há um barco, ela sempre, eu disse sempre, irá tentar te levar para baixo. Âncoras servem para dar estabilidade quando chega ao fundo, essa é sua função plena. E a estabilidade é justamente você perceber que não vale a pena carregar uma âncora por aí se você pode ter um motor de ponta e nunca precisar desse tipo de material. 
É interessante quando você para pra pensar em algumas pessoas que te fizeram bem por um tempo, como aqueles momentos únicos caíram no esquecimento por desmerecer aquela pessoa. Será mesmo que vale a pena esquecer tanta coisa? Ou melhor, será mesmo que vale a pena ficar pensando em ter momentos bons assim? Acredito que a questão por agora seja exatamente continuar dizendo que está tudo bem, assim ninguém fica incomodado em parar a vida por uma causa perdida. Convencer todo mundo que tudo está legal, so cool, e quando derem por si, serei apenas outra memória.

E foi uma reviravolta daquelas.


A folha que apanhei caiu do livro que abandonei lá por volta de 2016, não sei bem. Também não lembro quando escrevi aquelas palavras, mas lembro dos motivos. Lembro porque foram eles que estavam escritos em dizeres quase que profanos, ou melhor, quase como uma oração, rogando que aquilo fosse lido o quanto antes, mas era tarde demais. O aviso que escrevi para mim, na noite que encontrei o bilhete dentro dos envelopes, aquilo que deixei fluir durante horas de choro sem sentido que passei sozinho. Foi naquele dia, sim, foi naquele dia. Eu me avisei ali mesmo, em traços tortos e feito poema, avisei com tinta manchada de lágrimas, disse tudo o que eu não deveria fazer. 
Fiquei estático, claro, quem não ficaria? Como eu pude esquecer disso? Sentei na mesma hora, escorrendo pela parede, até que finalmente o chão me acolheu. Li uma, duas, três vezes até parar e pensar no tanto que fiz e deixei de fazer pra chegar até agora. Até esse momento em que tu estás a ler. Respiro fundo. Olhei para os meus livros e senti saudade. Esse medo de ter aprovação social que hoje tanto me pesa, é um dos motivos ao qual me prestei a dizer que ia cair em profusão mental. Olho para os lados novamente, e conto quantas vezes eu deixei de ser eu mesmo para agradar quem não merecia, quem não me merece. E, até então, agora, depois de me desfazer daquela carta sublime, sei que a resiliência me conforta, a empatia está morta, e a minha perspectiva para o futuro é apenas existir de uma maneira brande e quase que anônima, porque é assim que deve ser. Pessoas difíceis vivem sozinhas, lembre-se sempre disso, e quando você entender o motivo de tal, você vai ver que não é deprimente. Vai entender que pessoas são pessoas, e que nem sempre estaremos lá quando tudo virar de ponta-a-cabeça. Hoje, desperto mais um pouco a cada dia que passa, migro a condição de importar com o que se passa ao meu redor, para meados de 2014, quando eu saquei que a vida é apenas aquilo que eu leio, nada mais importa.



terça-feira, 24 de outubro de 2017

O Mistério da Caveira de Cristal


Quando a arqueóloga Dra. Laura Shepherd descobre que seu colega foi assassinado segurando um misterioso crânio de cristal, é envolvida em um mundo sombrio de presságios estranhos, fenômenos psíquicos e um código enigmático, 1221201212212012. Sua busca pela verdade leva-a a arriscar sua carreira, seu casamento e até mesmo sua vida. Laura descobre uma terrível profecia, embarca em uma perigosa missão, rumo a um antigo templo maia, protegido por uma densa floresta, cercado por guardas armados, determinada a descobrir o mistério da caveira de cristal, a qualquer custo.


A) Opinião sobre a história?
Ao começar a lê-lo, nos reportamos às famosas aventuras de arqueólogos e caçadores de relíquias, pois, uma expert em assuntos antigos é forçada a trabalhar em um dos maiores mistérios que já viu. A caveira de cristal em si já é um ponto de curiosidade para se ler. Soa como uma aventura intrigante.


B) Opinião sobre os personagens?

Apresentados poucos personagens, apenas a protagonista se dá ao luxo de demonstrar aspectos que tentam torná-la uma pessoa real. Talvez pela maneira televisiva de transportar a história para o livro traga mais nuances que favoreçam o crescimento deles.


C) Qual o ponto entre a posição atual e a sinopse?

A dr. Laura Shepherd começou a investigar a caveira de cristal agora, após muito relutar por não ser seu material de trabalho.


D) Frase mais interessante até agora?

Com o coração pesado, deu o dia por encerrado.


E) Qual a ultima frase da página 100?

Sentiu uma onda de raiva diante da injustiça de tudo isso.


F) Pretende continuar a ler?

Sim, a proposta parece interessante, e a investigação acabou por começar.


G) O que esperar do restante do livro?

Que a dra. Laura consiga dominar o trauma de perder a filha, consiga desvendar o mistério da origem da caveira de cristal e termine a tradução das tábulas.



H) Indicaria esse livro?
Talvez, ainda não sei o propósito da história além do básico na sinopse. Então talvez a história não flua tão bem ao ponto de indicá-la. Aguardemos.

sábado, 21 de outubro de 2017

Tua mensagem me lembrou PalavrasdeDuas



Depois dos dezoito a gente aprende que tem amor que não precisa ser pra vida inteira. Não é fácil destruir toda aquela história de que amores são aqueles que vêm e ficam pra sempre, mas a gente aprende. Aprende vendo aquele casal que a gente tanto apoiava e que tanto se dava bem separando, aprende vendo pessoas que juravam nunca sair da nossa vida, pegando as coisas e indo embora. A gente aprende que pra ser amor não precisa ficar, alguns amores vêm e ficam o tempo que é preciso pra nos ensinar ou aprender algo, mas um dia se vão, porém, não é porque acabou que não deu certo, não importa o tempo que ficou, o amor não é cronometrado. Deu certo até ali, só chegou a hora de cada um seguir seu caminho e isso não anula o amor que foi um dia e que também ficou. Por quanto tempo foram a companhia perfeita para o outro? O quanto cresceram juntos? São inúmeras histórias pra contar que não anulam só porque não terão mais um futuro como manda o manual. A relação existiu, foi linda enquanto durou, não importa se foi um mês ou um ano, um fez parte da vida do outro e isso ninguém pode mudar. Cada um segue levando um pouco do outro, porque querendo ou não a gente sempre planta algo de nós dentro do outro. Mesmo que a relação tenha acabado, ambos serão especiais para o resto da vida. O final não tem a mesma beleza do início, seja ele de uma forma ruim ou boa, mas ele também tem seu devido valor, porque tudo que começa tem que acabar um dia, às vezes acaba antes do que o coração esperava, mas o importante é que um dia existiu, um dia o amor pulsou ali e vai pulsar, de alguma forma, mesmo que ainda não estejam juntos, porque tem amores que não precisam ser vividos a vida inteira.
Por Jhenifer.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

O ângulo era perfeito, mas nós não.


E a foto foi tirada diversas vezes, sempre ficávamos bonito nelas, mas a gente nunca ficava com nenhuma. Tinha algo maior que nos montava e nos arrancava da mesma maneira. Até que desistimos e paramos de tentar. O vento passa por entre a gente afirmando que já é hora de parar. Nossos corpos fixam estátuas esparramadas pelo concreto, ficamos ali deitados, olhando as nuvens de sempre, indo e vindo, como pessoas, como nós dois ontem e amanhã. Parece que não há mais mágica entre nossas conversas, não há sabor no nosso gosto. E principalmente, nossos hobbies ficaram ultrapassados. Fotos, vídeos e rabiscos. Tudo apagado da memória dos apetrechos. Você diz que não vale a pena guardar aquilo se já nem se importa com mais nada. Eu observo, fico me perguntando se a tentativa de poses minutos antes era para você afirmar para si de que algo estava errado ou se era só uma tentativa. Estamos no shopping, olhando vitrines e valores, passeamos por entre monumentos gigantes de proporções cinematográficas, você não me espera, só vai pegando as peças da vitrine e colocando nas costas. Tudo se gruda e faz te parecer caracol. Você ri, você fotografa, você fala nomes de todas as pessoas que você ama. Meu nome não é emitido, ninguém ousa nem olhar. Chamo por ti e tudo desaba. É noite e a areia coça meus pés, faz frio mas estou bem, sinto o meu corpo dormente, pois estou morto. Estou morto e vejo as estrelas no céu negro de outubro, as ondas me embalam para que o sono eterno seja tranquilo. Sei que você da areia me vê, mas continua a fumar para ficar brisado, o acampamento será por todo o fim de semana, tem bebidas, maconha e muitas histórias de praia e cidade. Você se encaixa perfeito nessa ilusão marota de que a vida é apenas isso. 
Acordo. Outro pesadelo depois de uma sensação noturna de invasão. Sei que foi um sonho ruim por acordar ofegante, me vejo sentado, ensaiando como voltar a dormir sem pensar no que sonhei. Não consigo esquecer, então picoto papéis até cair no sono novamente, a cada rasgar de papel digo algo sobre mim, desabafo sobre meu pedaço de chão esmeril. 


Se você quer ser um guitarrista do Iron Maiden.


Extravagâncias, amantes, dívidas,
separações, alegações de incesto,
morte por febre,
se você quer ser um guitarrista do Iron Maiden
tem que carregar consigo um Lord Byron.
Tem que ser antigo como são antigas a bactéria,
a chaga de Cristo
e tudo o mais que a medicina não deu cabo.
De teu motor valvulado, corrosivo e perecível
você tem que extirpar cadeados de lamentos,
cruz e sacrifícios.
Você tem que ser teu próprio pronto socorro,
da selvageria que é a vida,
do osso quando arrebentam
pancadarias na arquibancada,
uma taça feita de crânio, as perfurações,
as úlceras, as lesões, as ofensas,
as injurias, os agravos.
Você tem que saber que não é invulnerável,
que vão te fazer a corte e os cortes,
nunca as suturas.
Você é antigo na dor,
faz de sangrias coaguladas o teu pranto.
Você colocou a mão esquerda na labareda,
deu-a de bandeja à palmatória.
Com a outra você cometeu haraquiri.
E o show ainda nem chegou na metade.

-Luiz Felipe Leprevost


terça-feira, 17 de outubro de 2017

Delphinapterus



Me descubro novamente. O tato se alisa entre as cobertas, a estreita cama se alarga e me engole. O quarto que é minúsculo durante o dia sempre se expande na imensidão do escuro total. Por mais que eu tente fugir do que me persegue, sempre, no ultimo segundo antes de dormir, sou visitado por mim e por toda mágoa que me devora. Me cubro novamente. Não quero sentir o frio de ser solitário, de precisar das pessoas para fazer coisas pequenas, de saber que a vida continuar melhorando para todo mundo menos para mim. Um egoísmo cíclico que parafusa a memória das minhas paredes. Lembro agora do nojo em sua feição após um ato carnal de amor, lembro das costas que fizeram parede para qualquer menção de carinho durante 15 horas seguidas. Lembro que a culpa é minha, que ninguém gosta de mim o suficiente para entender e querer que eu seja exemplo de pessoa ideal. Parece que vai chover novamente, sinto o molhado no rosto, mas não tenho certeza se já sou eu derramando minhas próprias tristezas ou se é chuva. 
É assim toda noite. Me cubro e me descubro, me conforto e me amargo. Até finalmente conseguir dormir. Sei que não sou dono da verdade e que deveria ser uma pessoa normal e atribuir raiva à sua pessoa. Mas, não seria eu se eu não entendesse que as experiências fortalecem o caráter e assim se constrói o adulto que veremos aos 30 anos em diante. Experiências é o que nos move todos os dias, é a captação da adrenalina, da lascívia, do desespero, da euforia, do medo, da ilusão, da paixão e finalmente da resiliência. Talvez você não entenda, hoje, que a roda da fortuna é a carta da tua vida. E ela nunca poderá ser corrompida porque você não aceitará a verdade absoluta que é ser regido por algo mutável.
Durante a madrugada eu acordo com um barulho, não sei se sonho ou realidade, mas era tipo um ronco, um canto de baleia. Era algo natural e sensual ao mesmo tempo. E essas coisas biológicas a gente aprende a conviver, seja o organismo agindo após alguma comida, seja pelo organismo reagindo pelo toque inesperado. A biologia indica princípios reais de vida que podem ser registrados com o observar. Os mamíferos possuem a capacidade de gerar vida dentro de si, amamentá-los e seguir família em sua maioria. Os homens e mulheres tendem aos mesmos princípios mamíferos, a diferença é que o pensamento social de Estado, Família, Religião, Valores e Ética se aglomeram e perpendiculam entre certo e errado. 
Me descubro novamente, tetando me acostumar com o novo normal, que é igual porém diferente. É uma amizade que não se comunica, é um amor que não se beija, é um querer que nem é lembrado. É um normal nos dias, no trabalho, nas aulas, na hora de comer e ir dormir. Dormir. Essa é a hora mais difícil de todas, tentarei deixar a tv ligada no documentário de seis horas sobre o canto das baleias, imaginarei em Galápagos ou Noronha, em uma praia às 10 da manhã ou numa montanha às 10 da noite. Me imaginarei enfrentando trilhas e velocidade, mergulhos e corais, até conseguir me sufocar e falecer. De manhã, massacrado pelo corpo que não descansa, levantarei, verei o espaço vago de ti, verei teu holograma se espreguiçar, verei o café que será feito por mim e para mim, sentirei o calor do sol ou o frio da chuva por entre as janelas que não me importo mais em fechar. E seguirei para mais um dia comum, porque é assim que a gente segue a vida, se matando a cada dia para que não tenhamos mais que morrer por ninguém. 



quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Hoje é meu dia de sol.


 Hoje eu senti o sol pela primeira vez em anos. Parece que os sabores do raiar foram perdidos nessa pesada época de chuva. A coceira que branda a pele me traz uma sensação de plenitude saudosista. Eu não sei se vou te ver mais tarde, mas eu vou ao teu encontro, enquanto o dia estiver claro, te acostumando numa vida mais comum. Você quer que tudo aconteça? Meu braços quentes serão teu descanso da turbulência, minhas pernas mornas abriram a imensidão do teu desejo e a brisa perdurará por inquietas infinitudes. Hoje será meu dia de sol. Vou clarear as nossas tristezas, um raio ao estilo power rangers ultra, que obliterará toda a mágoa, tristeza e solidão. O raio do sol será o meu farol resplandecente, captando e jorrando a magnitude do calor que é acreditar que tudo vai dar certo. Um dia de cada vez. A escuridão acontece para sabermos dar valor ao dia, e um rege o outro em idêntica contrapartida, feito elementos chineses de equilíbrio. Preciso que você entenda essa parte da vida, de que tudo não é um mar de rosas, que coisas acontecem e que tudo voltará a ficar bem se houver o entendimento correto. O calor chegou e já percorreu o meu corpo, sinto a vida emergir, sinto a alegria de dançar ao som do vento, da rua, de tua risada nua, despida de qualquer intenção cicatrizada. Sinta minha pele, cheire o meu sabor salgado que se projeta no embalo da emoção, pularemos ondas de contraditório, faremos trilhas sinuosas até chegar nas cachoeiras da calmaria. O Risco me diz que as cicatrizes estão latentes, e não colocarei sal em tuas feridas, nem te empurrarei para o mar, nada disso. O Risco que me guia hoje não tem nenhum sentimento além do acreditar, da confiança e do querer. O lampejo da dúvida acontece hora ou outra, surge um medo particular das criaturas que se espreitam por entre nós, ouço rugidos, ranger de dentes e tambores. E sem você eu não irei conseguir seguir adiante. O magma pode ser o chão a qualquer momento, e estarei pronto para te dar a mão se houver desiquilíbrio, se houver tontura, e se eu quiser pular, encantado pelas cores da morte certa, por favor não me largue. Me traga pra junto de ti de maneira verdadeira e forte. Forte. Assim é como o sol que se explode lá no alto, nos convidando a travessia deste momento de mudança. E para mudar, algo deve morrer e algo deve nascer. Não necessariamente em contraponto, o bem morre para que nasça o mal, ou o ruim morre para que nasça o bom. Não é assim que a vida nos mostra ao passar do tempo. Algo morre, para que algo novo e único nasça de uma maneira inteiramente nova, para ser cultivada com as premissas passadas, mas com a glória de uma nova perfeição. Não criamos os filhos para que sejam nossa cópia fiel, nós criamos os novos seres para serem a melhor versão da nós. É estranho e até mesmo injusto quando somos indagados para sermos melhores. Se eu já acho que sou a minha melhor versão, como ousa dizer que tenho que ser melhor que isso? Bem, todos dias temos a oportunidade única de sermos melhores, mais amáveis, mais pacientes, mais ativos, mais úteis, mais e mais... e muitos menos também surgem, menos egoístas, menos opressivos, menos desatentos... Todo dia que nasce é um novo dia para começar algo novo dentro de algo que já começou. Dia de abraçar mais, beijar mais, querer mais, suar mais, rir mais e ser feliz por mais um dia. Hoje é o meu dia de sol, e disse isso quando acordei, como um mantra sagrado da Indonésia, disse que tentaria ser uma pessoa mais justa, mas amável, mais fiel ao meus valores. Caminhando aos poucos, talvez eu consiga uma nova permissão para entrar em teu castelo, lugar que eu deixei por ter medo de amar. 


sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Million Reasons


 E foi então que ela começou a contar a história, mesmo sendo uma coisa triste não tinha, em seus olhos, qualquer traço de mágoa. Foi uma fase difícil, começou ela, mas foi uma grande vitória. Era por volta dos meus 32 anos que tudo começou, nas verdade eu nem sabia que já tinha começado lá trás, durante um evento que reuniu a família. E foi pesando a cada mês. Primeiro quando o médico deu a notícia que eu não poderia engravidar. Isso pra uma mulher nova, trinta anos ainda é nova, é muito terrível. Deixa ela devastada. Porque quando é jovem a gente faz de tudo pra ter uma certa estabilidade pra assegurar uma vida melhor aos filhos, mas e quando não há mais essa expectativa? Primeiro foi a festa da família, todos me olhavam, cochichavam e vinham com o olhar de pena. Eu era uma cancerígena terminal ali. E tudo o que eu menos queria era, de fato, lembrar desse acontecimento. Dias se passaram e a tristeza se instalou. Logo depois eu fui demitida, segunda a demissão, na terça mamãe faleceu. Assim, pá! E, como eu não era casada, só estava namorando ainda, acreditava que meu namorado iria estar lá pra dar todo suporte. Quem diria que um namoro de cinco anos fosse se desmanchar em menos de cinco dias? E ele me largou. Disse que pra ele era muita coisa para processar, tinha muita coisa na cabeça e essas coisas que os homens dizem quando tem medo. Ele se foi, e mesmo morando juntos, ele levou só as roupas dele e material pessoal de trabalho. E mesmo deixando quase tudo perfeitamente no mesmo lugar, parecia que tinha levado o piso, o teto e todas as paredes. [suspiro profundo]
Foi aí que eu lembrei dos meus amigos. De toda a turma de amigos e amigas que conviviam comigo, apenas dois foram ao enterro de mamãe, a maioria deu desculpas sobre que não iriam por conta do trabalho, da família ou de viagem, poucos deles deixaram de mandar mensagem de pêsames, mas só mensagens. Desde então apenas dois se mantiveram por perto. Me senti uma pessoa tóxica, que acabava por contaminar tudo e qualquer coisa. Me sentia impotente, amarga, e sem qualquer vontade pra nada. E como eu morava numa cidade sem família nem qualquer parente próximo, tudo foi ficando casa vez mais difícil. Por mais que esses dois amigos tentassem ajudar, eles tinham suas vidas. Sei que fui obrigada a participar do jantar do domingo com eles. A cada semana numa casa diferente, só pra sair mesmo. Eles diziam que não tinham qualquer pretensão, apenas se juntar e comer. [riso rápido] No começo era mesmo assim, a gente chegava, comia, tomava algo rápido e ia embora, fora o "boa noite" ao chegar e ao sair, não havia diálogo nenhum, nada nada. E com o tempo eles começaram a contar coisas sobre a semana, e ao passar dos domingos, foi ficando ao quase normal, tradicional, com conversas bobas, piadas simples e nenhuma indagação.
Nesses domingos eu ficava bem, no restante da semana a coisa se afundava. Encontrei o 141 por acaso. E nunca pensei em utilizá-lo. Até que encontrei meu ex voltando para casa, sim, em pleno fim de domingo. Ele me elogiou, perguntou como iam as coisas e quando dei por mim já estávamos entrando em casa. Parecia que minha vida tinha voltado ao normal. Até ele ver a casa, a bagunça. Ele começou a fazer cara de nojo e me criticar, foi aí que comecei a chorar. Ele veio com palavras que pareciam chicotadas, me chamou de preguiçosa, suja, de vagabunda... antes de bater a porta, cuspiu no chão quando disse "Não sei como um cara como eu ficou tanto tempo com um lixo como você". Chorei por horas. Ele tinha arrancado minhas pernas ali mesmo, foi um golpe e tanto. Arrasada, parecia que tinha sido, oficialmente, o pior dia de toda minha vida. Me senti tão vazia, uma inexistência. Um peso pra humanidade. Liguei pro 141. 
No outro dia, nada tinha mudado, mas me senti melhor.
Saber que existem pessoas, pessoas anônimas no qual você pode desabafar das coisas e elas não irão te julgar. Pessoas que se dedicam voluntariamente a ouvir. [Olhos marejados] 
Foi pensando nisso que eu passei a semana, fui ao médico, fui à uma entrevista de emprego, e no domingo que seria aqui em casa, pedi pra que fossemos a um restaurante perto. Nada de muito caro, até porque eu não tinha dinheiro, meus amigos que me ajudavam com as contas e com a feira de casa. [Enxugando lágrimas sorri] Foi um tanto idiota, mas eu estava numa semana de tpm e não me arrumei pra sair, fui com a cara fechada só pra dizer que fui, e quando cheguei lá, fiquei sozinha sentada. Esperando os outros dois. Um ligou dizendo que bateu o carro e estava esperando o seguro chegar, já a outra ainda estava se arrumando porque o filho vomitou na roupa dela. Parecia que seria "aquele" domingo de azar, e foi então que Jorge chegou. Eu não tinha percebido, mas o lugar estava cheio e eu ocupava uma mesa de seis lugares. "Desculpa, mas é que eu queria muito comer, mas o garçom disse que não há mais lugar. Eu poderia comer aqui enquanto seu pessoal não chega?" Eu nem disse nada, fiquei com o celular na mão e aquela cara de "quem é você?", ele entendeu que sim, sentou e já fez o pedido com o garçom que estava já esperando para enxotá-lo. E ele ficou lá, esperando o prato dele chegar, eu impaciente, e ele lá, sereno. Parecia que ele tinha toda paciência do mundo depois de fazer o pedido. Se apresentou, eu disse meu nome, e ele fez um elogio. Fiquei toda vermelha, porque eu vi que eu tinha saído de casa parecendo uma mendiga, camisa desbotada, short rasgado com manchas de água sanitária, o cabelo estava aquela vassoura! [Ri]
Ele conversou comigo sobre muitas coisas que viu na tv naquela semana. Perguntava a todo tempo "e você sabia?", "você deveria saber disso, é a sua cara". A noite se foi e eu só ria. Ele era muito palhaço. Meus amigos chegaram lá no fim da noite, umas 22 horas, eu já tinha comido e bebido sem pensar. Ainda bem que eles chegaram porque eu estava lisa. [Rindo mais ainda] Jorge fez logo amizade, eles ficaram conversando um monte. 
Dias se passaram Jorge sempre me ligava, mandava mensagem, mas no fim acabava aparecendo lá em casa. Reclamando sempre. Reclamava todos os dias que pudesse, só porque eu não usava o telefone. Só ligava o celular no domingo. Passava a semana toda off. Eu não tinha o que conversar, não tinha ninguém esperando pra me atender, então pra quê ficar com ele ligado? Da primeira vez que Jorge se atreveu me trazer em casa, ele foi bem esperto. Homem quando quer é danado! [Sorri] Ele foi me conquistando aos poucos. Acho que ele conversou depois com meus amigos e eles devem ter contado minha situação ali. Jorge não forçava nada, sempre tentava fazer tudo ser natural, sem questionar, sem pressão. Ele me trouxe em casa caminhando mesmo, do restaurante pra cá, duas ruas só. Eu perguntei se ele morava por ali e me respondeu que era perto, não tinha motivos para desviar o caminho. Ficávamos na porta de casa conversando, eu mais ouvia do que falava, mas me sentia bem. Fiquei com muito medo quando Jorge entrou em casa da primeira vez, ele teve uma dor de barriga do churros que comeu na praça e saiu desesperado quando eu disse que podia usar o banheiro. Foi constrangedor pra todo mundo. Ele me mandou ficar fora de casa ou ele não conseguia fazer, e vendo ele todo suado e se apertando, claro que eu fiquei. A casa estava um lixo nessa semana, eu tinha ficado muito triste quando recebi o convite de casamento do meu ex. Em letras garrafais: FULANO E FULANA CONVIDAM AO CASAMENTO DO ANO, em letras dele logo abaixo, VOCÊ DEVERIA VIR E VER O QUE SÃO PESSOAS FELIZES, QUEM SABE NÃO SINTA INVEJA E TENTA TAMBÉM? Sei que não deveria, mas eu desejava muito que algum terrorista chegasse a explodir o casamento, só de raiva. Mas no fim eu me sentia culpada, não sei explicar. Quando Jorge saiu, eu estava sentada na calçada, ele sentou ao meu lado e agradeceu. Pediu desculpas logo em seguida. Disse rindo que seria uma história constrangedora que adoraria contar aos filhos, eu ri na mesma hora, também dizendo o mesmo, daí ele me pegou, "por que a gente não junta os filhos e contamos os dois ao mesmo tempo?" Eu, naquela hora, não tinha entendido onde ele queira chegar, e ele percebeu. "Gostaria muito de ter mais histórias contigo pra compartilhar". Ele ficou sério, muito sério, e me olhava de um jeito diferente. "Você está bem?", perguntei assustada. "Eu volto já!", disse ele se levantando rapidamente, "Fique aí mesmo!".
[Olhando para a foto de Jorge no porta-retrato sobre a mesa] Sabe, foram vários momentos em que Jorge poderia ter ido embora, principalmente no dia que joguei uma panela na cabeça dele [Ri alto], foram três pontos na testa, ah! Eu achei que ele fosse desviar. Já passamos por muita coisa, ele também teve vários problemas, já foi alcoólatra durante esse caminho. E ainda estamos juntos. Doze anos se passaram desde aquele dia na calçada. 
Em pensar que parece que foi ontem [suspiro profundo]. Você vai encontrar alguém, se não já encontrou, que tentará fazer tudo ficar bem, e não importa quanto você a ignore, expulse, grite com ela, ela vai voltar e vai tentar te fazer feliz. Porque a tempestade nunca dura para sempre, e nesses dias de sol é que nos mostram que tudo valerá a pena. Todo mundo tem problema, às vezes pesados demais, com sangue e morte envolvidos, mas passa. Confiar e acreditar são coisas fundamentais, e claro, os dois têm que saber até onde vai a força de cada um. Saber ceder, e saber levantar. Uma vez alguém me disse que quando as coisas estão muito ruins, ela só precisa um peito para deitar sobre e chorar um pouco. Perguntei à ela se isso resolvia, ela me contou que não resolvia, mas ajudava muito. Que se houvesse isso sempre que precisasse... com isso tomaria forças para continuar. Me pergunto o que eu preciso para continuar, eu não sei o que me ajuda muito. "Você já tentou fazer como ela pelo menos?" ela me pergunta. "Não acho que seria bem-vindo", respondo e desligo.



quinta-feira, 5 de outubro de 2017

A ponte.


Dizem que somos feito ilhas. Grande blocos de terra que possui vida, mas isolados de todo o resto por oceano. Ilhas. Se somos ilha, família é arquipélago. E o intuito de começar a tentar explorar outras ilhas é, justamente, criar vínculos e aglomerar valores à nossa ilha. Assim, a ilha por mais que não cresça e se torne uma potência icônica, ao menos não afundará no próprio oceano. E, assim, te digo novamente, essa coisa de abraçar é o que faz ponte para nossa ilha. Os braços se tornam grandes tentáculos que aproximam as terras dos nossos corações, deixando transporte de mão dupla aos sentimentos. Do mesmo ocorre quando essas pontes são quebradas, queimadas, ou esquecidas pelo tempo. Um exemplo clássico é a ponte ultraviolenta. A ponte ultraviolenta é aquela que é criada forçadamente a partir de eventos esporádicos que firmam certas esperanças e fidelidade. E tem esse nome porque quando ela vem abaixo, é de maneira tão devastadora que leva consigo um pedaço da ilha. 
Eu te falei que eles eram ultraviolento e você me fez prometer que tentaria. E assim o fiz, tentei ser empático e estudei, depois da primeira falha legítima. (A primeira falha legítima foi quando eu não entendia dos atos de convívio social do teu grupo e acabei não contemplando aquela vulgaridade que era se despedir abraçando. Hoje eu entendo que eles fazem isso por mera demonstração de carinho hipócrita, mas na época eu não entendia o motivo real, pois era a segunda ou terceira vez que eu estava ali passando o tempo. Não fazia parte do grupo, e até agora nunca fiz, mas eu deveria saber que ele queria um abraço, porque foi assim em sequencia, mas eu não sabia, não tinha o hábito de fazer essas coisas e, principalmente, com essas pessoas. Nos outros dias, ele que não teve o abraço de despedida passou a me ignorar, e não que seja difícil, mas era propositalmente para humilhar, para que eu soubesse que minha presença em convite não era bem-vinda. Logo que eu entendi, passei a dar desculpas e tentar não forçar nada. Passou) Sempre fora assim, observei que essas pontes que existiam entre si era muito frágil, não se firmava por sentimento, mas por pacto social. Você deve fazer assim porque é assim que eles fazem, não significa que se importam contigo ou que te querem bem. Primeiro sintoma, é um abraço rápido, necessitado de atenção e a primeira pessoa a soltar o corpo do outro é sempre um deles. Sempre um desses que prezam pelo ato, com toda glória afetuosa (uma grande mentira). Segundo sintoma, as falas não se completam com os atos, elas se derretem em pecados ligeiros, o falar-acontecer não é tão simples quanto eles pregam, há uma insegurança presente, ainda que sublime, uma honestidade falsa, uma contravenção amável. Terceiro e ultimo sintoma, o amor. Sim, o alicerce das pontes que juntas as ilhas. O amor que é passado por eles é traiçoeiro. Eles pregam que nunca abandonarão ninguém, ainda que na pior das hipóteses, e basta você não entender uma linguagem e você é excluído, ignorado e símbolo de chacota. No passar do tempo você será só mais um desses tais embustes que eles adoram rir sobre. Deveria ter apostado comigo, foi o que eu disse para si quando eu senti o ultraviolento hoje, foram três rajadas até tudo desmoronar. A primeira na torre do tripé giratório, quando a ponte se acendeu e iria pedir socorro. Mas a iluminação não chegou até a outra ilha, pois ela deixou cair sua ponta de propósito, como se virasse o olhar para os céus, para os lados, para qualquer lugar do que os faróis da outra ilha. Uma virada de costas. Pena que nunca é por acaso, porque a sinalização entre as ilhas irmãs foi detectada, uma singela olhada, levanta a sobrancelha e a mensagem é dada. 
Eu te falei que era tudo não verdadeiro, quando esse tipo de gente diz que tem vontade de ajudar, é só para pregar sua própria imagem de benevolente no grupo de pessoas ao qual se põe um assunto tão delicado em questão. Na verdade, elas não querem essa culpa para si, têm problemas de mais vivendo suas próprias vidas, óbvio que não iriam se importar voluntariamente por alguém que elas desprezam a presença física, imagine emocional. O problema desse tipo de ilha, é que algumas outras desconhecem que terão pontes ultraviolentas e acreditam no discurso de boas pessoas que pregam entre ilhas. 
Metade da minha ilha já ruiu, hoje mais um pouco. Mas tudo bem, uma a mais, uma a menos, não fará diferença neste oceano. 




Lá no fundo.


O buraco que cavo ainda não me cabe, mas aos poucos conseguirei. Aqui em baixo é confortável, úmido e morno, como em um abraço depois do meio-dia. E ultimamente, tudo o que preciso vem desse vazio que me consome. Aos poucos, sei que lá no fundo essa sensação de angústia passará, junto com o medo e a culpa. Não mais carrego aquela vergonha de existir, porque já não há mais os dedos ossudos que me apontam, nem os suínos risos que dilaceram meu bem estar. Como uma sombra vagante, escorro meu corpo por entre as luzes flamejantes. Não resistindo ao medo de fugir das multidões. Lendo você por entre as paredes, o oceano de pessoas que nos afoga, e eu, sombra. Os dias de chuva estão por acabar, e já o sol reinará com toda pompa, lembre-se de sempre apreciá-lo, porque daqui do fundo, quando eu finalmente ajeitar o meu lugar, nunca mais irei enxergá-lo. E isso não é ruim, pois a escuridão me convida, é parceira e sempre me conforta, me adita em seu leito generoso de puro nada. 

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Love, Rosie


"Escolher... escolher a pessoa com quem você quer dividir sua vida, é uma das decisões mais importante que... qualquer um pode fazer... sempre. Porque quando dá errado, deixa sua vida cinza. E às vezes... às vezes você nem nota, até acordar numa manhã e perceber que anos se passaram. E nós sabemos o que é isso! Sua amizade trouxe um colorido novo para a minha do mundo por essa dádiva. Espero ter sabido dar valor, mas talvez não tenha vida e esteve presente nos momentos mais precisos e eu sou a pessoa mais feliz dado, porque às vezes você não vê que a melhor coisa que já aconteceu à você está bem ali... debaixo do seu nariz. Mas tudo bem... é, tudo bem."


terça-feira, 3 de outubro de 2017

Ainda é cedo.


Ainda é cedo, mas eu preciso sair daqui. Preciso deixar para trás, mesmo que por um momento, essa bolha de vergonha que se infla pela casa. Roubei um pedaço dela e pus na mochila, foi um dia com uma bomba dentro de uma caixa, pronta para entrega trágica. Trágico não é o mesmo que mágico, do mesmo modo que natureza não é o mesmo que comportamento. Fui catalogando quantas vezes eu fiquei com vergonha de mim, só por hoje. Sempre quando chego depois da casa dos 30 eu perco as contas, volto a contar em pares de três. Ainda pelo caminho demorado, lembrei que poderia haver marcas e eu teria que criar uma história mirabolantemente mundana. Por sorte não havia. Nada de marcas vermelhas de tuas mãos que me apertaram, provavelmente também não deve ter nas costas que encontraram as maciças paredes por vezes, e as unhas estão intactas, por mais que os dedos tentassem agarrar as quinas com desespero. Ir de contra-vontade é tão humilhante quanto por conta própria e, às ordens do imperador, a saída trágica era me ditada contra vontade. Acho que você ainda não percebeu que existe um oceano que me separa das coisas que todos fazem tão facilmente. E, acho que não é perceptível, mas eu não sei nadar. Sim, também já tentei, e "eu não tenho um barco", disse a árvore. O que fazer então além de ficar quieto e seguir o ritmo de uma terça qualquer? Sinto a cabeça doendo novamente, já foi 1 grama de paracetamol, 500mg ao acordar com a cabeça martelando, e 500mg ao ter a cabeça esmagada violentamente pelas ásperas atitudes de vandalismo contra meu templo. A dor era tão intensa, a vontade de fugir era real, mas tudo o que posso fazer é pedir, suplicar para que me deixe em paz, digo que não vou, que não sou, digo o que quiser, mas me deixe ter um dia comum. Dia em que posso vestir uma camisa cinza, mudar a playlist e lavar roupa. Não desprezo sua boa vontade que dita o que devo fazer, mas não é uma hora boa para que eu possa seguir ordens, não é momento para que eu saia da rotina. Além da dor, da quentura, da tontura, sinto a vista ficando ofuscada enquanto limpo a vidraçaria, a imagem da pia vai ficando conturbada de um jeito diferente a cada indagação tua. O inquérito molesta o silêncio do dia de sol. Até que se derrama. Paro para conter-me, para zerar o ápice do perder controle. Continuo contando em múltiplos de cinco quanto vejo o dia se despedir, os passos são poucos, o caminho é longo, parece que nunca chegarei. Parece que até isso se vai e minha vergonha por tudo isso hoje deixa tudo mais pesado. E deve ser por isso que tenho tantas dores nos ombros, minha respiração pesada não me deixa esconder. Quando finalmente repouso, numa dessas mesas-dominó, peço desculpa mentalmente para todas as pessoas que já decepcionei por não conseguir ir aos lugares que queriam que eu fosse, nessas festas de aniversários, churrascos, clubes, boates, cinema, e casa de amigos. Eu, sinceramente, sinto muito. Embora não pareça, é muito difícil não perecer as condições de ansiedade. Sinto muito.
Mas não se preocupe, com o tempo certo você se acostumará a não mais precisar fazer o convite, uma hora ou outra, bem perdida no tempo, você lembrará que tinha disso da ausência, até não mais fazer falta.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

A cada dois anos


A cada dois anos acontece um evento importante na cidade. Eu nunca fui a nenhum deles, sempre tive vontade. Nessa época de evento, muito provavelmente, estarei namorando ou algo do tipo, e será um convite desses que eu não posso perder por gostar muito de livros. A pessoa vai se empolgar em ver várias celebridades, vários títulos e muita informação pairando entre as pessoas. Ela vai se empolgar ao ponto de ir com outras pessoas. Sim, nesses eventos acontece como nas idas ao cinema. O convite é feito, as pessoas vão, e eu não irei por motivos comuns: Não é um horário que eu possa ir, não é um dia ao qual eu possa ir, ou o mais costumeiro, eles vão antes do dia marcado. E, como de praxis, eu não irei depois.
Ter uma experiência ao qual eu possa falar sobre os livros sem qualquer repúdio, julgamento ou chatices. Estaria eu em ambiente agradável e confortável ao ponto de poder apontar e comentar sobre aquelas capas e volumes. Este ano não foi diferente, convite aceito, dias se passaram e logo veio o "vou com meus amigos hoje, depois a gente vai". E tudo morreu logo em seguida. Parece mais um filme que nunca verei por desprazer da experiência.
Ao mesmo tempo, para ironia da vida, fui "obrigado a estar dentro do evento no outro dia, em uma outra coisa totalmente diferente e, por 10 breves minutos, fui carregado pelo colega à procura de um presente. Vi muitas cores logo aos poucos passos, cheiro de pipoca, caramelo, crianças rindo e brincando, pessoas comento sobre autógrafos, velhos em rodas de conversas... vi muita coisa e queria falar sobre aquilo, queria ter isso com você. Engoli a amargura que é não conseguir fazer esses passeios mesmo quando dão errado, mesmo quando sou a ultima opção de companhia. Segui o colega, fez a compra dele e logo fomos embora, não vi mais que 15% do local, não vi os estandes das minhas favoritas, não vi artistas ou autores, não queria ver mais ninguém, só você. 
Agora, trouxe comigo um troféu da derrota que vi carregando aos 5 minutos de tour no primeiro estande que meu colega percorreu. O livro me lembrou você, capa bonita, cores amareladas como o sol, capa dura para proteger e acessível, dez reais apenas. Literatura juvenil, ficção científica. Lacrado. E quando percebi que estava lacrado já era tarde demais. Vou pôr junto com os outros que também não consigo abrir. Será mais uma história que ficará em repouso eterno, em solidão profunda. A ansiedade não me permite fazer muitas coisas, sinto muito por te decepcionar novamente.

Pós operatório


O veneno é sentido direto na veia. Imagino se você consegue ir além do que consegui. Tento projetar as alegrias e conquistas além de tudo o que vejo agora. Sei que estás bem, onde quer que estejas. Vejo as fotos ao sol, ouço as canções gravadas, leio as frases de amor. Contente, sigo o meu caminho ao dissecar o câncer da tua vida. Um tumor que crescia se ninguém perceber, um mal que iria enraizar em teus sonhos e estrangular teu futuro. Ainda bem que não precisou amputar nada. Uma retirada delicada e precisa. A recuperação é lenta e gradual, todos sabemos, mas a cura é real. Ao menos deste tumor. Espero que não deixe crescer outros assim, feito bola de neve.

domingo, 1 de outubro de 2017

Atlantis


 Sem dores permanentes, sem molhar o rosto, sem luz forte, sem pressa, sem barulho. Foi assim que acordei hoje, em pleno domingo costumeiro. Acabei dormindo tarde e, por mais pesado que tenha sido o dia, continuo aqui. Tive um sonho, deveras, engraçado. Não lembro o que aconteceu, mas lembro da música, lembro de acordar leve. Acordei sozinho, como sempre. Pessoas difíceis vivem sozinhas, andam sozinhas, comem sozinhas, dormem e acordam eternamente sozinhas. E, se você acredita que eu chorei para estar tão aliviado, desconsidere este pensamento. Não houve banho demorado durante a madrugada, embora eu estivesse suado depois de passar um bom tempo no 141. Apenas consegui dormir. Sem imaginar as constelações, sem pensar no horário do amanhã, ou no corpo fervilhando em dissabor. Foi uma noite de exaustão serena. 
 O dia segue no fluxo de descompaixão. Os cartuchos vazio ficam caindo ao chão a cada palavra de ódio, o corpo é metralhado violentamente com a desesperança que só alguém que já morreu pode conceber. E, no ultimo suspiro de vida, tento sanar as chagas desconfortáveis que me alvejam diariamente. A gangrena hemorrágica de um dia normal.  Não escrevo em letras garrafais em busca de socorro ou uma prece para rogar minh'alma, tampouco perdão pelos atos ou mesmo despedidas. Quero apenas uma sombra da alvorada para descansar meu corpo cansado. Um jazigo natural para que o ciclo continue verdadeiramente. Gabriel, ontem, me contou que às vezes cidades inteiras são dizimadas pela natureza, assim sem poderem se defender, mas que no final das contas continuam lá, imersas, desoladas, mas sempre lá, em memória. E isto me fez pensar se, quando eu partir, continuarei nulo, invisível e anônimo. 
 Será mesmo que faria alguma diferença? Peguei minhas anotações sobre visibilidade e resposta, até agora estou em quadro 10/100, e a cada dia que passa vai caindo. Quando a população chega a 0, não se tem motivos da cidade continuar de pé. Será consumida pelo tempo, pelo vento, pelo vazio que já era.

Olhe para mim!



Olhe para mim.
A dor de cabeça continuava, o frisson do dia escorria pelas entranhas, e assim seguiram os tiques e taques. A cada dia que se vai, está sendo mais difícil manter a concentração. É grito, tiro, motores, buzinas, risadas e mais confusão. Nesta mesma semana eu ainda tentei fazer diferente, como havia prometido, fui comer peixe no almoço. Até que gostaria, estava com uma cara ótima, o cheiro muito atraente, mas era peixe frito. Não sei se por momentos assim é que acontecem atos que desafiam a morte, mas eu fiquei deveras nervoso. Um, porque era fila e dois, porque era peixe. A cada momento que seria a minha vez, me vi com a bandeja em tremedeira, senti os olhos julgadores de todos ao meu redor, os cochichos e as risadas de provocação. Ao sentar, tentei fazer como o de costume: comer rápido e ir para casa, mas como comer rápido se não há fome e a vontade de sair correndo é maior? Evitei qualquer tipo de manifestação, seja virtual ou real, sem conversas, sem contato visual, sem telefone. Tentei controlar a respiração, as mãos e a ansiedade que batia na minha cabeça. Muito provavelmente ninguém tenha percebido que eu estava entrando em colapso, espero que não. Feijoada não é peixe, triste feijoada. E assim, os dias vão indo de vento em polpa, pelo ralo, dragados pela suculência de não conseguir fazer nada de útil.
Ei, olhe para mim!
Respiro fundo, percebo que perdi a concentração e volto ao mantra do olhar de poder. Fico contando de 0 até 10 em repetidas vezes. Até que finalmente ele funciona. Você acha que estou olhando nos teus olhos, mas não estou. Foi lá pela terceira consulta, ele me disse algo que me ajudou durante o processo, me disse que eu poderia estudar técnicas de comportamento e replicá-las até um momento que seria algo "natural", passei a comprar livros de autoajuda nesse seguimento, testei muitas coisas e das quais eu mais fico feliz em conseguir em proeza cotidiana é o olhar do poder. Claro, depois de me concentrar muito. Fico olhando por entre teus olhos, onde calçam as sobrancelhas. Pessoas do espectro não fazem esse tipo de contato tão primordial. Parece que tudo se resolve quando se é normal, quando se faz coisas normais. Pena que é doloroso e confuso em sua maioria, e talvez, por agora, não seja prioridade. Um dia, as pessoas serão capazes de entender os outros sem precisar fazê-las se sentirem um lixo-humano, descartáveis e impróprias, mas até lá, sigamos em crença no mínimo necessário para viver.  

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

NeonDawn


 O holograma de ontem sorri, dá uma piscadela e me convida a segui-lo. Iremos almoçar. O holograma vai sozinho, acompanha em silêncio se eu estiver para o silêncio, acompanha em conversa se eu estiver para conversa, acompanha sempre aos cuidados de. O holograma é um fantasma que aparece durante todo o meu dia. É um exercício resolvido ao som de Pearl Jam, uma ida ao Shopping para ver cartas do Pokemon, é um parceiro calado. O Holograma era você, e toda sua feição em me fazer bem. Sei de tudo isso porque eu vivo Rhye - The Fall: as nuances, os movimentos, e a melodia da madrugada. 
 A melodia se estende por muito. Ouço as mesmas músicas, nas mesmas condições. Ultraviolence quando triste, MDNA quando em dias de sol, várias playlists específicas para cada momento. O banho antes de sair de casa é programado, o banheiro que nunca usei é evitado, a praia é jurada em visita, os dedos nunca mais se entrelaçam. A madrugada também traz algo que açoita o sono, ela amargura mais que o preto que aquece os lábios. A escuridão transborda fulgurante por entre as paredes, e você nunca vai entender o porquê das coisas.
 Já se perguntou hoje os motivos que te guiam? Onde quer chegar daqui a pouco?
 Eu deixei de fazê-lo por aceitar a derrota. Planejar um universo de possibilidades é algo que ninguém mais faz. Hoje tratamos o dia como ultimo, menos um dia, mais uma conta para pagar. Querer é algo problemático, pois traz certas incertezas que tem frustração certa. É como comprar um livro e não lê-lo porque está embalado em plástico. São besteiras que dificultam o dia, bobagens alienadas do mundano e ridiculamente compartilhada. 

 Ouço os risos deles novamente, acredito que seja sobre a lata na mão, a lata ainda fechada e já quente. A lata que eu pedi discretamente que abrissem e logo eu fora ignorado. Dizer que eu não quero mais já passou da validade. Mais um momento de ridicularização que massacra qualquer vontade de socializar. Volto a estaca 0. Agora protegido, tento sublinhar este dia como um dia produtivo para o vazio. Alimento os peixes do aquário que coleciono. Tenho um novo em folha para se preencher com as lágrimas que descem sem perceber. O cascalho no fundo é todo reluzente, são pedaços importados dos sonhos que deixei quebrar por não mais acreditar que era possível. 
 Essa semana me convidaram para ser alguém, quando cheguei lá vi que era o local certo na hora errada. As luzes eram de uma cor vibrante, as pessoas com aspectos estranhos para um panteão. Diminuto pela pobreza de estilo, voltei por um momento. O holograma estava ali, você não, mas o holograma sim. Ele me olhou com senso de propósito, e com a aura do não-julgar, me disse: Você não precisa estar aqui se não quiser, mas se quiser, eu também estarei aqui. 
 Sabe, caminhei até a primeira ruela e fiquei ali esperando a chuva cair. Não demorou muito até tudo se derramar. Quando você está na chuva, as pessoas não saberão se você está chorando ou não, porque tudo se derrama feito lava, e como tal, abre-se um caminho devastador até que ela se resfria e pára. Ninguém ousou me questionar pelo banho de chuva, ninguém se importa com a chuva até que precise fazê-lo. E, por isso, releio as letras em neon, gravo-as na memória para outra hora. Uma hora em que talvez eu volte a acreditar que posso ser alguém.
  

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Tempos de Cinzas.


Eu sabia que não era uma boa ideia, mesmo assim, arrisquei quebrar o protocolo que tento criar para poder fazer as refeições sem pragmatismos. Acendeu de maneiro costumeira, "@X curtiu sua foto", e após 15 segundos, tempo suficiente para a notificação expirar, "@X curtiu sua foto", e assim se fez outras vezes. Eu já havia desistido de capturar as notificações e te aconselhar a respondê-las de pronto. Porque tem horas que pequenas coisas significam muito, e tantas outras vão além do nosso poder de pedir. Mirei a refeição seca, comi o melhor que pude, e deixei correr os diálogos que me atraem. Sempre que surge algo interessante, o massacre é quase que unânime. Todos ao redor ficam desdenhando, satirizando e calando conversas com teor atrativo. São chatices que ninguém quer saber, dizem eles. Eu continuo calado. Aprendi a ficar calado depois de perder muitos bons contatos. As pessoas não querem saber sobre meus gostos, sobre o que faço de melhor, ou outras teorias que leio por aí. E, sentado à mesa, vejo uma cena que já marquei a pele com mágoa, era bem assim que as pessoas se afastavam por eu só falar da mesma coisa, ou falar demais sobre pessoas mortas, sobre teorias nunca lidas/ouvidas antes, era bem assim. Propositalmente, a tela volta a acender, a figuração do diálogo nos bastidores do dia começam a me deixar exausto como o resto do dia. São conteúdos similares: idades, amigos, músicas, redes sociais, o que curtem nessas redes, os comentários de um para o outro e conceitos de gente normal. Além do que, formam um belo casal. De soslaio vejo vocês conversando, o toque sublime no cotovelo, no ombro, as risadas, as mãos circulando no ar e a confiança pairando em seus sorrisos. Vocês têm uma boa conexão. Considero isso fantástico, porém hoje não posso ficar contente por ti. Hoje é um desses dias de clima nublado, que choverá a qualquer momento, onde eu vejo tudo isso que vocês são e eu não, vejo o que ele pode dar e eu não, vejo as ciências sociais calada por mais uma vez e isso não será problema, bem comigo era. Muitas coisas comigo são diferentes, como a torta que não é pedida quando estou presente, como o livro que não é locado quando estou presente, quando os passos ficam se arrastando, como minha presença fica pesada e difícil pra qualquer um. Observei, meses atrás, o quanto de amizades era crescentes, e tudo era comentado como um "nada demais", "apenas contatos", e nós sabemos melhor que ninguém que não passa de uma mentira dita pra si, que tudo tem um significado relevante e bem objetivo, porém não ali, não naquele momento. Sei disso porque são mentiras diárias que contamos para si, para fazer a gente acreditar em nós mesmos. 
Eles apontarão os dedos e falarão coisas quando me verem, isso é bem normal da humanidade. Por isso, e mais um tanto, é que passo a tentar ser suprimido pelo trivial, sem curtidas de apoio, sem comentários alusivos, sem passeios de mãos dadas, sem sms na madrugada, sem sorrisos ao encontrar, sem futuro a planejar. Viver um dia normal, seguido de outro, e por aí vai. Sem afetos irrisíveis e superestimados. A vida cansa por um momento e é aí que lembramos que estamos sozinhos na vida adulta, meio que descompassa tudo. São tempos de cinzas, céu cinza, chão cinza, chove o dia inteiro, lá em casa, aqui na rua, ali nos meus olhos do espelho. A tristeza não se faz presente, apenas exaustão súbita das coisas tolas, de uma conversa não tida, de um segredo ocultado,  de uma mensagem apagada. Isso vem corroendo e despejando indiferença nos eventos cotidianos, você percebe e não agride minha parte para não sacudir a tua, o "está tudo bem" sepulta aquilo que firmamos em nunca mais ousar em tocar. Você sabe do que estou falando ou vai fingir que não é contigo?
Pessoas adultas adultas conversam, entram em acordos e seguem a vida. Estou exatamente nesta fase, o problema é que o esforço de conversar tantas e tantas vezes acaba arranhando o bem-querer, rasgando-o de maneira vil. Espero que eu não desista antes de acabar, porque a força é quase nula. No mais, estou indo embora.

domingo, 3 de setembro de 2017

Demente.



Como atividade lúdica, ele me disse para escrever uma palavra por dia. Aquela palavra que me disseram em adjetivo. A palavra será um guia para redefinir meu eu e transparecer a minha pessoa através de outros olhos. Colocando em prática, peguei alguns post-its e passei a colar na parede de casa. Um por dia. Como um mapa em prefácio. Até agora poucos borrões amarelados com palavras de familiares. Tentarei seguir ao menos por um período de testes, uns dois ou três meses, depois recolherei todos em ordem e seguirei para próxima fase. 

Adaptação



Deve haver um mundo onde você possa caminhar entre as flores, entre os amores, entre as cores de aurora. Deve haver vida além da escuridão. Se não houver, acostume-se. Acostumei a dar de ombros, a ficar calado em vez de explicar, acostumei a não precisar sempre, a não querer tanto, acostumei a ficar sozinho, a fazer sempre a mesma coisa.
Se o rascunho falasse por si, você certamente saberia os quilos de tinta preta que se despeja por entre as noites de frio. As letras se derrubam, se trespassam, se matam por aparecer e não sucumbir ao vazio que são as noite de chuva. O som da melancolia é sabido pelos vizinhos que tentam sorrir param mim quando passo por eles na sorte. Tentam dizer que Deus me ama, que o dia está lindo, que a economia vai melhorar... são tantas esperanças viscosas que são diluídas pelas paredes falantes que contam as verdades. Ouço cada um deles confessar o contrário quando estão salvos de si, no calar da noite, na depuração dos sonos, todos tolos durante o dia, todos tolos.
Apesar de passar por coisas que poderiam ser belos relatos metódicos, processei as informações como recebo elogios: Jogo-os no lixo, amassadamente. Essa tão desesperança, velha conhecida, não traz qualquer novidade, qualquer menção ao passado ou futuro. Ela se projeta como naqueles tempos cinzas que eu não sabia quem eu era, o que eu era, e o que poderia ser. E, claro, hoje, tudo isso se estraçalha em desdém por ser apenas mais um dia da vida lixo. Parei de comer e sustentar o corpo. Passei a digerir do fim ao começo, como as letras que corrijo agora por autoflagelação linguística, ludibriando o arquipélago lácteo que flutua em preto frio.  Acostumar é sinônimo de adaptação, e assim se vão os dias, menos um dia por vez, craterando a vontade de seguir em frente.

terça-feira, 25 de julho de 2017

A pausa.




Entre as atividades é sempre bom dar uma pausa. Na cultura grega, tiramos uma hora do dia, durante a semana, para pensar nas coisas. Pensar na vida, em tudo o que nos acontece, e também no nada. Fluindo o pensamento e relaxando em vez de dar aquela ansiedade nos problemas. Pausar para pensar no momento, no agora, no eu. Há quem confunda a pausa com o cochilo, com a preguiça, com a paranoia e o descontrole. Tudo errado. Pausa é aquele suspiro que alivia, é aquele molhar pés no mar, é aquele gole num vinho esperado, é uma risada com alguém que não vemos há muito tempo. Pausar também não pode se demorar, não pode se esticar uma pausa ou logo de dará lugar ao procrastinador hábito perigoso.



sexta-feira, 23 de junho de 2017

Lápide.

 Ainda é cedo e, para quem dorme próximo das quatro da manhã, um sms não é nada às vinte e duas horas. O problema de entrar em um turbilhão é quando não se sabe sair dele. Justamente assim, começou o final de semana. A minha vontade era levantar todas as questões que se desenvolveram com a seguinte frase "vou fazer aquilo que te disse que não faria", e o flashback de promessas, juras e afirmações brotaram nas paredes como post-its. O que se deve esperar de alguém que tem atitudes contraditórias declarando que vai fazer isso propositalmente? Sinceramente, eu espero tudo e qualquer coisa. E, por mais que seja previsível, a única pessoa que vai sofrer com isso é aquela que não saberá lidar com as consequências dos atos (im)pensados. Se você, leitor(a), acredita piamente que vai carregar o peso dos ecos do teus atos sem reclamar, enfrentando numa boa, dou-te parabéns e siga forte. Porque, se o arrependimento surgir, aí terás um problema exclusivamente teu. Não terá choro ou ranger de dentes que corrija o tempo riscado com frustração projetada. Mas não te preocupes, tudo é uma questão de aprendizado, e a melhor época para errar e aprender é entre os 16 e os 25 anos. Dá para fazer muita coisa boa e ruim, maturando as consequências a cada dia.
 Ainda é cedo e, começara a pensar em planos futuros para quem não sabe nem o que fará ao amanhecer é, deveras, trabalhoso e inútil. Remoer a culpa, rever frases e diálogos, mexer aqui e ali como se uma planilha virtual se projetasse na parede, auxiliando a paranoia rotineira. Cheguei tarde ao enterro da ideia de você. Todos já se foram, as flores de prêmio caem ao pé da imagem, leio "faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço" gravadas no mármore. Repouso por um tempo no jazigo, tomo os drinks que trouxe para celebrar a união. Tudo morre uma hora ou outra. E, aqui, morre mais uma parte de mim.
 Ainda é cedo e, mais uma vez a memória falha. Estou tomando esses glóbulos de cores alternadas para aliviar a pressão de viver. A sonolência nem é tão forte, mas às vezes me esmagam o crânio. Aos poucos, como o cair da chuva de inverno, minha memória se esvai. Gradativamente, minhas lembranças são surrupiadas pela dor de não querer lembrar das coisas, de não confrontar o passado com o presente, de não te mostrar quanto dói saber do mármore. As lembranças vão morrendo como ato unilateral de gostar. O efeito é simples, como um mantra, uma façanha trabalhada para melhoria pessoal. Primeiro se vão as coisas mais irrisórias, depois nomes, lugares e coisas, evoluindo para datas, acontecimentos e finalmente sentimentos.
 "Talvez tenha finalmente aprendido", é o que está na testa por agora, observar e agir. Foi assim que aprendi a me enturmar, livros de expressão, controle e sensibilidade. Aprendi a emburrecer, a dissimular e principalmente a mistificar. Agora, mais que nunca, reforço as aulas de desmemoriamento, esquecendo o(s) que importa(m).  


domingo, 18 de junho de 2017

Caprese





 Quando a revolta é maior do que o medo de sair, é justamente quando as coisas inimagináveis podem acontecer. Nem pensei duas vezes ao fechar a porta, deixando para trás um escarcéu efusivo, apenas queria ir para qualquer lugar que não fosse minha casa. Geralmente, as pessoas comuns querem deixar tudo e ir à casa como refúgio perfeito. Comigo é justamente o contrário, parece que o barulho do mundo é mais silencioso do que aqui dentro. 
 A chuva castigava a cidade como outrora, entretanto não seria isso que pararia a vontade de fugir. Uma vontade máxima que evolui com o passar da vida. A cada dia, a cada minuto, mais e mais vontade de apenas sumir. Ser arrebatado por uma ordem superior, aliens, ou seja lá o que for. E foi assim que segui o mantra até o ponto de encontro. Uma frase reiterada de que o novo poderia ser melhor do que eu já tinha até ali. Segui com receio preso na garganta, quebrando um, dois, três pontos de segurança. O frio não me deixava mostrar que eu suava de nervoso, as unhas já tinham sido roídas e, por sorte, o dinheiro do Uber-Fuga já estava bem preparado. Porém, ao se declarar um estranho no circulo, um neófito no castelo, um anônimo entre os bancos, me senti confortável. Tudo era novo, e eu poderia ser quem eu quiser. Escolhi o personagem mais caricato e audacioso de todos que já vi. Escolhi vestir a máscara do meu eu polido. O que não mente, não distrai, não se incomodar em incomodar.  
 Falei muito sobre as coisas que me apetecem, sobre situações confusas, vozes asperas e tendências de solidão. Falei muito sobre tanta coisa em um mix quase que ensaiado. Comendo pizza de Natália Klein, bebendo água de Victor Hugo, nas paredes via Downton Abbey, nas roupas Warner Bros e Sony, o ar era 212 e Polo, um clima Friends e Happy Endings. Referências em uma noite irreverente. Essa foi a noite em que desafiei o normal, o certo, a contramão. Me lembrei que Vanessa me sequestrava para dias assim, para noites também. Lembrava de muitas vidas e pessoas, lugares e sabores, lembrei da França, do frio de Montpellier para ser exato, lembre da Gréia, Marrocos, Itália, Emirados Árabes, Chile, Bolívia, México e Guiana (mas a francesa). Fiz um tour nas minhas lembranças de tudo o que já vivi em tantos tons diferentes. 
 A noite seguia em um fluxo de risadas, questionamentos e aprendizado. Todos estavam ali apenas para celebrar um dia comum de sábado. E eu, celebrando uma saudade. E foi aí que me vi triste. Por estar celebrando algo que eu já não podia, algo que já não era bem-vindo. Quando te olhei, quando você sorrio de maneira automática e envergonhada, fugindo do meu olhar de saudade, foi nessa hora que eu vi o sabor da pizza. Não é errado você querer experimentar outros sabores, mas você sempre terá um preferido, ou um que você consome mais. É natural experimentar, mas, quando se come uma pizza do mesmo sabor que você já conhece, não se pode esperar degustar uma coisa diferente. Caprese é caprese, frango é frango, mista é mista, e por assim vai. 
 Essa noite foi a noite da Caprese. Ora por curiosidade e ora por ousadia. Mas, não sei se me acostumaria a ter o mesmo saber todos os dias, não esse que já conheço e que um dia me engasgou. A vida tem disso. Tem umas saudades que são ruins mas confortam. Vai entender. 

O mesmo time

Imagem de AmalasRosa Converso com um controverso. É difícil no começo, depois se torna divertido, mas agora é só um monte de repetição. Repe...