sexta-feira, 18 de julho de 2014

Por Graciliano Ramos:


"Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar.
Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer."

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Isso é para você.


Para você ganhar belíssimo Ano Novo...
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependimento
pelas besteiras consumadas nem
parvamente acreditar que por decreto
da esperança a partir de Janeiro
as coisas mudem e seja claridade,
recompensa, justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e
gosto de pão matinal, direitos respeitados,
começando pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo que mereça
este nome, você, meu caro, tem de
merecê-lo, tem de fazê-lo novo,
Eu sei que não é fácil mas tente,
experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
dorme e espera desde sempre.

Autor Desconhecido

E como fonte de inspiração: <Isso é para você>

Nesta vida temos duas obrigações: aprender e ser feliz.



 E você, já sorriu hoje?
 Ainda não?
 Vem ser feliz também!
 É tão fácil ser feliz.
 Calma, ser feliz não é ser rico, ter status ou aquilo que você sempre desejou.
 Isso se chama metas da vida.
 Ser feliz é outra coisa.
 Você pode ser feliz e nem saber.
 Tem gente que chama felicidade de amor, de aventura, de jogar tudo para o alto e seguir em frente.
 Feliz é aquela pessoa que sorri porque está bem.
 Consigo, contigo, com todos.
 Com lágrimas, com raiva, com afeto.
 Com todo os sentimentos que o ser humano pode ter.
 Ser feliz é estar feliz em qualquer hora ou lugar.
 Porque quando a alegria atinge o peito...
 Aahh.... quando ela atinge o peito, ela fica.
 Não vai embora tão facilmente.
 A felicidade aluga o coração e deixa as contas para a razão.
 A felicidade é algo que criamos para dar nome as situações.
 E você, já sorriu hoje?
 Ainda não?
 Vou te dar umas dicas, ou melhor, vão te mostrar como fazer isso.
 Porque a felicidade sempre é compartilhada.
 É automático. É genial.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

A carta.


Para ler ao som da faixa 13. 

Apressado. 
 O ônibus das doze e trinta e cinco já estava vindo, já conhecia, consegui vê-lo no ponto seguinte. Eu já estava atrasado.
 O carteiro ao virar a esquina cumprimenta-me com um sorriso. Cartas. Agradeço apressadamente e aquele monte de envelopes são abraçados pelos cadernos e anotações da minha mochila.
 Atravesso a rua em correria, não posso perder este. Ao subir, ônibus lotado, mal dá para se segurar sem ouvir lamentações alheias. 
 É mais um dia de luta para conseguir chegar lá. Acordo. De tão cansado e não acostumado mais a perder noites pelo próprio pensamento, dou conta que cochilei. Verifico o ambiente, e não há nada para ler. Os passageiros são ligeiramente os mesmos, são estudantes e trabalhadores que vão para a parte alta da cidade, longe da praia, do movimento, do comum.
 Me esgueirando consigo saltar no meu ponto sem perder a sincronia. O ônibus segue, eu fico. 
 Corro diretamente para o meu bloco, atravesso o pátio sem admirar as árvores, as flores, as pessoas. Apenas sigo. Chego na sala do mesmo jeito que sai, apressado.
 Pego minhas anotações, tento ter atenção na aula. Cochilo uma ou duas vezes. As pessoas não se falam, o professor se repete, no quadro tudo tipo grego. Não entendo nada, anoto tudo. Estudo depois. 
 O alarme não soa, as pessoas comentam. Fim da aula.
 Continuo nela até esta se esvaziar. Pego meu monte de cartas e vejo as quais devo abrir por agora.
 Conta, propaganda, conta, conta, convite, outra conta, uma carta de longe.
 Eram tantas coisas que contei novamente. Sim, tinha uma carta de longe. O carimbo era de três meses atrás, os selos eram de linguagem diferente, euro. 
 Tremi.
 Não espero nunca uma correspondência pessoal, quem diabos ainda manda cartas?
 Jogo as outras na mochila. Titubeio com a carta na mão. Abro ou não abro?
 Eu suo, eu tremo, nauseante vou até a janela.
 Por que agora? Depois de tanta coisa... Por que agora?
 Penso em jogar fora. Rasgar aquela porcaria. Me vem raiva no peito, me vem aquelas lembranças de um amor tranquilo, me vem vontade de bater em tudo, apagar da memória.
 Maldita carta que vem do passado para me torturar. Que droga!
 Me acalmo. Não consigo saber o que fazer. Também seria desonesto alguém ler, e se tiver algo de íntimo ali? E se for alguma coisa que eu deva saber, tipo estou infectado por alguma doença, ou um filho, ou sei lá. O que será que tenho nas mãos? Nenhuma notícia é tão forte que não pode ser dita pessoalmente, por telefone, hoje não por favor. Agora que consigo sair de casa sem me sentir vazio, já sendo visto como mais saudável, ganhei peso, voltei a fazer umas coisas que gosto... Por quê?
 Minha curiosidade é mais forte que o medo. Tenho que saber o que tem aqui. Será um pedido de desculpas? Mas ninguém some do nada, não dizendo nada, sempre há alguém na jogada... O que deve ser?
 Rasgo a ponta do envelope vagarosamente, rezo para que não seja nada, um engano talvez, qualquer coisa. Há algo dentro, apenas um papel. Um dizer.
 Trêmulo, pego com a ponta dos dedos e escoro o corpo na parede.
 Leio.
 Choro.
 Aperto a carta contra o peito.
 Ainda existe amor.




domingo, 13 de julho de 2014

500.


Por K. Fireman, Q. Policarpo e Ele.

 O quinhentismo foi um movimento literário atípico, isso mesmo, muitos historiadores, especialistas e grandes estudiosos não costumam aceitar tão bem essa tal ideia. Contudo, os livros mais modernos aceitam por mostrar uma grande objetividade em suas explicações.
 Os que negam dizem que como não há núcleo definido na manifestação, não há idealismo ou informação relevante, não pode assim ser levado como movimento literário, passagem expressiva da literatura brasileira. Os que afirmam dizem que historicamente marcou o início do país e assim percorreu uma leve variação em seu conceito, sendo finalizado após a independência.
 Como você sabe, o Brasil foi "descoberto" pra lá de 1500, por isso o nome Quinhentismo, e suas principais fontes de confirmação da fase informativa era exatamente a informação. Os documentos oficiais como diários de navegação, cartas expedicionárias, relatos dos viajantes, tudo aquilo que dava alguma informação válida do novo continente aos portugueses, e logo ao todo europeu. A fase informativa foi marcada por uma vasta manifestação da descrição. Pero Vaz, Pero Magalhães, Hans Staden... todos eles narravam sua cota de Brasil ao longo de suas jornadas. De animais estranhos com vislumbre mítico, plantas multiformes, cenários paradisíacos, até habitantes exóticos desprovidos de cultura.
 Portugal viu aí sua forma de expandir o catolicismo que estava sendo oprimido pelo protestantismo. A Igreja tinha uma saída, Portugal um quintal cheio de coisas novas e exclusivas. Só navegavam com autorização de Portugal e Espanha, mas os lusitanos eram melhores em suas construções navais, tipo os Gregos nas eras romanas. Então, baseado na antiga síndrome de Carpe Diem eles foram arrancar todos os recursos do continente maravilhoso.
 A fase jesuíta foi expressiva na santificação e exploração da divindade aos indígenas. Sempre presentes os autos, versos, cantos e peças glorificando a imagem de Deus, os caminhos da fé católica aos pecadores mortais. Os santos, anjos e palavra santa era o que vogava naquele período. Brasil tornou-se um grande centro de exploração ambiental, e um recrutador de fiéis. Claro, tudo isso jorrando sangue, escravizando nativos e impondo a cultura européia aos que aqui nada sabia. Jesuítas eram homens de Deus, Deus por sua vez era a coroa portuguesa, esta mandava e desmandava no que tinha que acontecer. Afinal de contas o Brasil era apenas um recurso adicional. Padre Anchieta, conhecido hoje e até mesmo santificado, ficou famoso por ser o líder Jesuíta e um dos que tentava sempre apaziguar as rivalidades dos homens brancos versus homens ignorantes. Talvez essa facção de religiosos tenha visto o que realmente era amor ao próximo e tentava convertê-los por mera ignorância da época.
 Depois de 1822, independência do Brasil, os homens de cultura buscavam mostrar a integridade do brasileiro, tentando assim captar sua essência verdadeira, surgiu por fim a fase romântica. Ao enaltecer o índio como herói brasileiro, os românticos cultuavam a imagem do verdadeiro brasileiro, aquele massacrado de outrora, e não os cheios de pompa e maquiagem, o verdadeiro Brasil foi arcabouço de inverdade e injustiças desde sua origem, mas na fase independente onde a coroa deveria finalmente cair e dar vazão ao povo e sua voz, nesta mesma fase de transformações geopolíticas, a literatura cuspia na cara da sociedade que nenhum deles de fato poderia gritar Sou Brasileiro com tanta certeza.
 Os quadros marcavam os acontecimentos passados, ora por honra, ora por culpa. Os íntegros tentavam demonstrar o real fato do selvagem ser o mais culto, ao mesmo que os mais cultos tornaram-se selvagens por ego. A literatura de fato nasceu aí, Quinhentismo propagado de oficiais até civis memoráveis, Ubirajara e Iracema, romances onde o brasileiro era a própria fé.
 Século XXI, precisamente 2014, copa do mundo. Se antes o brasileiro buscava um herói nacional para confrontar os europeus escravizantes, hoje não seria diferente. O herói é o mesmo selvagem, mas agora ele está um pouco diferente. Jogador de Futebol, nas capas de revistas, jornais, adesivos, músicas... o herói brasileiro, ou apenas sua representação personificada perante ao mundo, nada mais é do que alguém que não sabe das próprias origens, não sabe para onde vai, só se importa com o hoje e o agora. Mandado pela ganância de ter, ele se vende às publicidades mais diversas. Sempre acreditando fazer o melhor para si. O índio não sabia bem o que ia acontecer, mas confiava nas palavras dos mais cultos, hoje eles (brasileiros) acreditam nos mais cultos sabendo não muito bem o que vai acontecer, mas vão porque estão em vantagem.
 O brasileiro. Raça que sofre desde cedo em sua maioria, sempre com o sorriso no rosto para as desaventuranças do mundo, meio apaixonado pelo ciclo dos antigos, sempre esperançoso de que tudo vai melhorar. O brasileiro. Povo, nação, população que não tem o mínimo de conhecimento eleitoral, que vivem no marasmo de sobreviver, o povo que sempre se deixa ser levado pelos que sabem.
 Sou patriota, mas não tenho orgulho do meu país. Segue: Patriotismo, do grego patriótes (patrício), é o sentimento de orgulho, amor, e devoção à pátria, aos seus símbolos (bandeira, hino, brasão, vultos históricos, riquezas naturais, e patrimônio material e imaterial). É razão do amor dos que querem servir o seu país e ser solidário com os seus compatriotas. Ao longo da história, o amor à pátria vinha sendo considerado um simples apego ao solo. Tal noção mudou no século XVIII, que passou a assimilar noções de costumes e tradições, o orgulho da própria história e a devoção ao seu bem-estar. Através de atitudes de devoção para com a sua pátria, pode-se identificar um patriota.

 Serei eu patriota apenas quando se tratar de esporte? Ou serei eu o tal patriota quando negar e apontar a corrupção, das menores às maiores, quando agir de bondade e humanidade com o próximo, quando tentar educar aquele que não teve condições, alimentar o faminto, agasalhar o mendigo, cuidar do moribundo... O que é ser patriota em uma nação sem identidade?
 Quem é o brasileiro? Para a mídia, é aquele em que vive do sustento do salário mínimo, aquele que acorda de madrugada para trabalhar na casa de uma família "superior", brasileiro é o sorridente que sabe que está fodido mas não liga, teve o ensinamento que a política é um antro de ladrões e que isso nunca vai mudar, que a saúde, educação e segurança se alternam nas problemáticas e paralisações. O brasileiro é este que não investe no aprendizado a não ser que seja estritamente necessário, afinal de contas quando não estão trabalhando e gastando horas de suas vidas em transportes indignos, apenas querem curtir suas famílias e sua casa, que por sinal raramente é própria.
 Quem é o brasileiro que sonha alto, em ter a casa própria, em ver os filhos homens de bem, mulheres determinadas, me diz: Quem é esse brasileiro? 
 Para se controlar um povo já é sabido que basta tolher um dos elementos da Tríade do Desenvolvimento: Educação, Cultura ou Economia. Percebeu que todos são relações sociais? Pois bem, se você pergunta pela segurança ou saúde basta tomar de atento o principal e revolucionário fator Educação. Quando se tem uma educação de qualidade, ou seja, adotar um política de expansão do conhecimento fazendo com que a mesma teoria se desenvolva nos seres presentes e façam-nos detentores de reflexão, estes iram sobrepujar os limites oriundos de um passado massacrado e terá uma visão sistêmica do que é a sociedade. Um conjunto de valores e crenças que se perpetua em um povo, assim a valorização da cultura é desenvolvida e juntos deles a própria Economia. Contudo, isso tudo é utópico enquanto esta mesma sociedade se limitar ao comodismo preguiçoso de olhar para o próprio umbigo. 
 A economia não se desenvolve sem educação. Girará em contínuo declínio maquiado pelo bolso parcelado em prestações. A cultura do jeitinho que apenas me beneficia continuará sendo o pleno favoritismo, colocando os campos de trabalho nos típicos Com Indicação, e logo o mérito de se esforçar e criar um arcabouço de conhecimento será frustrante no fim do dia. Quem ganhou a vaga foi alguém que conhece alguém, nepotismo ou não, já ganhou. Daí eu perderei tempo estudando ou me dedicando ao mais fácil? Será mesmo que amanhã o dia será melhor? Bom, melhor pensar no hoje, porque eu ainda tenho coisas para fazer.
 Passam anos, décadas e o povo continua na mesma. Querem evoluir, tornar um melhor povo, com melhores condições de moradia mediana, educação suficiente, saúde de mínima qualidade e prestação humanizada dos serviços públicos. Finalmente as pessoas serão pessoas e não apenas seus números numa fila para atendimento. Talvez assim elas não pensem que a política e democracia sejam algo que os espertos inventaram para poder viver milhonariamente as custas de um povo que apenas pode sonhar porque é de graça. 
 O problema do povo é o próprio povo. Se quisessem mesmo mudar já o teriam feito. Fazem isso quando querem, criam Ongs, ajuízam ações através do Ministério Público, mostram nas mídias quais as mazelas in loco.  Apenas quando querem, geralmente quando afetam diretamente a si. O problema dos outros são dos outros. Esse é o espírito patriota que vem lá de longe, talvez uma herança Portuguesa, talvez consequência de uma cultura falida, talvez pela má educação, talvez pela economia que não investe, que não economiza.
 De fato tudo isso acontece e você ainda quer que meu herói seja um jogador de futebol porque somos o país do futebol? Meu herói ninguém vê, ninguém o conhece, ao menos por agora. Meu herói é meu espírito de mudança e aos poucos eu mudarei o mundo. Você pode rir ao pensar que eu nunca poderei mudar nada que seja notado, talvez você até tenha razão. Mas com certeza eu conseguirei bem mais que isso, e você não notará, pois a minha missão é ser imperceptível.
 Rico nunca serei, feliz já sou faz um tempo.
 Meu herói sou eu mesmo, e minha jornada está apenas começando.
 E você?
 O que te faz querer o infinito?
 Quem é o teu herói?








sábado, 12 de julho de 2014

Faça amor nu.


Quando for fazer amor.
Faça nu.
Tire os diplomas.
O Status.
Sucesso profissional.
Suas etiquetas de grife.
Tire a chaves do carro.
Os cartões de crédito.
Tire tudo.
Até só sobrar a deliciosa.
Apimentada humanidade.

Zack Magiezi.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Couple.




 Vivemos em um planeta com mais de 7 bilhões de pessoas, e você está aí achando mesmo que a garota do fim da rua é a única pessoa que você amará na vida? Sério?

 Acredite que do mesmo modo que você conhece pessoas em muitos momentos da vida, também conhecerá aquelas que proverá amor e ódio. Não se engane em se questionar onde ou quando, isso pouco importa. O que importa mesmo é o que você quer da sua vida.
 Isso mesmo. Se você não sabe o que quer para si, como irá então pedir isso de outra pessoa? Um conselho, se você me diz que não sabe o que quer, comece então pelo o que não quer. Vá por eliminação e afunile essa gama de questões que rodopia por tua cabeça inconsequente.



 Mais de 7 bilhões de pessoas, acha muito? 


 Você sabe me dizer o nome de todos os seus vizinhos? Sabe me dizer quantos anos eles têm? De onde vieram e talvez até o que esperam da vida, sabe dizer?
 O mundo acontece sem você. É a maior verdade que um amigo meu confirmou por esses dias, e é exatamente neste momento que você deve se perguntar por que diabos então eu devo me preocupar com os meus vizinhos. Pois é, não deve. Não de modo obsessivo, afinal de contas, você é o vizinho dos seus vizinhos.
 Daí, a metros de você está uma gama de sentimentos oriundos dos mais variados valores e conquistas. Isso dos mais próximos, agora vá subindo a visualização mental até chegar a ver a cidade, suba mais um pouco e verá os estados, vê as luzinhas iluminando as coisas? Suba mais.

 Umas 7 bilhões de pessoas falando diferente, comendo estranho, falando coisas indecifráveis.
 7.
 Sete.
 E por quantas noites você já chorou por ser abandonado? 
 E por quantos dias você já desejou não atravessar por estar com aquela ânsia de morte por ter o coração arrancado, dilacerado, engando, ignorado?
 7 bilhões de mini seres indo e vindo, com seus planos, com seus pecados, com suas iras mais humanas, com seus choros colhidos ao relento.
 Pobres, ricos, brancos, pretos, homens, mulheres, transgêneros...


 Há quem prefira os animais. Amando-os em todo seu curso de vida. Fiéis maiores que a Igreja da Ultima Salvação. Cachorros, gatos, peixes, iguanas, pequeno e fofinhos hamters. Quem diria? Amar animais por desistir da humanidade. Há quem prefira. Há quem seja feliz.

 Me desculpe, falei tanto que até esqueci de te perguntar: O que é amar para você?

 Cada um inventa um conceito que é mais agradável, mas como sentimento o revés é implacável. Não fique desesperançoso, os seres humanos têm a incrível habilidade de adaptar o amor. Então, se uma hora dessas você ficar triste por se sentir sozinho, lembre de limpar seu umbigo e olhar para os lados, existe vida fora do teu mundo. 
 Tudo começa com as situações mais idiotas, um breve olá, um aceno, uma indicação de livro. Pode ser qualquer coisa, mas nunca, jamais esqueça que a perpetuação de toda e qualquer relação é o diálogo. Não esse de 140 caracteres, "involua", seja praticante da antiga arte de conversar pessoalmente, por videochamada ou no máximo por telefone mesmo. Não pereça no mundo do superficial, saia de casa às vezes só para dar uma volta e imagine as pessoas e como elas levam a vida delas, como elas agem, o que elas querem, como será o dia delas ao chegarem em casa. 
Amplifique seu individualismo de uma forma que englobe os seus ideais e a aceitação que você é um micróbio num corpo com mais de outros 7 bilhões de seres fazendo mil coisas diferentes, em células diferentes, corpos estranhos, vírus, bactérias, Ozmose Jones.

 Não sei qual o amor em que você acredita, se é o de mãe porque você a perdeu, ou porque você gosta de mostrar aos outros por mera vaidade hipócrita, ou por achar que só falar é realmente ser um bom filho. Não sei se é o da tua esposa ou marido por promover um casamento sólido meia-boca, por uma perspectiva de vida medíocre, por cuidar dos filhos ranhentos ou dar-lhes a pensão merecida. 

 Exatamente não sei que tipo de amor vocês mortais acreditam que exista. O que vejo é sempre um carinho forte, uma prepotência exacerbada, uma paixão a cada seis meses como se fosse a primeira da vida.
 Amores dos outros, amores roubados, amores mendigados, amores requentados, amores empurrados, amores cômodos, amores violentos, amores sangrentos.
 Amores. Amar. Amor. Sete. Bilhões.

 Se um dia você quiser amar alguém de verdade, você nunca vai conseguir. O amor é tipo a Pedra Filosofal, está sempre contigo mas você nunca ousou em sonhar que ela existia, que ela aconteceu. Não poderá mostrar para muita gente, tem sempre alguém de olho para roubar a sabedoria dos antigos, a arte de viver para sempre. Como saber amar de verdade.
 E o melhor não é saber amar, ou amar de fato. O melhor é quando você sente aquele frio na barriga quando seu nome soa como exemplo de alegria, quando você ouve a voz dele ou dela e o sorriso brota na face. A vermelhidão toma conta, as mãos tremem leve, e você quer estar com ele/ela para sempre, com aquela pessoa. Não importa onde, não importa como, você apenas a quer perto. A preciosa.

 Sabe, em tempos de informações instantâneas bem que poderiam inventar aquela de levar o sussurro do bom dia para você acordar mais feliz.


 7 Bilhões de pessoas.

 E você quando cair em si, já terá tomado coragem para seguir o amor. 


 [Continua]

Amor & Distância


Era uma vez uma pessoa. E era uma vez outra pessoa. E era uma vez um amor. E como se já não bastassem todas as complicações inerentes ao amor, este vinha com um bônus: quilômetros.
Quilômetros de distância que estavam lá por alguma razão. Trabalho, estudo, família, raízes, origens, destino, sorte ou azar. Quilômetros estes pelos quais circulavam diariamente as tradicionais e inevitáveis saudades, as inegáveis angústias, a latente ansiedade e a eterna sensação de ser um pouco injustiçado pela vida.
Era uma vez essa história clássica, espalhada pelo mundo como vírus, mas que é sempre nova e fresca e que vive em milhares ou milhões de peitos com essa avassaladora capacidade de causar transtornos e alegrias na mesma medida.
Seriam “amor” e “distância” palavras incompatíveis por natureza? Ou seriam daquelas palavras que se atraem como imãs na sede de criar histórias dignas de roteiros de cinema, atravessando oceanos, desafiando o tempo e todas as probabilidades?
Seria uma espécie de teste? Uma prova para atestar o quão dispostos estamos a nos dar? Seria provação? Uma avaliação para tentar demonstrar nosso grau de interesse pelo amor?
Sei que, por vezes, parece piada de mau gosto do destino. Quando, por exemplo, nos flagramos invejando um casal que está tendo o luxo de passear de mãos dadas. Quando esticamos o braço na cama durante a noite e tudo o que encontramos é espaço vazio. Quando descobrimos que o olfato também sente saudades, como se todo o resto já não fosse suficiente.
E os palcos para as mais belas cenas de amor deixam de ser o entardecer na praia ou a tarde chuvosa no campo para serem um saguão de aeroporto às 7 da manhã de uma terça feira, uma rodoviária lotada no fim do dia ou uma estação de trem cheia de rostos desconhecidos e completamente alheios à sua história.
E você então descobre pequenas dores em atos que sequer fazia ideia de que existiam: acariciar rostos em fotos; passar perfume para falar no Skype;  adormecer com o celular na mão, tentando vencer o sono e a distância e acabar sucumbindo a ambos; fazer da vida uma contagem regressiva, sem se lembrar que cada dia vencido é um dia a menos de vida.
Descobre novos surtos e neuroses, nos quais a frase “vou tomar uma cerveja” é lida como “vou tomar 14 cervejas, 8 whiskys e 5 doses de tequila com 18 mulheres de 1,80m, cabelos sedosos e seios fartos”. Ou a frase “vou sair para jantar” é lida como “vou sair para jantar de cinta-liga, salto 15 e seguir diretamente para uma bunga bunga do Berlusconi”. Acontece. Não é fácil não pirar.
E acaba descobrindo também algumas novas alegrias: as promoções de passagens, o súbito momento em que o sinal do 3G é bom o bastante para aguentar 7 minutos de Viber, o prazer de acordar com uma notificação querida de whatsapp. É uma verdadeira arte de buscar ânimo em pequenas coisas.
Mas a verdade é que não é fácil. É bem mais difícil do que matar um leão por dia. Porque a saudade a gente não tem como matar. A falta a gente não tem como suprir. A ausência a gente não consegue aceitar sem uma certa relutância.
Mas é realmente incrível nossa capacidade de adaptação. O esforço do cérebro para tornar as lembranças um pouco sensoriais: a memória do toque, do cheiro, do gosto. O dia a dia que vai se ajeitando. O coração que se acalma um pouco, mas que continua batendo forte a cada pequena lembrança.
Tem dias em que a gente se questiona. Faz mesmo sentido? Até quando? Até onde vamos? Tem dias de “e se…”. E se não der certo? E se for perda de tempo? E se a gente não der conta?
Mas, no fim, a verdade é que, se é amor mesmo, a gente sabe que vale a pena. Cada passo, cada suspiro, cada quilômetro encarado. E a gente sabe que não tem saída: viver o romance impossível é mil vezes melhor que não viver o romance. E que, no fundo, essa ânsia dolorida faz com que a gente se sinta extremamente vivo a cada dia.
E amar no conforto, no sólido, no concreto é sempre lindo. Mas amar no desafio, no sacrifício diário, na corda bamba é gigante. É para os fortes. Os corajosos. Os dispostos. Os que declaram, seguros, para a vida:

“Vim para amar.
E vou amar.
Não importa como, eu vou.
E não me ofereça um amor mais fácil.
É esse que eu quero.
Esse é o meu.
Não tem outro.”.

Por Ruth Manus

As leituras da lista

Arte: Comfort Zone by Chantal Horeis ou @chantal_horeis A lista de leituras deste ano foi composta, quase que exclusivamente, da...