quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

All The Silence In The Morning.




Eu estava de volta. Não demorei muito em minha peregrinação, mas foi como uma eternidade. Estar fora daquele lugar, de ter o controle do acaso, de ser o caos difuso... Ah, quanta falta faz o nosso lar. Chegando perto da alameda onde se encontra meu domicílio, já não tive espanto quando vi a desolação, A neve tomava conta, uma fria ventania varria o chão expulsando tudo que passava. Parei em frente aquilo que um dia foi um belo lar, uma construção acabada estava deformada, caída pelas quinas, torta pelo meio, não havia qualquer sinal de vida, acho que faz um tempo. Um lugar nada convidativo. As janelas estavam quebradas, algumas delas arrancadas por arruaceiros, provavelmente. Dei meus primeiros passos, abrindo caminho sobre a neve. Meus pés começaram a afundar, o branco engolia minhas pernas, logo estava cavando meu próprio caminho e nem estava perto da varanda. O vento arranhava meu rosto, não estava preparado para aquilo, vim de momentos ensolarados e amigáveis, isto é total hostilidade, como alguém pode deixar um lugar em total decadência?
Vi sombras margeando a casa. Seria algum tipo de pegadinha da minha mente? Não, não era. Pontos luminosos em pares, quatro de cada lado. Uma matilha. Eles rosnavam, e continuavam caminhando em minha direção. Em trevas profundas, sombras de amor-próprio magoado, meras cicatrizes de preservação. Consegui me erguer perante a neve, o ar era sufocante de tão frio, os lobos ameaçavam atacar. Tive que enrolar o rosto para me proteger, e aos poucos atravessei o deserto das minhas intenções. Eles me cheiraram, pularam e mim, me mantive sem medo, sabia de onde vinham, cada um deles, e um era bem maior que os outros, era mais arisco também, acho que esse é o líder, e também o mais recente a chegar por aqui. Sei identificar uma dor quando eu vejo, e aquela era violenta demais para ser dissipada. Espero que um dia ela diminua. Rezarei por isso. Finalmente cheguei na varanda, nossa que terrível esse lugar, o corrimão é gélido e seco, os degraus estão quebrados, a única árvore que esta varanda contempla está tão seca, de galhos medíocres que espero que esteja morta, seria muito ruim ver algo assim vivo, definhando em próprio sustento de humanização. O portal continua o mesmo, posso sentir com minhas mãos as ranhuras que um dia fiz em uma briga no sopé, expulsei vigorosamente um bêbado que tentava invadir. Aqui estão os arranhões, quanta memória. Tiro o pano que me protege o rosto, amarro na maçaneta  e fecho a porta ao passar. Tudo ficou escuro aqui dentro. Sinto o vapor sair pelas narinas ao chamar pelo morador, nada ouço em resposta. A mão ao bolso, pego meu combustor portátil, inflamo uma chama, e iluminando o já conhecido lugar, dou meus passos dentro do meu lar. "Olá?" chamo, passo pelo hall, nada na sala de estar, vejo as fotos antigas embaçadas pelo desdém, os ratos correm pelos cantos, o papel de parede descascou procurando quem o apreciasse, chego até o melhor lugar da casa, a cozinha. Nada. Nenhum sinal de qualquer coisa além de seres diminutos e pragas diversas. Pratos na pias, montes de sujeira e pó, abro a geladeira, tem uma garrafa com um pouco de água com lodo, pedaços de fruta vermelha tomados por uma festa de vermes. Nojo. Fecho a geladeira com um suspiro. Volto ao hall, penso se subo aos outros andares ou se desço ao porão. Porão. Onde se encontram as memórias. Desço as escadas que rangem, faço com cuidado, olho a grande parede cheia de gavetas, grandes e pequenas, elas podem guardar tudo e qualquer coisa, só tem um problema, a maioria delas tem um código, e sem este é impossível ter acesso à elas. O que é bom porque estão guardadas e seguras, porém muito ruim caso você precise utilizar. Eu que inventei esse mecanismo, foi a forma mais inteligente de proteger o morador. Assim ele não viria aqui, bagunçaria as coisas, tentando revivê-las, perdendo o tempo de viver o que realmente importa. Viver o hoje. Cara, olha só essa gaveta aqui, Férias de Verão tem escrito, ouço o barulho do mar, risadas, sinto o cheiro de aventura entre trilhas... Memórias. Olho outras menores, Relacionamentos Inacabados têm numeração em romanos, Faculdade tem nomes gravados na frente, Recife tem adesivo antigo de uma esfera do dragão. Todas essas gavetas, verticais ou horizontais em extensão, todas elas estão aqui para serem usadas quando, apenas, necessária. Não são martírio, não é um templo falido, é um arcabouço de quem ele é. Tudo o que vivemos, mesmo que em um dia comum, é guardado com algo especial. Por isso usamos expressões como "naquele dia", "eu me lembro de...", "foi quando...", tudo isso é de algo que já vivemos e podemos resgatar aqui, no gaveteiro das lembranças. Uma coisa boa é você lembrar, outra maravilhosa é você esquecer. Subo de volta com o mesmo cuidado. Sinto algo diferente no ar. Sinto o gosto da luz do sol. O sol caminha casa à dentro, as paredes se retorcem e crescem, os decaídos se levantam, os quadros se acomodam, os móveis correm para seus devidos lugares, os papéis de parede se desenrolam e se abraçam, cor sim, cor não, verde sim, azul não. Listras agradáveis e contínuas conservam o hall. Ando, observando a nova dimensão, essa foi a mesma que deixem meses atrás. Ouço água corrente. Volto a cozinha, as janelas brilham dia, e logo ali está o morador. Com pernas sobre a mesa, como se fotossíntese fizesse, apreciando o morno sol que apodera deste recinto de uma forma calma e delicada. A pia corre água, os pratos se lavam. Não há pó ou lixo, ou qualquer sujeira de outrora, apenas o corriqueiro café da manhã sendo servido. O bacon faz meu estômago roncar.
-Fiz panquecas. Como você gosta.
-Lembro das suas panquecas, eu nunca provei igual.
Puxo uma cadeira, jogo a mochila no chão, o garfo sequestra uma, duas, três panquecas. Tem queijo, bacon, doce de leite, salaminho, requeijão... Nossa, que fome! O leite vem a calhar, um gole gelado e doce. É bom estar de volta. Verdade, estou surpreso por estar tudo bem aqui dentro, esperava realmente encontrar destroços e um festival de horror gratuito.
-Vi lobos- comentei com a boca cheia.
-Eles estão por aí. Uma hora ou outra vão embora, depois voltam. São bons companheiros.
-A casa está um lixo visto de soslaio.
-Eu sei. Assim evita interessados.
O cheiro de café penetrou pelas vias aéreas, com o mesmo caneco do leite adiciono um pouco do café. É forte, amargo. O favorito de nós dois, assim como os ex amores. E ainda curioso, continuo a perguntar:
-Está tudo bem?
-Tudo tranquilo.
-Parece que alguém esteve aqui recentemente- pigarreio-, vi umas gavetas novas lá em baixo.
-Verdade, mas já está lacrado. Não se preocupe.
Vi o sorriso brando aparecer, seguido de um gole e o olhar de volta as janelas.
-Você está diferente...- suspeitei.
-Estou feliz.
-E por que?- retruquei.
-Porque eu decidi ser feliz.
Decisão esta que eu não estive presente, contudo olho para aquele sorriso e me é sincero. Ver as coisas aqui de forma organizada quer dizer que o objetivo de vida continuar sendo perseguido, a calmaria significa temperança. Sabe, é uma manhã silenciosa aqui dentro, o café impregnou a casa, pães descansando sobre a mesa, pego o jornal e tem a data de hoje, é mais um dia comum, e embora ele olhe carente para o mundo lá fora, é seguro continuar aqui, abraçado em si.  É bom estar de volta, agora posso acompanhar suas ações, vê-lo crescer, ficar acordado quando em insônia, vamos discutir filosofia, história, economia, vou aprender palavras novas, seguiremos uma dieta para ganhar um certo peso, vou ser feliz em decisão. Vou me instalar e fazê-lo rir comigo. Porque eu nasci para isso, para ser e vê-lo feliz.



terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Economics


A picada era necessária, vi agulha penetrando músculo, não doeu, o líquido viscoso e meio leitoso atravessou minha pele vagarosamente. "Você se sentirá melhor", disse ela. Segurei a pompa de algodão com a outra mão, investiguei com o olhar a frestas das mãos. "Não pode ser intravenoso, desculpe", entregou um frasco dizendo: "Tome isso e logo ficará tudo bem". Olhei para o fundo do frasco e li todos os comprimidos, de uma só vez todos desceram garganta a baixo.
Meu braço esticado recebia algo relaxante misturado ao soro composto, senti o corpo relaxar, mas a respiração era pressionada. O ar ainda era rarefeito. O éter embebedou as entranhas no primeiro suspiro profundo, fiquei tonto. A vista turvou-se em rodopios incessantes, o sono estava querendo lograr êxito. Apaguei. Senti a consciência voltar ao controle, as memórias materializando-se na minha frente. Vi todos os nossos diálogos, vi as palavras pesadas caindo ao chão, grandes e maciças, mentiras desmembradas de um coração leviano e egoísta. Ouvi o estraçalhar do afeto, um som quebradiço e forte, um impacto que consumiu a alma em rachaduras imperdoáveis. Senti o cheiro do desespero em frente ao espelho, eu estava lá novamente, no único local onde eu posso ser eu, apoiando-se nas quinas das louças que seguram o pranto, as mãos fraquejam, a garganta arranha com um grito que não irá sair nunca, porque o silêncio absoluto da dor infernal que rasgou-me peito foi tanta que esganou qualquer pensamento sensato. O gosto do ferro apalpou a língua quando a lâmina correu sobre a pele, era algo errado demais para ser tão doce. A dor escorreu, escapava o vermelho, meu corpo chorava. O alívio infiltrava pelas fissuras. O corpo deixava de sentir tanta dor. Os olhos acompanhavam o ritmo incontrolável do derramar. A cada passagem do metálico abriam-se fendas no corpo, formavam respiradouros para que minh'alma pudesse finalmente chegar próximo da superfície. Logo a mão não tinha mais força, o corpo pendia para o lado, para mais perto da poça de libertação. O pulso tocou o chão frio, o rubro era morno, o descanso era merecido. Eu só queria que tudo aquilo acabasse, queria finalmente um breve momento de descanso. Olhei em volta e me sentir completo, não pelo vazio que tinha ido, mas porque finalmente eu consegui parar de pensar, havia silêncio perpétuo, eu era torpor. Lembro que antes da vida ir, desenhei algo com a ponta dos dedos, a cabeça estava pendente, mas a visão fotografou aquele momento para que eu lembrasse para sempre. Escrevi teu nome antes de não mais sentir meus dedos. O vermelho logo tomou conta, a força que tinha só dava para mover os olhos, a memória se fez no teto, lembrei do teu sorriso e de você me dizendo "Não tenha medo. Eu estarei sempre contigo". Fechei os olhos e respirei fundo pela última vez. E depois disso eu me senti liberto.


terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Kiwi


 A dormência agarrou as extremidades como se pedissem socorro. Os gelos rodopiavam em sentido anti horário. A respiração era incômoda. A mente vibrava contra o bom senso. "Porque?", eu pensava.

 Não esperava algo assim, não naquele momento. Um ato tão pequeno inundou toda a minha perspectiva.

 Fazia exatamente um mês que eu tive um sonho onde eu estava em um ancoradouro. A neblina não deixava ver muito na baia, o frio era tenaz, e eu segurava um lampião. Um lampião de luz-verde. Sabia que com aquela luz, qualquer um que tentasse atravessar a neblina me veria. Sabia o quanto o pensamento maduro era perspicaz naquelas horas de tormenta. Ouvia o trovejar das incertezas cada vez mais barulhento, a confusão era premissa para algo maior. Vi uma sombra se aproximar, ela vinha do meio das águas, um flutuar quase parando, alguém temia a luz verde. A luz-verde inflamou. "Estou aqui" gritei para a sombra. Ouvi o chacoalhar do barco na água. Me aproximando, dei uns passos, levantei o braço o mais alto que podia. Senti um frio na barriga, os sulcos gelados rodopiavam dentro de mim. Uma sensação ruim. Maré cheia.

 A embarcação atravessou de lado, pude ver exatamente todas as cores daquela vida. E logo um alerta subiu a haste, "Desculpe, pensei que era outra coisa." E seguiu de volta ao desconhecido. Eu gritei muito, gritava e sacudia a luz-verde. Dizia em voz sufocada que você tivesse calma, que parasse e esperasse a tormenta passar, que o dia viria da melhor maneira possível, que era apenas uma tempestade. Não foi o suficiente. Eu não era o suficiente. Me senti tão incapaz. Tão pequeno quanto sempre fui.
 A lanterna furta-fogo pousada ao chão não se importava com a garoa que ameaçou confundir minhas lágrimas. Meus joelhos doíam o peso do corpo, o frio tremia minha carne, o soluço quebrava o sussurro dos ventos. Eu não era porto seguro. Incapaz de suportar o desembarcar. Olhei para trás, vi toda a minha construção portuária, tinha uma vila de pessoas boas, vários marinheiros e piratas, mulheres e crianças temendo o nevoeiro nas casas de firme aspecto, as torres de obervação para as perspectivas futuras, o grande forte onde ficava toda a esperança e vicissitude de uma alma. Meu porto era firme, seguro, impenetrável aos alhures desgostos. E isto não atraia.
 Levantei o corpo na chuva forte. Deixei uma bandeira de cor negra, avisando que ali era hostil. Tomei a luz-verde em punhos e segui para o porto. Onde minha segurança é suficiente para quem sabe o que é viver.

 Um mês deste sonho.
 E ali recebia uma aceno daquela lembrança. Tomei um gole daquela bebida misturada que ameaçava congelar meu cérebro e segui para a noite, tomei algumas dúzias porque a cor me deixava calmo, com o olhar impenetrável, igual ao coração. Porque agora é a vez do capitão dizer que vai e quem fica, e agora tenho o meu próprio tempo, e sempre fará um sol brando, uma noite levemente fria, e quando necessário uma névoa para que ninguém venha tentar me encontrar.
 A luz-verde? Ela continua acesa, enquanto vibrar um pensamento. 




Ao Meu Lado.


 As pontas da toalha foram enroladas tantas vezes que já não eram retas, o guardanapo de tecido virara origami, os talheres postos e sobrepostos, as taças viradas e embebidas minutos a fio, petiscos dispensados, aguardando apenas o próximo andarilho. 
 Poucos instantes foram necessários para que alguém sentasse do meu lado. Conversa casual de uns seis a dez minutos e voltava a ficar vazio. Ótimo, assim ninguém vai ficar me alugando para uma idiota participação social. Até que:
-Achei que você viria acompanhado.
Aquela voz suave e feliz, carregava uma tristeza repentina. Era o tom de uma surpresa magoada.
Olhei desconsertado para ela, mirei o assento vazio, tornei meu olhar com a mesma resposta:
-Vivemos em um mundo de possibilidades.
E ela, com seu terno olhar, respondera:
 -A melhor delas é saber que você está aqui.

A alegria foi tanta que atravessou a face em um esbranquiçado sorriso perfeito. Ela tinha uma incrível capacidade de ver o melhor em qualquer situação. O abraço foi calmo e bem encaixado. E com o sussurro veio as melhores viagens em pensamento.
-Eu não ficaria triste por não estar contigo, eu ficaria triste se nunca tivesse você em minha vida. Seria uma tristeza inexplicável, algo além de mim.

 A música tomou conta e logo ela se afastou. O lugar ao meu lado iria continuar vazio, assim como todos os próximos eventos e diversões que eu já tinha programado fazer em conjunto. Ficaram os ingressos para o teatro, os convites de aniversários e celebrações de fim de ano. Irei sozinho. E quando olharem para o meu lado, vou responder a mesma coisa.
 Para bom ou para ruim, as possibilidades são as mesmas. Incrível seria se eu me deixasse levar por algo além de mim. Se alguém me roubasse de mim. E isto, está longe de acontecer. Quando se passa tanto tempo na mesma companhia é comum ter os mesmos pensamentos e ações, um padrão. Então, olhei ao meu redor e vi como aquilo se repetia, e eu me senti bem, estava exatamente na minha melhor condição. Era apenas eu.
 Engraçado como a situação muda o corpo quando a mente entende o propósito do significado. Brandei um sorriso sereno, um olhar no vazio que ali lograva êxito, sorria feito um louco sem sentido. Brindei a mim, brindei aos amigos, brindei ao meu universo. Logo alguns outros vieram saber porquê tanta felicidade, e apontei para algumas pessoas, e comentei apenas: Todo mundo aqui tem motivo para ficar chateado ou triste, por algum problema ou pensamento qualquer, mas olha, olha mesmo, estamos todos contagiados por uma alegria mútua, quase uma histeria coletiva - coloquei mais champanhe na taça e forcei um brinde entre aqueles estranhos curiosos-. Vivemos em um mundo de possibilidades. E eu sou a melhor delas.
 Eles riram e ficaram disputando que também eram outras melhores ainda. As risadas e histórias cômicas seguiram noite a dentro. Um círculo de pessoas meio sem sentido, meio se vergonha, meio possíveis. Foi ali que começou um novo plano para o infinito. Correu ali uma nova vida em mim. 
Um brinde.

 



segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

O Casal


 A cerimônia tardou a acontecer, mas ficou belíssima quando ocorreu. Foi mágico, foi inesquecível, foi uma celebração de uma história.
 Eu estava ali com um brilho incomum no olhar, aquele olhar da alegria alheia. Ao vê-los, pomposamente dispostos, eu arrepiei a alma com a compaixão de uma história longa e bem conhecida. A cada degrau que eles desciam com os sorrisos mais abertos, as lágrimas tendiam perecer. Era algo maravilhoso. Uma sensação de infinta bondade, de companheirismo, de acordar todos os dias, ver o sol e a chuva, as noites em claro, os dias em sono, fins de semanas intermináveis, segundas-feiras intermináveis... Tudo isso aos passos diminutos para não fazer feio ao descer da escada que desembocava no salão principal.
 A lágrima escorreu o semblante. Tremia as pernas como se fosse eu o escolhido. Eles estavam ali, finalmente ali. Foram vinte anos de história, idas e vindas, problemas, superações, viagens, dias chatos, tanta coisa que parece que foi ontem que eles se conheceram. O suspiro profundo é inevitável.
 Casar não é um contrato eterno, porém vejo como um selo perante a sociedade que os dois iram continuar tentando dar certo. E isso, em tempos que é mais fácil desistir de alguém do que levantar a cabeça para as desventuras, hoje isso é invejável. Sei que parece tolo de um sonhador querer ter uma história, ou várias, para contar quando ficar velhinho, mas meus pais me educaram assim, de não deixar sucumbir por nada, de sempre tentar fazer o impossível para que o mundo continue as tentações.
Eles vieram, nos abraçamos, conversamos brevemente. A euforia era contagiante. Era apenas uma celebração do que todo mundo já sabia. Todos os amigos, os familiares, todos já não se importavam com um mero símbolo formal. Também todos irão lembrar daquele dia. O dia em que eles foram apenas um corpo, apenas uma alma, irradiando felicidade plena e uma glória por conquistar o dia mais feliz da vida.


sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Sei lá.


Eu gosto de você, mas sei lá.
Sei lá porque você sempre vai embora.
Sei lá porque a gente parece que nunca vai dar certo (e sinceramente, talvez nunca dê certo mesmo).
Sei lá porque quando eu chego perto demais você me empurra pra longe.
Sei lá porque às vezes parece que você tem medo de precisar de mim mais do que preciso de você.
Sei lá porque a gente é confusão demais, é briga demais, é gritaria demais.
Sei lá porque você não me passa segurança nenhuma e parece que até o seu vizinho gostoso tem você mais do que eu tenho.
Sei lá porque você não quer me pertencer, quer ser solto, mas quer que eu seja preso a você.
Sei lá porque todas as vezes que eu me declarei pra você, você ficou sem saber o que dizer, não como se estivesse sem palavras ou emocionada, é porque não tinha mesmo o que falar, não tinha nada pra falar pra mim.
Sei lá porque diferente de todo mundo, a gente é melhor separado.
Sei lá porque por mais que sejamos dois apaixonados e coisa e tal, não nascemos pra ficar de nhem nhem nhem eternamente e trocando declarações de amor de tempos em tempos.
Sei lá porque você tem esse teu maldito jeito brusco que afasta todo mundo e parece não ligar pra ninguém.
Sei lá porque às vezes quando a gente conversa eu sinto que sou a última pessoa do mundo que você queria trocar palavras.
Sei lá porque a gente fala demais, afirma demais, mas nunca saímos desse meio caminho que a gente se enfiou sabe-se depois de qual briga.
Sei lá porque não assumimos o que sentimos e de repente parece que nenhum dos dois sente nada.
Sei lá porque você sempre me machuca de um jeito imbecil e nunca percebe porque tem um ego enorme e não admite que comete falhas.
Sei lá porque você é todo complicado, todo cheio de si, todo com manias que eu nunca suportarei, todo você.
Sei lá porque eu gosto de você, eu gosto mesmo de você, e quando eu gosto de alguém que aparentemente também gosta de mim, as coisas tendem a dar errado.
E sei lá porque eu não sei o que vai ser da gente, porque o nosso futuro é tão… sei lá.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Faça amor, não faça jogo.


Ouvi um velhinho dizer: Amei a mesma mulher durante 50 anos.
Pensei no quanto isso era do caralho, até que ele disse: Queria que ela soubesse disso.

Às vezes, as pessoas fazem jogo duro, porque precisam saber se os sentimentos do outro são reais. Pensei no quanto isso era fodido.
Somos apenas caras, somos estúpidos às vezes, muitas vezes. Quantas vezes, quis dizer “EU GOSTO DE VOCÊ” e não disse? Não quero chegar aos 90 anos, morrer e pensar: eu podia ter tentado. Eu costumava ser mais feliz. Hoje tá tudo meio “tanto faz”.
Vejo homens chamando mulheres para saírem, e no último minuto desmarcarem, apenas para serem difíceis, ou tanto faz. O maior crime do homem não é despertar o amor de uma mulher e não amá-la, é fazê-la se depilar à toa. Eu tinha uma paquera, eu mandava mensagem, e ela demorava sempre 4 dias para responder. Imagina se eu fosse aquelas pessoas, que pensam que se demorar mais de 5 minutos para responder já começam a se arrepender de cada letra que escreveu?
Esses dias, depois de sei lá quanto tempo, essa paquera mandou mensagem: “Estou com saudades”. A pessoa diz sentir sua falta, mas não demonstra. Ela espera que você adivinhe com seus super poderes mentais, que ela precisa de você. Eu sabia que qualquer coisa que eu respondesse, teria que esperar 4 dias para a resposta. Então respondi: “Aproveita o gelo que vai me dar e me traz uma coca gelada”.
Se você está cansado de joguinhos, de tanto faz, dessas regras bobas, faça como eu, demita-se.
Sabe, esqueça essa teoria de não dar moral. Se quer ligar, liga. Vai lá, tente a sorte, quebre a cara, arrisque. Sabe, pensar duas vezes é à distância entre os que sonham e os que vivem. Então,viva. Saí fora dessa bolha, felicidade não é mercadoria, não é um remédio que se fabrica, com fórmula errada ainda, de indiferença, cara feia, e nariz empinado. Não tem graça ter essa vida, onde você tem que esconder seus sentimentos por que alguns falam que isso é o seu valor. Muita idiotice.
Limitar-se já é um problema, limitar o sentimento é o pior deles. Perdemos a chance de viver uma história pelo simples fato de não falar. Eu agora, me apaixono por mulheres que, além de gostarem de Pearl Jam, aceleram meu coração. Eu agora, me apaixono por mulheres diretas e honestas. Que não fazem jogos, fazem amor. Quero conquistar uma mulher sendo eu mesmo. Sem estereótipos, sem medo.
Eu agora, passei a ver o mundo de outra maneira.
E não foi ele que mudou, fui eu.

Por: IQUE 

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Hoje


Eu posso ter meus defeitos, mas penso assim:
Tudo só dura o tempo necessário que tem que durar, muitas coisas não vai durar para sempre, quase tudo tem seu prazo de validade, e somente o verdadeiro amor que persiste ser para sempre, ultrapassando nossos passos e indo além dos nossos planos e da nossa vida.
O único problema disso tudo é que temos que apostar nas pessoas, nos arriscar, muitas vezes vamos nos magoar, vamos magoar as pessoas, vamos encontrar pessoas que não vale um real, mas vamos encontrar outras que não há valor para defini-las e mesmo assim, o amor verdadeiro vai existir se o coração permitir.
Muitas vezes vamos nos culpar, vamos culpar as outras pessoas, mas temos que seguir a nossa estrada, trabalhando, estudando, correndo atrás dos nossos objetivos, sem enganar ou iludir ninguém, sendo sempre sincero com os nossos planos, sonhos e objetivos de vida porque antes de amar alguém verdadeiramente, é necessário amar nós mesmos e viver um dia após o outro esperando realizar as coisas boas que esperamos para a nossa vida.

Por que?

Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo a porta.
O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão. O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar.
Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referenciais.
Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca.
Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera.
Você ama aquela petulante. Você escreveu dúzias de cartas que ela não respondeu, você deu flores que ela deixou a seco.
Você gosta de rock e ela de chorinho, você gosta de praia e ela tem alergia a sol, você abomina Natal e ela detesta o Ano Novo, nem no ódio vocês combinam. Então?
Então, que ela tem um jeito de sorrir que o deixa imobilizado, o beijo dela é mais viciante do que LSD, você adora brigar com ela e ela adora implicar com você. Isso tem nome.
Você ama aquele cafajeste. Ele diz que vai e não liga, ele veste o primeiro trapo que encontra no armário. Ele não emplaca uma semana nos empregos, está sempre duro, e é meio galinha. Ele não tem a menor vocação para príncipe encantado e ainda assim você não consegue despachá-lo.
Quando a mão dele toca na sua nuca, você derrete feito manteiga. Ele toca gaita na boca, adora animais e escreve poemas. Por que você ama este cara?
Não pergunte pra mim; você é inteligente. Lê livros, revistas, jornais. Gosta dos filmes dos irmãos Coen e do Robert Altman, mas sabe que uma boa comédia romântica também tem seu valor.
É bonita. Seu cabelo nasceu para ser sacudido num comercial de xampu e seu corpo tem todas as curvas no lugar. Independente, emprego fixo, bom saldo no banco. Gosta de viajar, de música, tem loucura por computador e seu fettucine ao pesto é imbatível.
Você tem bom humor, não pega no pé de ninguém e adora sexo. Com um currículo desse, criatura, por que está sem um amor?
Ah, o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse um sentimento, mas uma equação matemática: eu linda + você inteligente = dois apaixonados.
Não funciona assim. 
Amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC. Ama-se justamente pelo que o Amor tem de indefinível.
Honestos existem aos milhares, generosos têm às pencas, bons motoristas e bons pais de família, tá assim, ó!
Mas ninguém consegue ser do jeito que o amor da sua vida é! Pense nisso. Pedir é a maneira mais eficaz de merecer. É a contingência maior de quem precisa.

O tempo.


 Eu tenho saudades de coisas que nunca aconteceram. Alguém já teve a mesma sensação?
 Não sei bem explicar, apenas vem na mente um momento fantasiado de amanhã, o sorriso ao rosto e a calmaria no peito.
 Vai ver é apenas mais um desejo de uma vida tranquila, quando a alma fica em paz, em si. Momentos únicos que salteiam hora e outra, mas apenas uma saudade. Se ela pudesse ser revivida no futuro... Ah, que suspiro bom. 
 O sonho é algo que me alimenta, fui criado assim, com a maneira impossível de acreditar, tenho também missão de instruir, e isto me guia. São atributos de pessoas que atravessaram o tempo, era errada, corpo certo.


Na calçada de Ipanema eu finalmente entendi.


 A sinceridade era algo tão natural que eu não pensava antes de falar.
 Um erro tão vulgar.
 Acreditando que as pessoas vão ouvir e entender o coração aflito.
 Um erro tão vulgar.
 Eu continuo acreditando que fiz o certo, fui eu mesmo, sem pôr nada e tirando muito. Tirando tudo o que poderia incomodar, tudo aquilo que poderia sobrar. Sobrei. O pior não é ser abandonado, ser usado de chacota, o que realmente destrói a alma é a sensação de vazio. Esse vazio que encheu o corpo todo, colocou o sentimento em torpor, deixou livre o pensamento moribundo que tudo não passou de um mero passa-tempo.
 Tempo passou.
 Durante um caminhar com meu eu perpétuo, cheguei a conclusões tão firmes.
 Não se trata das pessoas, o culpado sou eu.
 Eu sou esse ser idiota que cansou de ser deixado de lado com total desprezo, sem nenhuma consideração ou humanidade. Meu sentimento, minha história, todo amor do mundo que eu pudesse oferecer estavam ali, amassados, no chão, descartados como sempre fora.
 Lixo.
 Ninguém se importa de reutilizar ou colocar no devido lugar aquilo que usa por usar. Não faria sentido cuidar de qualquer-coisa. Idiota? Esse cara sou eu!
 Primeiro eu escuto que sou incrível, que sou um cara impossível de imaginar, que sou amado como nunca antes. Segundo eu escuto que não sou ninguém, que não sou alguém que possa partilhar momentos, que não sou suficiente pro mínimo necessário. E sabe quantas vezes eu ouvi isso? Tantas que não uso mais as palavras para demonstrar afeto, são raras e contáveis vezes, e na maioria faço pela satisfação alheia, o coração fica no "..." e segue.
 Não me entenda mal, eu gosto, faço um bocado por onde, sou compreensível tanto que acabo me magoando quase sempre, mas a realidade é algo que entalhou minha vida desde cedo e ser opção na vida das pessoas é algo que me deixa livre por dentro para ser e fazer qualquer coisa.
 O romantismo foi massacrado, não vale mais a pena fazer as coisas bonitinhas, no fim serei rotulado como "aquele imbecil que fazia coisas", e perdoar as pessoas pela própria compreensão também é um artificio que não usarei, porque ninguém está pronto a se colocar no lugar do outro, o umbigo fala mais alto, são sempre "as minhas vontades, o meu futuro, os meus sonhos, a minha carreira..." e isso soa como se você que deseja algo similar, você que também tem uma vida ao crescimento, você não é nada, apenas uma figuração qualquer que faz peso.
 Eu olhei aquelas faixas ziguezagueando para o nada e percebi que eu sou aquela pessoa que todos falam que é ímpar, que nunca estará com alguém porque ninguém é compatível, ou que mesmo outra sobra desigual não será capaz de somar-se a mim.
 Entendo, aceito, vivo.
 O suficiente não é o que falta, mas aquilo que mantem a vida de pé, o desejo no alto, a coragem em frente, e o coração na mão. Isto é ser o suficiente. Ser explorador da realidade, pensar no igual, enfrentar problemas do dia-a-dia como se fosse mais um acaso e não o fim do mundo.
 Entendo que terei uma família de uma pessoa só. Apenas eu. E serei feliz do mesmo jeito, porque eu sei o que eu quero e o que eu não quero. E eu não quero ser o imbecil que queria te ver crescer na vida e tornar a melhor pessoa do mundo, eu quero ser aquele cara foda que arriscou tudo pelo nada e não deixou nada atrapalhar o tudo. Quero ser o cara normal que tem defeitos e manias, com convicções estapafúrdias e temperamento oblíquo, quero ser um alguém que deixa memórias com um suspiro profundo.
 Cansei de rodopiar pela noite ao sabor de almas vazias sedentas por vida, prefiro ficar consigo, ser feliz sozinho. Carregar o conhecimento e a mão que ajuda para qualquer pessoa que saiba agradecer.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Escritos Sobre a Ausência.

Lembrar de algo que nos faz falta é algo inerente ao ser humano. Vejo meus amigos, os amigos dos amigos, os familiares, os estranhos…todos estão sentindo falta de algo, esvaziado de sentido sem os sentidos do outro, de um outro.

Lembrar de você é praticamente me ver oco, esvaziado de porquês. De tão forte que foi a sua presença dentro de mim, refazer meus quereres, me parece impossível. Difícil não coloca-los nos planos. Você ainda faz parte das minhas expectativas.

Reviver uma pessoa, uma lembrança, um ocasião é o pior tormento. Sempre tive medo de doenças como Alzheimer, onde a pessoa perde todo seu HD e fica assim, zumbi por ai. Mas não será uma benção? Que dúvida cruel.

Reviver você é trabalhar com a possibilidade da sua pessoa, ainda. Revivendo refaço meus traços e quero saber aonde errei, e se errei. Se a culpa fosse minha seria mais fácil, mas não é, você é tão egoísta e mandão, que até os motivos que me culparia você roubou para ti. Nem isso eu tenho.

Resistimos diariamente. No trabalho, no ônibus, no Facebook, na boca do outro. Resistimos ao comentário maledicente, à descrença do familiar, da conta bancária, da solidão que nos cobre todas as noites.

Resisto a olhar suas fotos, nossas conversas gravadas em folha A4, o blog que eu fiz para falar de ti. Resisto conversar com as amigas sobre você. Elas esperam sua volta tanto quanto eu. Uma vez te falei: haverá uma festa quando você chegar. Acredite, elas ainda esperam esse momento.

Resisto pensar nisso, é enlouquecedor. Resisto pensar que não voltará, é desesperador. Resisto a você e tento me distrair. Não me sinto feliz. Não existe essa possibilidade hoje. Re-existo. Talvez o terreno baldio em que me encontre tenha lá sua finalidade.

Ir embora, todos foram, vão, irão. Quando morrem e deixam seus pertences/restos/lembranças por ai. Quando desaparecem e esquecem nosso telefone, e-mail, endereço. Quando resolvem nos deletar da vida delas. Grande covardia ser posto de lado, sem o direito de defesa, de ter direito a um tempo de preparo. Sem poder se precaver das dores que virão com a ausência.

Te compreender não ajudou a entender sua partida. Muito pelo contrário aumentou a aflição. Te sei tanto quanto você e sei das suas lágrimas, me doe não estar ao seu lado para não deixa-las cair. Ou para vê-las cair e segurar na sua mão.

‘Acordando e repondo a esperança’ (Carpinejar), e assim permaneço.

Eu queria poder ir embora de mim mesmo, dar as costas as minhas lembranças. Deixar de lado tudo que me falta e me atormenta. Mas não dá, preciso estar aqui para quando você voltar

Anônimo


“Ei, você. É… Eu sei que você ama alguém. Sei que você pensa muito nessa pessoa, e tudo te faz lembrar dela. Sei que quando você olha pro nada, é ela que lhe vem à cabeça. É olhar pra nada e pensar em tudo. Sei que você já prometeu à si mesma que não iria derrubar mais uma gota de lágrima se quer por ela, mas acabou não cumprindo. Eu sei que a voz dessa pessoa te conforta, e o abraço dela é o melhor do mundo. Sei que você ama o cheiro dela, e poderia acordar todos os dias com esse cheiro ao seu lado, te abraçando, com um sorriso dizendo “bom dia”. Sei que muitas músicas poderiam ser a trilha sonora de vocês duas. Desde começo, meio, fim e recomeço - que você quer que aconteça -. Eu sei que você pede conselhos aos seus amigos, mas acaba não seguindo nenhum, porque de algum jeito a pessoa volta, e traz o sentimento todo junto com ela. E você não liga, porque quer viver tudo de novo. Eu sei que toda noite você se despede dessa pessoa em seus pensamentos, já na vontade de dizer “não esquece de aparecer nos meus sonhos!”, e aparece , porque é o que você quer. Sei que essa pessoa é idiota, insensível, complexa, complicada, mas você não se importa, porque é exatamente isso que te faz gostar mais e mais dela. Eu sei que em cada tópico desse texto, você estava com a mesma pessoa na cabeça. E por isso é tão difícil esquecer.”

Para quê serve uma relação?

 

Uma relação tem que servir para você se sentir 100% à vontade com outra pessoa, à vontade para concordar com ela e discordar dela,  para ter sexo sem não-me-toques ou para cair no sono logo após o jantar, pregado.


Uma relação tem que servir para você ter com quem ir ao cinema de mãos dadas, para ter alguém que instale o som novo enquanto você prepara uma omelete,  para ter alguém com quem viajar para um país distante, para ter alguém com quem ficar em silêncio sem que nenhum dos dois se incomode com isso.

Uma relação tem que servir para, às vezes, estimular você a se produzir, e, quase sempre, estimular você a ser do jeito que é, de cara lavada e bonita a seu modo. 

Uma relação tem que servir para um e outro se sentirem amparados nas suas inquietações, para ensinar a confiar, a respeitar as diferenças que há entre as pessoas, e deve servir para fazer os dois se divertirem demais, mesmo em casa, principalmente em casa. 


Uma relação tem que servir para cobrir as despesas um do outro num momento de aperto, e cobrir as dores um do outro num momento de melancolia, e cobrirem corpo um do outro quando o cobertor cair.
Uma relação tem que servir para um acompanhar o outro ao médico, para um perdoar as fraquezas do outro, para um abrir a garrafa de vinho e para o outro abrir o jogo, e para os dois abrirem-se para o mundo, cientes de que o mundo não se resume aos dois.

-Drauzio Varella

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

O Manifesto do Silêncio - part. 1


E quando todos partirem, estarei de volta ao normal. Sozinho.


Os papéis tantos que rabisquei ficaram encharcados com água e sal, esta linha que atravessava a trave dos olhos aliviando o peito. As linhas que se formam gritam meu silêncio, falam do meu coração.

Escrevi uma, duas, setenta cartas diferentes para que eu pudesse compreender o que se passava ao meu redor, o que ebulia aqui dentro, o que ribombava na mente. Escrevi, li, corrigi, escrevi. E assim passaram os dias na minha crise existencial. 
Essa crise, geralmente, acontece no momento mais forte da vida de uma pessoa, bem quando ela se sente vulnerável, perdida ou desconsolada. A existência neste momento determina passos futuros, projeções traumáticas e remorso. E o redemoinho que se faz é infinito, levando sempre para as mesmas questões já respondidas e não compreendidas.


Calma.
Tenha calma.


O que geralmente não se responde de dentro para fora, já é sabido de fora para dentro. É nesses momentos que a palavra amiga é tida como apoio irrefutável, o braço estendido no abismo. É de onde vem as explicações variadas, a ladainha repetida, o olhar de compaixão. É posto em prova a paciência, carinho, e afeto. Porém, tem-se dois efeitos: pra quem ouve toda a explicação e presença em apoio,  não faz sentido nada de nada, e pode misturar ainda mais a confusão mental, e para quem fala é algo infinitamente desgastante, pois a ajuda tem que ser insistente para ser satisfatória.

Quando você ouve, você tem que provar que está pronto para ajudar, limitar-se aos problemas alheios dando-os extrema importância, mesmo esses problemas sendo poucos ou diminutos. Cada um sabe exatamente os pesos da própria vontade, do próprio viver. Caberá ao ouvinte estar presente, haja o que houver, a sua missão será suportar os pesos, dos mais pesados aos mais leves, e ajudar na divisão.
Muito embora a ladainha repetitiva torne o diálogo frustrante, alterne com a divagação dos sentidos. Martelar um prego batido não fará efeito, use então de artifício para dispensar, mesmo que por alguns instantes, o conflito íntimo do outro. Ajude ao outro da melhor forma possível, estando apenas presente, organizando ideias, fazendo-o esquecer do mundo, coisas deste tipo.


Se você é o epicentro da tormenta, calma.

Tenha calma.

Vou contar-te um segredo, antigamente, em meados de 2007 para ser hipoteticamente preciso, eu tive uma crise existencial forte, as coisas mais imbecis eram, pra mim, as maiores coisas do mundo. E o engraçado é que eu sabia exatamente o que fazer e como fazer, mas algo me perturbava de uma forma avassaladora. E sabe como eu superei? Ele me ajudou. Ficou comigo quase em todos os momentos, quando eu ficava muito triste e já desistindo do mundo, ele ficava ali do meu lado, apenas olhava com um olhar de um carinho tão grande que eu lia em sua feição "Aconteça o que acontecer, eu sempre estarei aqui." E eu respirava fundo com isso ouvindo um suave, quase firme, "Calma, vai ficar tudo bem". A crise acabou quando o prazo de viver chegou no próximo nível, quando o medo do novo foi obrigado a ter coragem. E assim foi superado. O tempo decantou minhas ideias. 
O interessante é que a crise existencial era justamente pelo crescer, pelas novas obrigações, era como se eu não estivesse preparado para aquilo e rogasse por outra opção. Não há opção na vida além do crescimento ou estagnação. E se eu fosse você optava pelo primeiro.

O agente do caos, ou seja, a pessoa que está em crise, ela não tem noção dos fatos. Ela perde a sensibilidade de pensar em três dimensões. A profundidade das coisas se torna superficial demais, profunda demais, confusa demais. É como estar perdido em uma floresta, e você tem vários caminho diferentes, e de todos os caminhos você ouve o chamado do teu nome. Qual o caminho à seguir? Você saberá quando a chuva cair, abafando assim as vozes do medo. E terá certeza do caminho certo para seu íntimo, e uma vez escolhido terá que enfrentá-lo. É por isso que quando estamos em conflito, é de extrema importância, relevância, e sabedoria o não agir por impulso. NÃO agir eu disse, Não! Pode ser difícil tentar parar o mundo enquanto tudo gira, quando a mente atordoa o sono, quando escapam as lágrimas e ninguém aparece para, no mínimo, perguntar com sinceridade se você está bem. Na verdade, é isso que nos faz perecer, escolher o caminho mais fácil, a gente escolhe desistir. Acredito que isso seja para a autopreservação, ao instintivo que nos fez sobreviver por anos e anos, sem enfrentar as adversidades do mundo externo.

Ser um agente do caos é tarefa difícil de se entender, ao mesmo que muito fácil. O que rege nesses momentos de inexatidão é o estopim para a fuga. Qualquer coisa pode culminar em ásperas palavras, ações vingativas, desprezo múltiplo, ou indiferença potencialmente localizada. O final sempre é o afastamento. Parece que o mundo vai desabar sobre a cabeça a qualquer instante. Mas não tenha medo em pedir auxílio, uma ajuda, um conversar sobre qualquer coisa. A tendência é aspirar-se umbigo a dentro, afastando toda e qualquer pessoa que dê início ao refletir, que mostre a saída.
Se o casulo se formar, não maltrate quem tentar te salvar. 



sábado, 2 de novembro de 2013

Aviso.


 Quem dera fosse verdade essa tal história de amor. Já ouvi tanto esse verbo que hoje é igual ao céu, contemplado às vezes, mas na maioria ele está lá, ignorado. Aqui dói, dói muito. Lágrimas incessantes me fazem soluçar. E isto já era previsto de acontecer a qualquer momento.
 Ontem eu vi um beija-flor. Ele era lindo, todo escuro e vivaz. Lembrei do dia que vi uma felicidade igual, lembrei do dia que conheci um lugar novo, lembrei de uma tarde silenciosa, lembrei de filmes engraçados, lembrei de músicas distintas, lembrei do meu coração. Será que o beijar-flor veio beber do meu coração? Pobre beija-flor, quando viu que aqui estava vazio ele olhou-me estranho, bateu asas no mesmo lugar. Levitou. Buscou aqui e ali pelo potinho com água açucarada. Pousou em meu ombro e piou. 
 Senhor Beija-flor- disse explicando-me-, eu não tenho mais açúcar em mim. O meu amor foi jogado fora.
O passarinho abaixou a cabeça e piou fraco. Bateu asas novamente e fintou-me. A lágrima do passarinho fez meu estômago remexer. Senti que ele queria tentar dizer que eu poderia mudar, que poderia ser diferente, mas ele não sabia que eu vivo na contra-mão.

 Logo o passarinho pousou em grades. Cansado. Peguei-lhe em mãos, ele não reagiu, senti seu fôlego vibrante.
 Chorei.
 A vida que tinha em mãos era como todo o sentimento que me faltava, tudo o que fora pra nunca mais voltar. O ser frágil foi deixado numa árvore próxima onde ele poderia buscar abrigo, um lar. A tarde custou a passar com a mente no beija-flor. Nunca pude acreditar que uma criatura pudesse ver em mim uma esperança de conforto, acredito que nunca sentirei isso novamente, assim é a vida. Ontem eu vi um beija-flor, que me deu alegria em alma moribunda.  



quinta-feira, 31 de outubro de 2013

A Escolha


 Cansei de ser incompreensível. Cansei de sempre concordar, de entender os fatos e casos, cansei de tentar valorizar a vida, a sociedade, o bem-estar comum. Cansei de mediar conflitos, de abordar soluções, de ignorar xingamentos e maus tratos. Cansei. Agora vou ser compreensível como eles me pedem parar ser, ou seja, vou ser a pessoa mais egoísta e mesquinha possível, já que é o que eles pedem. 

 Surge, então, uma nova pessoa. Ou melhor, supre-se, então, uma nova pessoa. O ruim disto tudo não é o que eu perco, afinal de contas ser bonzinho e caridoso nunca surtiu efeito, acredito que seja pelo caminho mais agressivo que as coisas se firmem ou se mostrem. O silêncio imperará, evitando a ladainha sacra de todos os dias, os inefetivos monólogos que perduram por horas em busca de satisfazer o silêncio das paredes. E quando for necessária, a voz será objetiva e não repetida. Assim é uma pessoa compreensível.
 Desculpe-me se fui rude contigo por esses dias, ou se deixei de ser por algum motivo, é que ficar sozinho é mais prazeroso do que qualquer coisa. Um bom livro substitui facilmente você que age por impulso, que tem uma vidinha vazia a custa de aparência. Isso mesmo. Mas calma, não tenha raiva de mim. A autopreservação é instintiva, e polpar-te o esforço de levar um fora ou uma soco na cara é ainda cabível.
 Ir para academia todos os dias para dizer que está malhando e tomando hiperproteicos, sair quase todas as noites para gastar o dinheiro da pensão ou só do papai e da mamãe e por fim reclamar da vida, viajar pelo mundo e não dar valor a terra em que vive, amar alguém que não te ama... Tudo isso eu troco por um belo livro. Esquivo tranquilamente dos assuntos do dia para que eu possa, em minha mente, ter uma conversa mais prazerosa sobre algo mais interessante, ou seja, qualquer coisa que não seja a sua vida. Sabe por que? Porque eu não quero saber!
 Dos amigos, a saudade. Da família, o desprezo. E assim vão os dias, já já será 2014, e outro ciclo começará. O que não quer dizer que tudo será novo, não não. Será a mesma coisa, só que um pouco diferente. A não ser que aconteça um desastre, fora isso será o comum e inerte dia-a-dia. 
 Se você está triste ou irritado por saber que eu não dou a mínima para o que você pensa, eu te aviso: não dou mesmo. Tenho uma coleção de coisas para fazer e nenhuma delas você terá a oportunidade de ver/conhecer. Pois, cada pessoa que agregou-se em mim, elas, sim, sabem o verdadeiro significado de vida, de correr atrás, de reclamar para liberar mais energia enquanto estão enfrentando as desavenças da vida.  



 Cansei de correr atrás das coisas impossíveis, de mostrar-se capaz das coisas como se elas fossem tudo. Aprendi. Cai. Levantei mais uma vez. Cá estou eu dizendo para mim que o esforço só é merecido depois do aprendizado, que a valoração das coisas vem com a implicância de saber o que é o raro, o que é belo, o que é único. Uma vez me disseram que era muito fácil ser feliz com pouca coisa, pois eu não tinha nada, isso me acertou bem no hipotálamo, como um machado que, maciçamente, atravessou o crânio e partiu-me em dois. Ouvi tantas outras coisas que me fizeram perceber como eu era, como o mundo era, como as coisas são. Nunca duvidei das coisas, mas sempre as aceitei com dois olhares duvidosos, um para quem os dizia e outro para o que realmente significava e, só consegui realmente me entender quando isso passou a não mais importar, quando a circunscrição de moral e valores se fundiram. Aprendi.

 Do empírico fica o trauma, a memória boa ou ruim, ficam chagas no espírito que, possivelmente, nunca sararão. O que pode, ou não, transformar um indivíduo. No meu caso, só aliviou o peso de admitir as próprias escolhas. Algumas significantes, outras desastrosas. Entretanto, sempre serão tidas com orgulho.



 O grau de importância que você dá as pessoas/coisas é o que fará diferença no seu mundo. Exemplos, uma feira de livros pode ser mais esperada do que um espetáculo de um artista, uma ligação pode fazer mais efeito restaurador de felicidade do que uma mensagem qualquer, uma fuga de aniversário pode realizar desejos maiores que o planejar de uma grande viajem pra outro país, uma presilha de cabelo quebrada pode ter mais sentimento de saudade do que uma foto da juventude, uma roupa pode contar mais histórias que uma roda de amigos, o olhar de quem te ama pode te dar forças para continuar, mais que antidepressivos.

 Não importa de onde surja o carinho, o afeto. Se você tem isso no peito, rogará por demonstrá-lo, seja fisicamente, seja vocalmente, seja mentalmente. Uma prece também é uma forma de carinho. Nem sempre estaremos ao lado de quem gostamos, seja familiar ou não, a vida corre depressa e para alcançá-la, perdemos de vista muitas pessoas, trocamos situações por outras, o conforto pelo conflito, ou vice-versa. Tudo para a satisfação nossa, tudo pela escolha certa. Visto isso, pergunto-te: Você fez a escolha certa?
A única pessoa que pode responder isto é você mesmo, tanto para esta pergunta quanto para todas as outras, e ninguém poderá julgá-lo, saber por que? Porque não lemos as almas das pessoas. Não sabemos o que ela carrega em corpo fechado. Vejo a vida através de olhos de proporções singulares, quer entender como eu penso? Imagine um seriado dramático, vamos pegar Lost como exemplo, cada pessoa daquela ilha tinha uma história antes de chegar lá, e isso não é levado em conta nos momentos "selvagens", mas nos momentos "sociais", eles vão se revelando. Montando um quebra-cabeça de situações. Bem assim somos nós, um apanhado de cenas que refletem em outras pessoas e por aí vai. Cada um com várias histórias próprias e experiências, boas e ruins. E sabendo desta máxima, não cabe a nós julgar ninguém além de si, pois só você sabe o que se passa na sua cabeça, seus problemas, seus desejos, seus êxitos e frustrações. Só você sabe o motivo que você fez a escolha, esta qualquer que seja.

A vida é o que você vê, e é o que acontece quando você não está lá.






quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Feito Cristal


 Este sou eu, uma soma confusa entre valores sociais e experimentações próprias. Talvez seja por isso que eu seja assim, bem peculiar. Trago ao mundo conhecimento diverso sobre tudo e qualquer coisa, obtidos por estudos e experimentos íntimos, por traumas e aventuras, por colher os frutos podres com sorriso no rosto, por ver a alegria dos outros e roubá-la, por um breve momento, para mim.
 Sou assim, meio sentimental demais, mas não venho falar do coração. Este é mero músculo calmo que palpita moribundo. Não se engane, hoje ele é feliz, sim. Isso mesmo, já não se corrói pelo abandono, por ver o egoísmo, por cair em enganações, ele já não faz essas coisas, hoje ele apenas palpita. O bater é fraco, mas o suficiente para a vida seguir em frente, com espasmos de esperança e coragem, ele pulsa o tempo que algo bom virá, onde finalmente ele poderá descansar sereno.
 Pensei por um tempo sobre os ensinamentos de alguém raro que conheci num dia desses de novidades. Em um ambiente particular, nos reencontramos e continuamos nosso afeto. Me pergunto, às vezes, se ela continua vivendo o ardor da vida com aquela força toda, porque ela tinha nos olhos algo que é raro hoje, esperança. Mãe faz uns meses, passou adiante seu amor, espero que essa criança tenha, também, a força que ela carrega, algo que contamina qualquer pessoa, algo que constrói o caráter e bem estar.
 Ela me ensinou tantas coisas boas, mas a principal delas é que devemos ser aquela pessoa que vive para si. Não que faz tudo sem ajuda de ninguém, mas que quando o vento gelado bate no buraco do coração você não pode deixar doer, tem que substituir o vazio por algo bom, um hobbie, um ajudar-o-próximo, algo que perpetue o sorriso. Ela diz que o sorriso é a marca de qualquer pessoa, não importa onde ela esteja ou como, o sorriso sempre será seu expositor de sentimento verdadeiro. Suspeito que ela seja uma dessas pessoas sonhadoras, que acredita em outros mundos, vidas e histórias, só isso explica o fato de que ela tem tanta fé na humanidade, na vontade de mudar. Ela é do tipo de pessoa que se não tivesse um membro, estaria facilmente no Panamericano.

 Temos que entender que o físico e o emocional não devem se entrelaçar ao menos que para o lado positivo. Quando eles se misturam de todo e qualquer modo, então complica, destrói, deturpa. Aparece o ímpeto errôneo, o marasmo negligente, e outras combinações mortais para os laços sociais. Acaba em escolhas que mortificam o presente. Não se deixe nunca levar pelas paixões, elas são tontas, são tantas. Devora-nos pelo "E se".
 Eu tenho esta vontade de mudar de tempos em tempos, quando a alegria está em maré alta, quando as coisas de fora me sufocam e as de dentro continuam firme, apanhando, gritando por socorro, e segurando vida contra o adverso. Esta vontade de mudar vem da verdade, do planejar futuro, do acreditar no amanhã, mesmo que precedido de outra vontade de mudar, mesmo vindo de outro alguém. Agente modificadora, ela sempre pousará nos meus pensamentos imaginando como ela faria para escapar de tanto barulho voraz, ainda que a resposta seja a mesma: enfrentando-os. E se não conseguir sozinha, pedirá ajuda, mas nunca deixará de lutar.

 A carne e o pensamento firmam aspecto concreto, mas os sentimentos... esses são frágeis. 


quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Com a Ponta dos Dedos



 Suavemente eles escorrem por tuas costas, parte branca, macia, suave. Atrito sublime. Os dactilos desenham formas, perpendiculam as costelas, dedilham a cintura e logo as fissuras das pontas elevam os pelos poucos que ali habitam. O riscar das pontas dos dedos continuam, o arrepio serpenteia da cintura até achar teu pescoço e logo os dedos levemente acompanham, a pele eriçada de vontade logo se acalma de prazer e assim vai os breves momentos de nós dois.
 Contorno várias vezes teu umbigo querendo pular naquele poço com fundo que gera as risadas mais graciosas de uma noite qualquer. As minhas mãos, ao teu lado, são sempre inquietas, querem te tocar, te desenhar, dedilhar tuas linhas, contornas tuas voltas, percorrer, escorrer, e tentar acreditar que aquilo é real. 
 Aperta firme, belisca, atiça os nervos, marca a pele. A mão é instrumento de um movimento que diz deixa eu ficar mais um pouco em você, ela mesmo longe conjura um tato que só sacia ao tocar em teu corpo, seja nas mãos, seja em qualquer parte do teu corpo. Ela repousa em ti, como um animal que precisa de descanso após a tormenta, e ela acorda em ti como se precisasse te proteger de todo o mal que possa existir. 
 Essas são as artes do meus extremos que um dia fiquei intrigado a observar. Seria normal? Queria ter o controle sobre elas, bem como sobre a minha respiração quando estamos abraçados, respiramos na mesma velocidade. Simbiose. Auscultar teu coração com a palma da mão mais serena, cobrir-te corpo por conta do frio e afagar teus cabelos para ter um sono mais tranquilo, aquecer tuas mãos e teus pés na horas mais gélidas, tentar enxugar teu suor nos momentos mais quentes, ajudar com livros ou sacolas, abrir tampas e fechar portas... Descobri que as minhas mãos fazem tanto por mim e por nós só pra conseguir, por fim, suavemente escorrer por tuas costas, parte branca, macia, suave.

terça-feira, 30 de julho de 2013

Chaplin


Ei! Sorria... Mas não se esconda atrás desse sorriso...
Mostre aquilo que você é, sem medo.
Existem pessoas que sonham com o seu sorriso, assim como eu.
Viva! Tente! A vida não passa de uma tentativa.
Ei! Ame acima de tudo, ame a tudo e a todos.
Não feche os olhos para a sujeira do mundo, não ignore a fome!
Esqueça a bomba, mas antes, faça algo para combatê-la, mesmo que se sinta incapaz.
Procure o que há de bom em tudo e em todos.
Não faça dos defeitos uma distancia, e sim, uma aproximação.
Aceite! A vida, as pessoas, faça delas a sua razão de viver.
Entenda! Entenda as pessoas que pensam diferente de você, não as reprove.
Ei! Olhe... Olhe a sua volta, quantos amigos...
Você já tornou alguém feliz hoje?
Ou fez alguém sofrer com o seu egoísmo?
Ei! Não corra. Para que tanta pressa? Corra apenas para dentro de você.
Sonhe! Mas não prejudique ninguém e não transforme seu sonho em fuga.
Acredite! Espere! Sempre haverá uma saída, sempre brilhará uma estrela.
Chore! Lute! Faça aquilo que gosta, sinta o que há dentro de você.
Ei! Ouça... Escute o que as outras pessoas têm a dizer, é importante.
Suba... faça dos obstáculos degraus para aquilo que você acha supremo,
Mas não esqueça daqueles que não conseguem subir a escada da vida.
Ei! Descubra! Descubra aquilo que há de bom dentro de você.
Procure acima de tudo ser gente, eu também vou tentar.
Ei! Você... não vá embora.
Eu preciso dizer-lhe que... te adoro

Dos motivos.

 Pensava que escrevia por timidez, por não saber falar, pelas dificuldades de encarar a verdade enquanto ardia, arvorava, arfava. Há muitos que ainda acreditam que começaram a escrever pela covardia de abrir a boca. Nas cartas de amor, por exemplo, eu me declarava para quem gostava pelo papel, e não pela pele, ainda que o caderno seja pele de um figo. O figo, assim como a literatura, é descascado com as unhas, dispensando facas e canivetes. Não sei descascar laranjas e olhos com as unhas, e sim com os dentes. Com as mãos, sei descascar a boca do figo e o figo da boca, mais nada.
 Acreditei mesmo que escrever era uma fuga, pedra ignorada, silêncio espalhado, um subterfúgio, que não estava assumindo uma atitude e buscava me esconder, me retrair, me diminuir. Mas não. Escrever é queimar o papel de qualquer forma. Desde o princípio, foi a maior coragem, nunca uma desistência, nunca um recuo, e sim avanço e aceitação. Deixar de falar de si para falar como se fosse o outro. Deixar a solidão da voz para fazer letra acompanhada, emendada, uma dependendo da próxima garfada para alongar a respiração.
 Baixa-se o rosto para levantar o verbo. É necessário mais coragem para escrever do que falar, porque a escrita não depende só de ti. Nasce no momento em que será lida.

Fabrício Carpinejar.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Tenho medo.


Tenho medo de me machucar
por isso, não me atrevo a arriscar.
Tenho medo de me envolver
por isso, não me atrevo a te ter.
Tenho medo de me iludir
por isso, nem tento te conseguir.
Tenho medo de me expor
por isso, vivo sufocando o amor.
Tenho medo de me apaixonar
por isso, estou sempre a chorar.
Tenho medo de querer
por isso, nem quero mais te ver.
Tenho medo de me abrir
por isso, estou a ponto de explodir.
Tenho medo de falar
por isso, não consigo te escutar.
Tenho medo de poder
por isso, vivo a me esconder.
Tenho medo de pedir
por isso, estou sempre a fugir.
Tenho medo de errar
por isso, nem chego a lutar.
Tenho medo de sofrer
por isso, chego a te ofender.
Tenho medo de sentir
por isso, estou sempre a resistir.
Tenho medo de mudar
por isso, eu não posso confiar.
Tenho medo de morrer
por isso, não consigo ter você.
Tenho medo de confundir
por isso, eu não posso permitir.
Tenho medo de decepcionar
por isso, não consigo te agradar.
Tenho medo de me encontrar
por isso, não vou te procurar.
Tenho medo de precisar
por isso, eu não vou me entregar.
Tenho medo de perder
por isso, não consigo combater.
Tenho medo de terminar
por isso, nem chego a começar.
Tenho medo de me apegar
por isso, eu não posso te lembrar.
Tenho medo de amar
por isso, eu não posso nem sonhar.
Tenho medo de vencer
por isso, me contento em viver.
Monique Frebell.



O meu amigo é o meu amor

Imagem de Caleb ou só @porkironandwine Mandei mensagem como se não quisesse nada e logo fui respondido. Ficamos ali por um tempo relembrando...