sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Melhor Morrer Sob As Cobertas Só Que Viver Sem Ter-Te Descoberto.


     Preciso te contar o que vai nos acontecer de hoje em diante, e até o fim. Assim será, ouça. Vamos acordar e a cidade estará devastada, escombros dessa guerra maldita, não haverá água, nem pão. Estaremos destinados ao devastamento, primeiro do corpo, sucumbindo às faltas de tudo o que nos alimenta. Em seguida virá o desmantelo da alma, quando nossos pensamentos começam a sabotar o que temos de melhor e nos presenteia com dúvidas, que não cicatrizam, dúvidas não cicatrizam, nunca. Já com o corpo e a alma em decomposição, nos olharemos sem nada do que temos hoje. Espelhos vazios, colocados frente a frente. E a este dia, o reconheceremos facilmente, estaremos loucos, completamente loucos. Nos restará uma única chance. Isso que temos aqui, olhe, não olhe, não acorde, não se mexa, ouça apenas. Isso que temos aqui. Sei que gostas de dormir mais um pouco, de água com bastante gelo, de deixar a tv em qualquer canal enquanto pensa em outra coisa, em olhar escondido as mensagens que recebo no celular, em falar com sua mãe e seu pai por horas, da comida que faço, do banho muito quente e demorado, de viagens longas, estradas longas, pois também gostas da música que toca enquanto silenciamos fingindo contemplar a paisagem mas estamos simplesmente fazendo planos para o futuro, o nosso futuro, sei que queres adotar um filho, que tenha a minha tranquilidade e a sua vontade, que ele cresça saudável, que seja independente, que conheça Berlim assim que puder, que morar no campo é uma opção, mas não para essa vida, damos risadas disso o tempo inteiro, tu e os teus refúgios no campo. Mas entendo o signo. Sei que teu desejo é sair e buscar um outro refúgio. Que pensas na nossa segurança, na nossa vida e penso também, mas não quero mover-me se for um perigo. Melhor morrer sob as cobertas do que viver sem ter-te descoberto por completo. Te amo, como te amo, estarei aqui, estou aqui, sempre estive, obrigado, obrigado, te amo. Sei que teu desejo é sair e buscar um outro refúgio, amor. Pois ouça, quero que saibas que vou ser o teu refúgio por quanto tempo essa guerra maldita lá fora continuar, mesmo que não tenhamos água, nem pão. Nosso corpo pode até desistir, mas a minha alma cuidará para que a tua alma esteja sempre assim, serena, descansada, em paz.

One Piece


     -Olha, disse ele timidamente, trouxe isso aqui para ti.
     -Ah, surpreendi com alegria, não precisava.
     -É só uma lembrança. Completou ele entregando-me o presente.
     -O que vale é a intenção. Sorri.

     Quando estamos prestes a dar algo em sentido especial, um presente propriamente dito, buscamos algo que a pessoa goste, algo que seja de seu cotidiano, algo no qual ela possa usar, de forma direta ou indiretamente, podendo ser uma roupa, utensílio, aparato de beleza, um jogo, uma viagem, um cartão. Pode ser qualquer coisa que faça a pessoa se sentir querida. No tocante ao desenvolvimento amistoso, dar um presente (não importando a data) é de fato um ato meio confuso se não houver direção ou lógica precisa.
     Acertar na hora do presente é algo, ou muito fácil ou muito difícil. Mesmo não sendo um Amigo Secreto, presentear é sentimento que não requer felicidade em troca, a satisfação já basta. O presenteado não precisa soltar fogos, dar pulos ou urros de alegria, apenas o olhar verdadeiro junto com o sorriso espontâneo é a resposta correta. Ver o presenteado com o ar de decepção é dilacerador, tanto que não sabemos se morremos ali mesmo ou pedimos licença para morrer de vergonha em outro lugar, por mais desculpas que possamos dar, por mais "trocas" que se possa existir, nunca terá a mesma reação de quando da primeira vez.
     Adito ainda, a expressão mais significante de todo esse processo é quando o presenteado se surpreende de uma forma tão ginórmica que ele fica estupefato. Como no vídeo do garoto que ganha o card do Blastoise. E isso não requer gastos exorbitantes ou façanhas estrambóticas, para deixar alguém com o olhar de uma criança plena de felicidade, basta ser criativo. Simples o fato de encontrar ou fazer algo que o alvo nunca esperaria ganhar. Pode ser algo tão singelo como um carrinho de fórmula 1 que ele curtia quando pequeno, pode ser um piercing em formato caveira que ela esperava para finalmente furar o trago, pode ser uma viagem para um lugar nem tão longe e nem tão perto, mas o suficiente para esquecer o trabalho e toda a vida agitada da cidade grande, pode ser um abraço, pode ser uma conversa, pode ser um caminhar nas areiras da praia, pode ser uma partida de video-game, pode ser um enfeite de natal, um óculos de grau, pode ser qualquer coisa, menos o mal.
     Não será mais um presente. Automaticamente tornar-se-á um troféu. Algo que o presentado irá se orgulhar para sempre, será o vínculo entre as pessoas, o pacto de espírito que se perpetuará no tempo e será fidedigno ao sentimento ali depositado. A cada novo trofeu um novo sentimento, uma nova pessoa, um novo acontecer. Nunca algo, mesmo que repetido, ele nunca será o mesmo. As canalizadas energias que vibram em contorno do objeto ou memória quebrará karmicamente todo e qualquer sentimento malévolo que possa tentar sequestrá-lo. Será o único pedaço. Apenas seu e de mais ninguém, único, raro, imortalizado, perpétuo.


In My Hand


     Não sei pintar quadros, não sou bom em falar publicamente, não sei dar nem estrelinha, fazer poemas ou poesias, não sou músico, nem autor musical, de teatro resta-me apenas a platéia, da película o assistir, da arte apenas as letras. Quantas letras.
     Dos sentidos projeto apenas o figurado e com detalhes lapido o surreal até ficar irreal, moldo com peculiaridades e crio um cena, cenário motor, retrofágico imaginário, logo encapsulo todo o sistema que se sucede e de pronto torna-se uma estória, de tantos contos que história se per faz. 
    Isso é o que tenho a oferecer: um traço, rabisco, esboço. Tenho em mãos aquilo que tenho em mente, espaço aberto e infinito, um complexo diverso e desperto, algo que regularmente atribuo como qualidade, metáfora da forma que vivo, uma fuga sagaz, um refúgio voraz. Meu universo.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Home


     O maior desejo do trabalhador comum é ter sua própria casa. A casa dos sonhos nem é aquela com vários cômodos, piscina, ar condicionado, aquecedor, escadas de carvalho puro, sótão, porão, garagem automática, jardins parisienses, fontes de água cristalinas, um bosque próprio, que seja na praia, no campo, nas montanhas, no frio, no quente, na ventania. A casa que todos sonham na verdade não existe, isso mesmo, é pura utopia.
      O que na verdade o trabalhador quer é não pagar mais aluguel, entretanto sai do aluguel para a hipoteca, do aluguel para o condomínio, do aluguel para o financiamento em duas gerações.

Se Deixe Chover



     Se você me emprestar sua alegria, talvez assim eu possa ver o mundo girar, talvez eu possa sentir o tempo passar. Se o dia não raiar, o que serão dos meus medos? Entenda que o apocalipse existe dentro de nós a cada novo dia, é uma constante guerra contra o fim de tudo: das raivas, medos, anseios, desilusões, mentiras... São tantos defeitos que as qualidades se penduram em penhascos hipócritas acobertados por finas camadas de neve cínica. 
    Eu não nasci para ser feliz, vai ver seja por isso que eu veja o mundo de uma forma desorganizadamente síncrona. Não estar fadado à felicidade não quer dizer que esta não exista, que eu não possa senti-la, apenas advém da minha vontade, do meu eu natural a busca infinita e exaustiva por um breve momento de satisfação pessoal. Acredito que isso se chame resignação. Algo que você processa em sentimento, entende as circunstâncias que provém de fora ou de dentro e administra da melhor forma. Não significa que eu deixei de importar, que não dói mais, que não sinto falta, ao contrário, a saudade fez se companheira, o incômodo é desagradável mas suportável e a dor... a dor é ferida exposta que arde quando a água toca e envereda a carne, mas se não houver agente que toque-a, a dor apenas é marca que espera em reza cicatrização.
     Permita-se. Se deixe chover.
     Abrigue a possibilidade remota de um impossível. Não importa o que você seja verdadeiramente, mesmo que não saiba onde você esteja ou por onde siga o seu ser, apenas faça a busca do belo. Acredite. Muito que não faz sentido acaba dando vazão ao coração, um repeteco de chiliques que desemborcam em figuração de um aspecto feliz.

 

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

O Outro Eu


Como são enigmáticas e estranhas
as relações que mantenho comigo mesmo.
Essas a que a toda a hora me empenho,
dentro de meu corpo, minhas entranhas!

Discuto comigo próprio e argumento,
como se um outro estivesse aqui,
a julgar as intenções e os sentimentos dentro de mim.
Sem me dar trégua, a todo momento!

Quem é esse outro, que não sou eu?
De aonde vem ele, de onde nasceu?
Seremos irmãos, os dois, um do outro?
É que só descansamos quando chegamos a acordo!

(Zedaesquina)

domingo, 23 de dezembro de 2012

Zephir


     Embora não tenha um milímetro do meu corpo com a culpa que busquei, ainda assim não encontrei razão para que você tivesse aquele diálogo tão informal e eloquente a beira do abismo. Agradeço desde já sua voyer participação em outro dia mais feliz da minha vida, acredito que estamos no número oito desde então.
      Mesmo sendo difícil aturar o fato de sua, ainda, existência, eu fico a mercê de suas nada delicadas aparições.

     "Tire os pés do chão e ponha os pés na vida." Você me disse escorando-se na bancada. Eu ainda olhei duvidando e sem entender fui, aos poucos, cedendo. Fora o que mais me encucou durante todo aquele trajeto. "O que você está fazendo aqui?" Levantei a sobrancelha. "Vim porque você precisa de ajuda." Você me respondeu dando um olhar para aquilo que eu não ousei contestar. "Eu não preciso de ajuda." Retruquei. Você ironicamente me olhou e eu senti que brotaria um sorriso sarcástico e brasal, logo destaquei minha sensatez.
     Entre caprichos e adereços íntimos, foi-se a noite como em um joguete de conversação e carinho, meio tributado por desejos insanos e emblemas de cores salteadas. E mesmo baixando a guarda vagarosamente, mesmo com isso você não ia, não sumia, nem sequer convalescia eu meu contento de não-observação. "Até quando você vai ficar aí?" Perguntei irritando-me. "Até quando você quiser." você me respondera. Respirei fundo e tentei imaginá-lo longe. Abri os olhos e ele continuava ali, parado, como se esperasse alguma coisa. "Não adianta, sou fruto inconsciente da sua mente, esqueceu?." Você me respondera tocando seu indicador em perfuração sutil ao meu ombro, senti naquele momento o calor que ausentava aquele recinto invadir meu corpo, arrepio e outras vontades correram livres por um breve momento.
     Lembro-me que deixei escapar um dizer parecido com "Estou ficando com calor". E então, não o vi mais por ali, até que tudo adormecera, você me puxou o pé e inquieto por sua presença e fuligem. E por mais poucos segundos ouvi você sem dizer uma palavra em troca, apenas ouvi um discurso, monólogo pré-existente de alguém que tinha muito para falar. Falou tanto e tão objetivamente que não precisou atravessar o espelho quando se fora, não precisou  esquivar-se entre as frestas, não teve nenhum aparato. Apenas abriu a porta e se fora.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Liverpool


  Tudo o que eu lembro são dos bons momentos, lembro do teu nome, do jeito que me fazia rir, mas não lembro do teu rosto. Lembro como é o teu gargalhar que até agora me faz sorrir, mas não lembro do traço dos teus lábios rasgando um sorriso em conversão do sério a um caloroso aspecto delimitadamente incrível de alegria.
   Lembro da forma de me imitar, mas a feição é turva, de nítido tenho pedaços. Um olhar, um mastigar, um fungado inesperado, nada que fusione em construção ao fisiológico ser. Poderia pensar que foi tudo um sonho, sozinho como o tédio, por isso o bloqueio ainda que tardio do teu rosto, do sentimento de agradabilidade que se congelava a cada som que subira garganta a cima e chamava por mim.
   Assim como uma outra vida, viajamos no tempo e espaço e nos deparamos com o som do mar fazendo constrição aos nossos dilemas. Pousados sob o céu riscado de neon, vislumbramos o que chamo de Liverpool. Um momento irreal daquilo que não podemos maquinar em vida comum, uma fuga ao paradiso sistema que é criado uma única vez, algo que nos remete ao superliminar desejo de nunca acabar. E fora ali que trocamos figurinhas, compartilhamos sonhos e dissecamos ilusões. 
   Engolimos o dia entrelinhas e estrelinhas começaram a ser prepostas no firmamento. Varamos o crepúsculo como uma sorte vista ao chão e embolsada com carinho ficamos ali, aos barcos e barrancos, costurando uma vida. Construindo saídas. E no limiar de aparato concluir, deixamos para trás tudo e nada. Fora apenas uma tarde em prosa, em calor e temor que o mundo pudesse nos tocar. Liverpool, um lugar onde só eu sei ir e voltar, um lugar onde eu adoraria te encontrar e sussurrar em teu ouvido: Como é bom te abraçar.

Outra Pergunta?


     E eu queria fazer outra pergunta, até lancei a proposta, mas não consegui completar meu ideal. Fui amedrontado por si em pensar em bobagens que ainda não consegui assimilar, não queria direcionar latente ferida para qualquer cura que não viesse do meu eu, seria covardia. Entretanto perdurou na boca seca o sabor agridoce da verdade que estava preste a ouvir. Como eu queria ouvir que era querido, ou até mesmo uma simples saudades, nada perfeito ou extremo ao tempo.
     Seria forçar a barra qualquer forma de aproximação voluptuosa. Tenho que esperar as coisas acalmarem, saber o que posso fazer, criar um padrão, para daí iniciar um caminho. Trabalhando com as probabilidades eu posso até não espantar em me perder no caminho que quero encontrar. Só eu sei por onde andei e onde quero chegar, devagar, cantando em sussurro o meu amor.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Aus


     E o falatório e alto timbre vibravam o ar com tanta violência que os tímpanos piavam. Turvava em reverberação aos estridentes e berrantes, aos poucos fui ficando sem audição, fiquei sem sintonia. Escureceu a vista, sentei para respirar, mas de nada adiantou, me senti como se algo tivesse explodido próximo a mim, estava surdamente atordoado.
     E a sensação de descontrole tomou conta, não sabia exatamente o que pensar. Tudo chiava desorganizadamente, não pudia raciocinar, as poucas palavras percebidas não tinham nexo, não tinham causa. Barulhentas as vozes tentavam sobrepor ao zunindo que fazia ranger meus dentes. A sensatez começou a brotar ao longe, senti o cheiro do queimar e isso me fez foco.
     Muito embora tudo tenha se estabilizado, a indiferença fez-se presente perante todo aquele estapafúrdio desmerecer. Fui jogado aos leões e agora às traças; Ora humilhado, ora desintegrado. Assim vão meus dias, a cada novo amanhecer, apenas uma leve sensação de existência, um leve suspiro de luta contínua para a crença mórbida em si.
     E, após a surdes repentina e o descolorir da vista, percebo que é hora de ignorar aquilo que machuca, aquilo que não faz mais ferida, o que hoje é apenas uma cicatriz que coça, algo que você ainda faz questão de bater no peito para dizer que pode, para dizer que faz. Se eu não fosse o que sou, iria até acreditar em tudo, mas eu sou o tipo de pessoa que muitas vezes deixa a sensatez em modo ativado em todos os momentos da vida e isso me garante ver o que realmente se passa ao meu redor, e disto eu dou-te apenas minha indiferença. Algo que você merece faz um bom tempo, algo que ninguém ousou deixar crescer por simples medo, medo de ti, medo de não saber falar na sua cara aquilo que você merece ouvir.
     O tempo chegará e eu falarei com todo o prazer, mesmo que isso resulte em sangue derramado. Por mais que o tempo passe, quando a injustiça toma uma proporção tão grande que não cabe em peito, não cabe em choro, não cabe nem mesmo na infiel raiva contida, inicia-se uma revolução. Começa a nova era com o simples friccionar de dentes, inicia-se com a intenção de justo, com a coragem de uma vida tolhida.


sábado, 15 de dezembro de 2012

Plenitude


     A cada dia que passa, ficam escassos os filmes da disney que tanto me confortam, já faz uma semana que estou diariamente assistindo e nada me faz melhor, o vazio continua a perdurar no tempo e aos poucos volto a morrer. Vi a tristeza tomar conta naquele momento que optei em ir, sim, era a minha vez. E tudo o que eu mais desejava era sumir. Uma rajada de angústia penetrou meu peito que se abrira em agonia e insanamente desfragmentou todo o meu coração.
     É hora de ir, não sei para onde, mas não posso continuar aqui. Não posso ficar preso por mais um tempo aguardando tudo mudar. Tenho que mudar. Levantar-se já é um grande passo e senão o maior deles, tudo começa por algum lugar e antes que eu me espalhe no ar, antes que meu corpo vire moléculas respiráveis de sonho, tenho que adquirir consistência plena. Tem que ser algo que nunca imaginei ser, tenho que ser eu mesmo. Em plenitude.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Lave Suas Mãos


      Você emanava uma luz amarela, condensada e esporada. Aura. Sabia que era você no momento que adentrei no recinto, não senti teu cheiro, não vi sua pessoa, mas sabia que você estava ali. Apenas continuei meu caminho e nos esbarramos no caminho de uma única via, você olhou para mim sem o olhar cima-abaixo, olhou diferencialmente nos meus olhos e profundamente neles você proferiu um leve sorriso. Este sorriso não representava nada além da sua íntima felicidade, era o corpo falando para todos que você estava feliz independente do externo. Você estava radiante.
     Queria trocar qualquer coisa só pra te levar pra qualquer lugar que você quisesse, queria te ter de volta, pois não tinha você feliz por um lustro. Isso mesmo e você sabia, tocando no meu punho quase estendido não perguntou como eu estava, não disse uma saudação, apenas em íntimo contento sorriu "Agora eu sei.". Eu fiquei sem entender, no entanto tua alegria era tamanha que nem precisava falar nada, já estava a sorrir em desconto. Fiquei com tua frase em mente, fiz meu percurso, ao sair olhei para a rua que sempre te esperava aparecer com um belo sorriso e segurar livros, mas não havia nada ali. Continuei meu caminho. 
     Não tenho nenhuma raiva, nenhum ressentimento, nada de ruim. Lavei minhas mãos aos dizeres de terceiros, aos boatos e estórias que as pessoas infelizes inventam, pois sei o que sou, quem sou e onde irei e disso você possa ter certeza. Certeza esta tão infantil e honesta da mesma forma que tua alegria arrepiou meu punho até minh'alma, não havia um conflito, um mal dizer, era justo e sadio, era lembrança e salutar esperança. Conversamos tanto em um micro segundo que me sinto usurpando o tempo.
     E se eu fosse o primeiro a voltar a mudar o que eu fiz? Seria que isso remeteria o presente em reflexo convexo ao passado pré-existente em demasiado desfigurar de crenças e complexitudes desviadas e/ou conjecturadas a um propósito diferente ao qual estamos sujeito, ou melhor, destinados? Que seja.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Simplório


     Eu já sabia o que estava acontecendo, e por mais que eu não quisesse, ainda assim eu prevejo as coisas. Meus sonhos estranhos que mostram aquilo que eles escondem, as abstrações dignas de debates sem estapafúrdios dizeres, tudo na medida certa. Relevando os sentimentos e inquietações noturnas, esperei calmamente sair do olho do furacão. Sim, sabia que logo chegariam as tribulações, as fortes e impactantes atribulações que ainda açoitam o meu cortiço.
     Eu queria rir descontrolavelmente ao ouvir do patriarca as palavras que repeti em mantra e eles quiseram apenas protelar. Quando será que alguém aqui vai viver e projetar a realidade latente em vez de supor ou imaginar outras potenciais vertentes? Eu como pessoa esquizofrenicamente insensível deveria ser o ultimo a ter os pensamentos mais sensatos, mas o que vivo é o contrário absoluto. Friamente entendo o que é de meu poder, poder de outrem e o advento natural. Acredito que essa seja a trindade que funda a indulgência, pois como ser tão deliberadamente perspicaz de tal maneira a não crer no que está supostamente a frente sem uma mera indagação?
     Se antes não havia incentivo ou vontade de fazer algo para si, tal como correr atrás de novos ares, de projetar futuros brilhantes, imagine agora. Consegue? Eu não consigo. Atam-me em grilhões e me mandam voar. E sadicamente atendo a tuas vontades, sem brilho no olhar, sem vida a expirar, apenas faço aquilo que você quer que eu faça. Não há uma saída sequer. Vai ver fora isso que tanto aguardei, qual seria a justificativa de construir possibilidades se no fim estarei fincado no mesmo lugar, com as mesmo pessoas culpadas, como os mesmo problemas, mesmo tudo... Pra quê se esforçar ao fracasso? 
     Vamos apenas esperar que essa fase ruim passe e que possa voltar ao menos conturbado normal. Se bem que a primeira coisa que eu pensei enquanto segurava o gargalhar fora focar o mínimo de vida útil que terei no único sistema viável de futuro, a própria escrita. Esta que em tempo divaga por desmerecimento peculiar, do mesmo que após a gargalhada ser quase totalmente contida, sim porque ainda proferi um riso seco de sarcasmo, quase uma tosse maldita em contrabando de intenção, pensei furiosamente consigo que estava acontecendo novamente. O tempo passou e mais um vez não era a minha vez.
     Tive um surto vocacional e peguei as apostilas para a preparação da pós graduação, a felicidade encheu meu peito, um sorriso brotou e eu disse "vamos lá". Não longe dali vieram todas as verdades que eles tentaram suprir em descontento meu. Se fora outra oportunidade  pois eles contam comigo, como sempre o fizeram, não posso ir longe, tenho horário fixo os sete dias da semana, os trezentos e sessenta e cinco/seis dias do ano, pedem que continue sensato e responsável lá, pedem que eu tenha pulso firme e controle aqui, mas não pedem para que eu seja feliz em nenhum lugar. Não me deram uma gravata, me deram uma corda e a cada volta nesse nó me sufoco em próprias lamentações. Um suicídio assistido. 
     Me pergunto se é hora para surtar, sumir, fugir, começar, viver. E não há família que dê suporte, só há cobranças e cobranças, sempre que tento algo de melhor, me dizem que sou egoísta por deixar de lado coisas mais importantes, como as vidas deles. Não há companheirismo no atual relacionamento, e me pergunto até se existiu um, pois sempre sou a ultima opção, um escanteio mal designado que às vezes é levado em conta, e não é por falta de avisos que digo que estou cansado disto, cansado de ser sempre o ultimo, sempre o individualista, sempre a ovelha negra. Me vejo em ponto de explosão ou morte. Sinto a asfixia apertar minha proeminência laríngea, rarefeito se torna o ar em meus pulmões cheios de cicatrizes, o fôlego é ostentado com todo o rubor de saúde.
     Não há emoção, não há brilho no olhar, não há nada.
 Oco.
 Vazio.
 Vácuo.
     Seja lá o nome que você dê em troca ao decifrar aquilo que não habita no receptáculo de composto carbonado. O que mais fere são os comentários dos supostos que jogam-me nestas condições e como não sou de revidar aquilo que eles não conseguem entender, fico recolhido no meu próprio espaço, mesmo que imaginário espaço de conforto íntimo. E é aqui, no sereno logo abaixo das traves que intercalam as constelações, é aqui que sinto o frio que emana do invisível percorrer o meu corpo e acender o d'Ele. Por mais que não fale, ele continua por perto, observando e hoje, diferente dos outros comportamentos, Ele ficou aqui do meu lado, sentado ao chão, sujando-o com a fuligem que cai de seu corpo brasal. Mesmo que ainda ao estalar de dedos fagulhe o inesperado, não creio que seja momento oportuno para ele voltar, e Ele sabe. Agora é a minha vez. 

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Bug's Life


     Se um gafanhoto falasse com você, o que acha que ele diria? 

"Voilà" disse ele apresentando-se. Olhei bem para aquele caricato inseto e de todos os ângulos ele aparentava ser bem real. "Você falou comigo?" indaguei desacreditado e ele, lentamente, sorriu para mim. "Isso é um sim?" pensei retoricamente.

     Tudo aconteceu tão inacreditavelmente que ainda me pergunto qual o motivo daquela tarde em prosa, não me questiono se as coisas são verdadeiras ou não, apenas me pergunto qual o motivo, razão ou circunstância. Isso mesmo, não me incomodo em falar com coisas, animais ou si próprio, já que cada um acredita no que quer, por quê não?
     Tem gente que acredita em Deus, Deusa, anjos, demônios, exús, fadas, duendes (muito embora eles sempre mintam), acreditam em si e nos outros, acreditam que as coisas vão melhorar, ou que as coisas não podem piorar. A crença advém do ser e sua projeção é única, mensagem. Não importa se o cosmos se comunica contigo por vias diretas ou indiretas, atente a mensagem a ser transmitida.
     E foi assim numa quente tarde de primavera, em conversa com um saudoso gafanhoto que me encucou com suas polidas palavras e carinho tímido. Conversamos sobre algumas pessoas e nada mais que isso, fora um verdadeiro arrancar de memórias e aposições de peças no quadro sistemático de valores. Daí, entendi o que fazer a partir daquele momento. E foi um modesto e bem verde gafanhoto que me mostrara o caminho, seria um gafanhoto meu novo guia?
    Sendo ou não sendo, rezo que possa encontrá-lo de outra vez e contar como estão indo as coisas, ou pelo menos dar um "bom dia" ou perguntar se está tudo bem com a senhora sua esposa e seus três filhos. 

     
  

     

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Flower


     Contraste seria mais objetivo, mas não fora o estopim deste pensamento, embora fosse o nome de uma boa teoria. A teoria do contraste.
     Contraste é a diferença nas propriedades visuais que faz com que um objeto seja distinguível de outros e do plano de fundo. Logo, contrastado é o objeto que se per faz distinguível.
     Agora observe em tua vida, crie um plano de fundo, pode ser uma situação ou lugar e agora observe o contrastado, o alvo, a pessoa ou objeto. Analise sua interação com o meio e seu comportamento pessoal. Sacou? Pois bem, o que vou delatar é o fato das pessoas não se atentarem ao colorido e ao contrastado, ou pelo menos elas demonstram (mesmo que falsamente) não perceber esta situação.
     Vivo com algumas pessoas que não se situam na própria vida, que às vezes reclamam da posição ao qual se colocam. São pessoas medíocres que não vivem a própria vida, que gostam de subcolocar a si perante os outros, pessoas aos quais devemos nos afastar. Elas agarram nossa vontade como se fosse as delas, elas acabam alugando nossa paciência e não do modo bom, da maneira saudável; elas raptam nosso entender que é conversado com elas, mas elas "não entendem", ou fingem fazê-lo.
     Todo mundo tem alguém contrastado por perto, um familiar, um vizinho, um amigo, ou até algum conhecido. O contraste pode ser uma fase, ou um modo de vida. Quer exemplos? 
     O cara que quer passar no concurso, mas não estuda. (Na certa ele acha que pela sorte do espírito santo ele vai fazer uma prova boa ao ponto de uma colocação aceitável, nem baixando o Chico Xavier nele.)
     A mocinha que quer arrumar um namorado, mas não sai de casa. (Ela pode até arrumar alguém, sempre tem o encanador, carteiro...)
    O rapaz que quer ficar sarado pro verão, mas nem na porta da academia pisa. (Isso se não for daqueles que depois de "malhar pesado" vão direto pro rodízio de pizza e depois ficam se perguntando "Será que tá dando resultado?".)

     Há tantos casos que eu poderia escrever um livro. Quem não conhece um BeyBlade (pessoa rodada; periguete; putão) que reclama por um namoro sério? Vive nos bares e baladas da vida, pegando geral e depois reclamam da fama imposta, acredita que eles ainda dão a desculpa "Enquanto não encontro a certa, me divirto com as erradas."... Sério isso? ¬¬'

     Depois eu sou o ignorante, insensível, insuportável... Mas é claro que eu sou, quem te disse que eu não era? Não me venha com idiotas citações ou com mimimis, ora bolas! Se você se põe numa qualidade de panaca e reclama de si, tenho péssimas notícias para seu terapeuta. Aumente a dose de Realidade e de preferência tomar antes das refeições 5mg de composto Amor Próprio & Bom Senso. 

     Não precisa ser psicólogo, sociólogo, teórico ou amigo pra perceber tais condições do contrastado. Não deve-se, também, ter pena dessas pessoas, pois muitas vezes o que elas buscam são tapas na cara de pura sensatez. (De modo figurado, não vamos dar porrada nos nossos coleguinhas, por mais que eles mereçam.) 

Bored


     O tédio consome toda a minha vontade de ser alguém. Não propriamente ser, mas o querer ser, o correr atrás dos objetivos, o criar futuro. Inerte estou. Do que seria a vida sem o contínuo e cíclico dia-a-dia? Isso muito me abala.
     Sei agora o mau que faz ficar na mesma posição em vitae, enraizado nos mesmos ideais acabamos por fincar no solo do incontentamento o mesmo dissabor que é uma frustração, pois pior do que ter uma tentativa em fracasso é apenas olhar a oportunidade passar, e isso é o que mais sabemos fazer. Não que seja de todo ruim, mas por muito devemos arriscar, desentranhar  a ultima vontade de viver e lançá-la com toda força, mesmo sendo a ultima chance de sobreviver por mais um pouco.
     Faz tanta falta a motivação diária ao levantar, o criar metas para os dias conseguintes, o marcar calendário a espera de algo bom. Hoje, sinto a terra girar com toda a sua força, mas estou parado. Olho os céus só para saber que o dia está passando, tal como as nuvens que caminham ao abismo do horizonte, marcham sistematicamente fazendo-me acreditar que estamos indo para algum lugar, ou melhor, elas estão indo e lembrando-me que estou aqui. Parado. Olhando o mundo girar.

Respostas


     E quando ouso esquecer já lembrei. São tantas lembranças boas e ruins que fico em um mix de contraditório desenvolver, em aplicação difusa entre felicidade e raiva. De todos os aspectos o da saudade é o melhor, pois me vejo em um comportamento super estabelecido em pura aceitação do real mundo e com toda a fragilidade da possibilidade remota do transformar em ruínas. Saudades de um tempo que vivi com outras pessoas, outras vontades e hoje tudo mudou, como se a cada dia fosse uma construção contínua de capítulos totalmente novos nessa história. A minha história.
    Catalogado está todos esses momentos. Isso mesmo, muito embora meu bloqueio sobre coisas decepcionantes ainda atue, outras poucas circulam livres em seus compartimentos memoriais, o que não saluta em desdém. Cada carta é lida com a mesma alegria de outrora, cada detalhe, linha, curva, cheiro, imagem... Tudo é guardado sob mil chaves e baús, escrevo-me sempre que possível só para não esquecer a arte de encantar.
     Uma dessas eu escrevi em respostas ao que leio por email, pois é, incrivelmente recebo email sobre este caderno virtual. Muito me felicita em saber que outros loucos o leem. Loucos, ou curiosos ou buscadores de imagens, não importa muito. Já que pelo menos a música sentimental você escuta, algo de mim você leva consigo, e já é um começo. Teórico por natureza, sou virginiano completo, com todo o esteriótipo "exagerado" que se possa ter, somado com um ascendente duvido que é gêmeos, isso resulta é olhar dissimulado.
     Misterioso é o comportamento daquele que apenas observa e daí pode-se extrair, em supra-sumo ao ápice da (ir)racionalidade, uma resposta não muito simples e não muito complexa. Agridoce é o sabor de sua atitude, não é doce e não é ácido, amargo, estranho, não é de fato ruim, mas não é tão bom, ou seria ótimo por não ser comum ao paladar? Poderá até buscar um nexo causal ou fator preponderante, mas tudo não passará de subterfúgio de própria vontade para dar razão as circunstâncias outras que povoam a minha mente.
     Não dou pontos sem nós. Não faço/digo nada que não pensei em outros finais, vivo em constante predeterminação do futuro, como um vidente que conhece as variadas e subsequentes consequências de suas ações ou omissões. E apenas por isso é que seja tão previsível ser eu. Indiferente feição aos milhares de pensamentos que percorrem o que vejo, sinto e ponho em teste. Mas nada que exorbitante em respostas, pois tenho que ser o mais prático e sensato com tudo e todos, e com esse "todos" é que sou uma incógnita de vontades e finalidades em reflexo ao que elas apresentam por verdade.

sábado, 1 de dezembro de 2012

Ginger


     Brevemente o fim chegará, não sei ao certo se de fato será o fim de tudo ou apenas reciclagem anual. Não importando um ou outro, meu testemunho sobre 2012 é deveras necessário. Isto mesmo, para mim já não há o que se esperar em meros 31 dias de natalização, de harmônicos momentos e confraternizações. 
     Deve-se proceder de uma forma cínica as ações do destino. Por outro lado, a curiosidade humana tenta, mesmo que irracionalmente, dar sentindo aos oriundos mistérios perspicazes da vida. Não há nexo, razão ou  explicação para o propósito do significado. Vai ver deve ser assim, sem perguntas extraordinárias ou comentários tardios, a vida deve ser o que plantamos e colhemos e isso você me ensinou muito bem.
     A única pessoa que ousou me contrariar, fez-se dúvida em meios e meias verdades, usou de artimanha iconoclasta e pseudomirma todo o polêmico jardim de indagações que outrora fora deserto. Sim, esta fora você. Já potencialmente diferente só por não ser loira, tampouco morena, aquela que amaldiçoou a própria vida no momento que agarrou esta amizade, este amor único e ridiculamente infantil, tão íntegro em circunstancias que parece uma coisa nunca antes vista, ou melhor, nunca haverá outra vida como essa nossa. Me mostras meu mundo sem mim, me demonstra possibilidades que eu já nem quero ouvir, peço mais cinco minutos e você vem com o agora ou nunca. 
     Você é apenas uma extensão imaginária da minha vontade, minha parte imaculadamente boa, esperançosa em objetivos e desprezivelmente amável parte que não há em mim. Vulgar é teu físico aos olhos dos normais, já que não segue o padrão que nos é jogado como molde a ser seguido. E quem disse que queremos segui-lo? Até o teu abrir boca é diferente aos conterrâneos palavreados dispersos e por vezes fugazes. E disso eu sorrio com todo esmero.
     Queria que você entendesse que naquele dia nada importava, mesmo você tendo como um marco importante, mas... mas eu já não acredito nessas coisas e sabe por quê? Você me ensinou que temos que queimar toda a nossa essência vital durante todo o dia, do alvorecer até o crepúsculo e dia após dia nunca desistir. Ouço sua voz discutir com a minha consciência e todos os meus Eu's quando penso em fazer algo, muitas vezes você ganha deles só pelo simples fato de você existir e, talvez seja por isso, que eu apareço e desapareço de cena, para que eu não estrague isso que existe entre nós. Acho que isso é Só Para Raros. 
     Ainda não foi dessa vez que tudo fora tão perfeito quanto o paradigmado sonho de um perfeito dia de verão, mas pelo menos a angústia da solidão não te atacou, e se ela apareceu eu não percebi, ou simplesmente não quis ver por sempre orar pela tua felicidade. Acredito que vou ter que mandar ninjas acabarem com a saudade que te assola mais que nunca, e enquanto você não se sentir em casa, vou continuar a olhar com ternura o teu belo sorriso, mais não te empolgues tão facilmente, pois terei o mesmo cinismo e cara de poucos amigos enquanto estivermos em um dia comum. 
      Mesmo que o mundo acabe, você deve saber que tivemos a sorte de nos conhecer, conhecer um ao outro profundamente ao ponto de sorrir com as mais diversas situações no qual nos colocamos, acho que você também dançará comigo no frio da noite caso o mundo acabe. E se ele realmente acabar, você promete criar outro como criou este?
     Promete criar outro mundo de possibilidades e com o mesmo sorriso?
     Promete?

Fantasia

Arte de @raytongart V oltei a ver alguns animes. E, desde que voltei, percebo o quanto o machismo e erotização é exagerada e comum. Todos os...